jean GENET

Filho de uma prostituta, de pai desconhecido, foi adotado por um casal de Morvan, na Borgonha. Naquele tempo era comum enviar às regiões rurais as crianças abandonadas da capital.

Após abandonar a família adotiva, Genet passou a juventude em reformatórios e prisões onde afirmou sua homossexualidade. Aos dezoito anos de idade ingressou na Legião Estrangeira Francesa, da qual foi oficialmente afastado com desonra por ter sido descoberto fazendo sexo com outro homem. Enquanto compunha romances ou peças consagradas como O Balcão, Os Negros e Os Biombos, criou uma mitologia pessoal marcada por escândalos, roubos e rixas. Colecionou uma sucessão de amantes, que o acompanharam pelo baixo mundo parisiense e conquistou a nata da intelectualidade europeia. Seus primeiros trabalhos, Nossa Senhora das Flores e O Milagre da Rosa, chamaram a atenção de Jean Cocteau, mas foi através da influência de Jean Paul Sartre que ficou famoso.

Foi também amigo de outras importantes personalidades de seu tempo: o filósofos Jacques Derrida e Michel Foucault, os escritores Juan Goytisolo e Alberto Moravia, os compositores Igor Stravinski e Pierre Boulez, o diretor de teatro Roger Blin, os pintores Leonor Fini e Christian Bérad, os líderes políticos Georges Pompidou e François Mitterrand.

Depois do suicídio de um de seus amantes e do amigo e tradutor Bernard Frechtman, ele próprio tentou matar-se. Genet atravessou a década de 1960 colhendo frutos de sucesso de seus romances, peças e roteiros. Mas, a partir dos anos 1970 até a sua morte, em 1986, engajou-se na defesa de trabalhadores imigrantes na França, assumiu a causa dos palestinos e envolveu-se com líderes de movimentos norte-americanos como Panteras Negras e Beatniks.

Publicou suas memórias no livro “Diário de um Ladrão”, onde narra suas aventuras e andanças pela Europa, suas paixões e seus sentimentos.

O BALCÃO tornou-se uma montagem de grande sucesso no teatro brasileiro, encenada pelo diretor argentino Victor Garcia, numa cenografia muito peculiar e inovadora, produzida por Ruth Escobar na sala Gil Vicente em 1969.

O cenógrafo arquiteto Wladimir Pereira Cardoso descreve este cenário, no programa do espetáculo:

Desde meu primeiro cenário para Soraya, Posto 2, de Pedro Bloch, eu tinha a preocupação das soluções verticais. Ali, dentro do palco italiano construí um edifício de cinco andares. Na verdade, eu já havia imaginado um cenário semelhante ao Balcão para o espetáculo shakespeareano que o diretor inglês Mike Bodganov deveria montar a convite da Ruth Escobar. Daí como no Globe Theatre de Londres, a solução eram cinco andares. Esta forma afunilada se presta muito para que os espectadores, ao mesmo tempo em que têm uma visão global do bordel, fiquem como que suspensos no ar (…) Quando estive em Praga, dialoguei muito com o cenógrafo Svoboda, que fez um palco acrílico iluminado de baixo para cima. Em O Balcão utilizo uma ideia semelhante, iluminando-se o ambiente por meio de um espelho parabólico, escavado no concreto do porão, que está cinco metros abaixo do palco. Ficou uma concha elipsoidal com plástico espelhado, desempenhando função semelhante à de um farol de automóvel.(…) Há ainda um módulo que sobe e desce. Neste palco móvel passam-se muitas cenas, mas os atores distribuem-se por todo o teatro, inclusive nos passadiços inclinados em que fica o público. Do urdimento, desce uma rampa em espiral com nove metros de altura, sendo utilizada em alguns quadros (do espelho parabólico ao urdimento há uma distância de 20 metros). Além disso, foram instalados cinco elevadores individuais e dois guindastes suspendem duas gaiolas, onde dialogam Irma e Carmem. (in Ana Lúcia Vasconcelos, acesso em 16/10/2009)

RESUMO DA PEÇA ‘O BALCÃO’ de Jean Genet.

O Balcão é uma peça de teatro dividida em nove quadros, escrita em 1956 pelo francês Jean Genet (1910-1986). Não pretendo aqui realizar nenhum tipo de critica formal sobre a peça, não sou apto a isso, mas apenas descrever algumas impressões e pensamentos que este texto causou em mim. Digo texto porque nunca vi a peça montada, apenas a li, e penso que isso é muito importante ressaltar, já que uma peça de teatro, normalmente, é escrita para ser encenada. Infelizmente nunca a vi, resta-me então descrever o que pude sentir e pensar do e pelo texto. O Balcão é, antes de tudo, cruel. Em um prostíbulo, ou casa de ilusões, homens são o que não são, fantasias tornam-se realidade e pessoas amarguradas vivem por alguns instantes uma vida que jamais terão. Enquanto isso se passa dentro do prostíbulo, lá fora acontece uma revolução… mas a casa de sonhos não pode parar e não pára, apenas preocupa-se com o desenrolar dos acontecimentos. Para as instituições já fixadas, manter a ordem é sempre necessário.Mas não venho aqui contar o enredo da estória e sim minhas impressões e pensamentos. A peça parece ter sido escrita para o século XXI. Não se sabe, tanto na peça quanto na vida, o que afinal chamamos de real. Pessoas representam papéis o tempo todo, isso por si só não me parece constituir um problema, mas quando se começa a acreditar que se é isso ou aquilo… aí está o problema. Covardes saem pelas ruas com roupas de guerreiros e acreditam ser Hércules ou Aquiles. Tolos escrevem um monte de asneiras pornogáficas e sentem-se lisonjeados se alguém os chama de Bukowski. Pernas de pau vestem a camisa dez e têm certeza que são melhores que Pelé. Como no texto, hoje parece que não existem mais homens, apenas reflexos infinitos em infinitos espelhos. De dia, terno e gravata e cabeça erguida, o mundo é meu. De noite, apenas mais um bebê chorando sozinho o medo de um quarto escuro. E prostitutas são rainhas, mendigos são escravos, carrascos são covardes, bombeiros são o chefe de polícia… A revolução já é ordem. Mas a revolução existiu, a rainha existiu, as mortes foram verdadeiras? Ou tudo não passou de mais uma grande encenação na casa de ilusões? Mas afinal o que é real? Tira-se todos os papéis que os homens representam e que lhes restará? Muitos dirão que nada, eu prefiro acreditar que deste fato pode nascer um homem que seja somente isto: um homem.E tudo isso são apenas as minhas impressões e os meus pensamentos. Leia a peça, vá ao teatro, pense. Vale a pena.Eduardo Martinhão Ignácio.

SINOPSE

A peça conta a história das irmãs Clara (Clara Carvalho) e Solange (Mariana Muniz), empregadas no luxuoso apartamento de Madame (Emilia Rey), por quem nutrem ao mesmo tempo ódio e adoração. Basta que Madame saia de casa para que as criadas iniciem um jogo de submissão e poder em que usam as roupas, joias e maquiagens da patroa, imitando sua voz e seus gestos, em requintados e perversos rituais de “faz-de-conta”.

Dia após dia, planejam a morte de sua patroa. Através de cartas anônimas com denúncias, acabam por levar o amante de Madame para prisão. Mas, inesperadamente, ele é libertado e vai ao encontro de Madame, e logo as tramoias das duas serão descobertas pelo casal. Sem saída, as criadas levam seu jogo perverso ao limite.

As Criadas

(Jean Genet – Tradução de Pontes De Paula Lima)

Personagens Claire Solange Madame

(O quarto de Madame. Móveis Luiz XV. Rendas. Ao fundo, uma janela aberta, que dá para a fachada de um prédio em frente. À  direita, o eleito. À esquerda,  uma porta e uma cômoda. Flores em profusão. É noite)

CLAIRE – (De pé, de combinação, voltando as costas para a penteadeira. Seu gesto, o braço estendido, é o tom serão de um trágico exasperado) E essas luvas! Essas luvas eternas! Já te repeti suficientemente que as deixasses na cozinha. É com isso, por certo, que esperas seduzir o leiteiro. Não, não, não mintas, é inútil. Pendure-as  por cima da pia. Quando compreenderás que este quarto não pode ser enxovalhado. Tudo, mas tudo o que vem da cozinha é escarro! Sai! E leva os teus escarros! Mas para! (Durante esta tirada,  Solange  brincava  com  um  par  de  luvas  de  borracha,  observando  suas  mãos enluvadas;  ora  em  buquê,  ora  em  leque)  Nada  de  cerimônia,  faz  teu  bichinho.  E principalmente  não  te  apresses,  temos  tempo.  Sai!  (Solange,  de  repente,  muda  de atitude  e  sai  com  humildade  segurando  na  ponta  dos  dedos  as  luvas  de  borracha. Claire senta-se à penteadeira. Aspira as flores. Afaga os objetos de toillete, escova o cabelo, ajeita o rosto) Prepara meu vestido. Depressa, o tempo voa. Você não está aí? (Volta-se) Claire!Claire! (Entra Solange)

SOLANGE – Madame me perdoe, eu estava preparando o chá de tília (Ela pronuncia tílea) da senhora.

CLAIRE  –  Arranje  as  minhas  toaletes.  O  vestido  branco  de  pailleté.  O  leque,  as esmeraldas.

SOLANGE – Todas as jóias de Madame?

CLAIRE – Traga. Quero escolher. E, naturalmente, os sapatos de verniz. Aqueles que você vem cobiçando há anos. (Solange tira do armário alguns estojos que abre e dispõe sobre  a  cama)  Para  o  seu  casamento,  com  certeza.  Confessa.  Confessa  que  ele  a seduziu!  Que  você  está  grávida!  Confesse!  (Solange  se  agacha  no  tapete  e,  cuspindo neles,  lustra  os  escarpins  de  verniz)  Eu  já  lhe  disse,  Claire,  para  evitar  os  escarros. Deixe-os  dormir  dentro  de  você  minha  filha,  apodrecer  aí  dentro.  Ah!  Ah!  (Ri nervosamente)  Que  nele  se  afogue  o  caminhante  perdido.  Ah!  Ah!  Você  é  horrenda, minha  bela!  Curva-se  mais  e  olhe-se  nos  meus  sapatos.  (Estende  o  pé,  que  Solange examina) Pensa que me é agradável saber o meu pé envolto nos véus da sua saliva? Na bruma de seus pantanais?

SOLANGE – (De joelhos e muito humilde) Desejo que Madame fique linda.

CLAIRE  –  Ficarei.  (Arruma-se  ao  espelho)  Vocês  me  detestam,  não  é?  Vocês  me esmagam com os seus cuidados e a sua humildade, com gladiólogos e rosedá. (Levanta- se em tom mais baixo) Atulhamos à toa. Aqui tem flor demais. É mortal. (Contempla-se ainda) Ficarei linda. Mais do que você jamais conseguirá. Pois não com esse corpo e essa cara que conquistará Mário. Esse jovem leiteiro ridículo nos despreza e se fez em você um bebê…

SOLANGE – Oh! Mas eu nunca…

CLAIRE – Cale-se idiota! Meu vestido!

SOLANGE – (Procura no armário, afastando alguns vestidos) O vestido vermelho. Madame vai por o vestido vermelho!

CLAIRE – Eu disse o vestido branco de pailleté.

SOLANGE  –  (Dura)  Sinto  muito.  Madame  esta  noite  usará  o  vestido  de  veludo escarlate.

CLAIRE – (Ingenuamente) Ah? Por quê?

SOLANGE – (Friamente) Não consigo esquecer o colo de madame sob o drapeado de veludo. Quando Madame suspira e diz ao doutor como eu sou dedicada! Uma toalete negra serviria melhor sua viuvez.

CLAIRE – Como?

SOLANGE – Tenho que explicar?

CLAIRE – Ah! Queres falar… Perfeito. Me ameaça. Insulta tua patroa. Solange, queres falar, não é? Nas desgraças do doutor. Tola. Não é o momento de lembrá-lo, mas dessa sugestão vai tirar um partido estupendo. Sorris? Duvidas?

SOLANGE – Ainda não é hora de exumar…

CLAIRE – Minha infâmia? Minha infâmia! De exumar! Que palavra!

SOLANGE – Madame!

CLAIRE – Estou vendo aonde queres chegar. Já ouço o zum-zum das tuas acusações, desde o começo estás me insultando, procurando a hora de cuspir na minha cara..

SOLANGE – (Mísera) Madame, Madame, ainda não chegamos aí. Se o doutor…

CLAIRE – Se o doutor está na cadeia, é graças a mim, tem coragem, diz! Diz! Podes falar franco, fala. Eu ajo em surdina, camuflada pelas minhas flores, mas contra mim tu não podes fazer nada.

SOLANGE – A menor palavra lhe parece uma ameaça. Recorde-se, Madame, eu sou a criada.

CLAIRE  –  Por  que  denunciei  o  doutor  à  polícia,  consenti  em  vendê-lo,  ficarei  à  tua mercê? No entanto eu teria feito pior. Melhor. Pensas que não sofri? Claire, eu forcei minha  mão,  estás  ouvindo,  lentamente,  sem  errar,  sem  riscar,  firmemente,  forcei-a  a traçar essa carta que mandaria meu amante às galés. E tu, em vez de me amparar, me escarneces? Falas de viuvez! O doutor não está morto. Claire, o doutor, de presídio em presídio, será levado até a Guiana. Talvez, eu, a amante, louca de dor, o acompanharei. Estarei  no  comboio,  compartilharei  sua  glória.  Falas  de  viuvez.  O  vestido  branco  é  o luto das rainhas, Claire, disto não sabes. Negas-me o vestido branco!

SOLANGE – (Friamente) Madame vai por o vestido vermelho.

CLAIRE – (Simplesmente) Bem.  (Severa) Me dá o vestido. Oh! Estou mesmo só em amizade. Vejo em teus olhos que me odeias.

SOLANGE – Eu gosto da senhora.

CLAIRE – Como se gosta de uma patroa, não há dúvida. Gostas de mim e me respeitas. E esperas minha doação, o codicilo em teu benefício…

SOLANGE – Eu faria o impossível…

CLAIRE  –  (Irônica)  Eu  sei.  Me  atirarias  ao  fogo.  (Solange  ajuda  Claire  a  por  o vestido)  Prenda  os  colchetes.  Puxe  com  menos  força.  Não  procures  me  amarrar. (Solange ajoelha-se aos pés de Claire e lhe arranja as dobras do vestido) Veja se não me encosta. Afaste-se. Você fede a fera. De que desvão infecto onde à noite os criados a visitam,  vocês  trazem  esses  cheiros?  O  desvão?  O  quarto  das  criadas!  A  mansarda! (Com  graça)  Por  lembrança  é  que  me  refiro  ao  cheiro  das  mansardas,  Claire,  ali… (Mostra um ponto do quarto) Ali, as duas camas de ferro, separadas pelo criado-mudo. Ali, a cômoda de pinhão com o altarzinho da Virgem Santíssima. É exato, não é?

SOLANGE – Somos infelizes. Eu podia chorar.

CLAIRE – É exato. Deixemos nossas devoções à Virgem Santíssima de gesso, nossas ajoelhações.  Não  devemos  nem  sequer  falar  das  flores  de  papel…  (Ri)  de  papel!  E  o

galho  de  buxo  bento!  (Mostra  as  flores  do quarto) Veja  só  estas  acarolas  abertas  em meu louvor! Eu sou uma virgem mais linda, Claire.

SOLANGE – Cale a boca…

CLAIRE – E lá, a célebre clarabóia por onde o leiteiro seminu pula para sua cama!

SOLANGE – Madame se extravia, Madame…

CLAIRE  –  Suas  mãos!  Não  extravie  suas  mãos.  Já  lhe  sussurrei  bastante!  Elas emprestam a pia!

SOLANGE – A queda!

CLAIRE – Ahn?

SOLANGE – (Arranjando-lhe o vestido) A queda. Estou ajeitando essa sua queda de amor.

CLAIRE – Afasta-se, labona! (Dá com o salto Luiz XV na têmpora de Solange. Esta, agachada, vacila e recua)

SOLANGE – Ladrona, eu? Oh!

CLAIRE – Eu digo lambona. Se insiste em choramingar, faça-o na sua mansarda. Só aceito aqui, em meu quarto, lágrimas nobres. A barra do meu vestido ficará, certo dia, cravejado de lágrimas, porém preciosas. Arranja a cauda cadela!

SOLANGE – Madame se arrebata!

CLAIRE  –  Em  seus  braços  perfumados  o  diabo  me  arrebata.  Me  levanta,  eu  decolo, parto… (Bate com o salto no chão) e fico. O colar? Anda, não vamos ter tempo. Se o vestido  estiver  comprido  demais,  faz  uma  bainha  com  alfinetes  de  fralda.  (Solange levanta-se e vai buscar o colar num estojo, mas Claire passa-lhe à frente e se apodera da jóia, tendo seus dedos roçado nos de Solange. Claire horrorizada, recua) Fique com as mãos longe das minhas, seu toque é imundo. Ande depressa.

SOLANGE  –  É  bom  não  exagerar.  Seus  olhos  se  acendem.  Já  está  alcançando  a margem…

CLAIRE – Quer dizer?

SOLANGE – Os limites. Os confins, Madame. Convém manter as distâncias.

CLAIRE  –  Que  linguagem  minha  filha.  Claire?  Estás  descontando,  não  é?  Estás pressentindo o instante em que sais do meu papel…

SOLANGE – Madame me compreenderá as mil maravilhas. Madame advinha.

CLAIRE  –  Pressente  o  instante  em  que  não  serás  mais  criada.  Vais  te  vingar.  Estás preparando? Aguçando as unhas? O ódio te despertar. Claire, não esquece, Claire, tu me ouves? Mas Claire, não me estás ouvindo?

SOLANGE – (Distraída) Estou ouvindo.

CLAIRE – (Urrando) É graças a mim que tu és, e zombas de mim. Não podes calcular como é doloroso ser Madame Claire, servir de pretexto para as momices de vocês. Me custaria tão pouco e deixavas de existir. Mas eu sou boa, e sou bela e te desafio. Meu desespero de amante me faz mais linda!

SOLANGE – (Desdenhosa) Seu amante!

CLAIRE – Meu desgraçado amante ainda contribui para minha nobreza, minha filha. Cresço ainda mais para te reduzir e te exaltar. Recorro os teus ardis. É hora!

SOLANGE – Basta! Depressa… Estás pronta?

CLAIRE – E tu?

SOLANGE  –  (Com  brandura  em  princípio)  Estou  pronta.  Já  estou  farta  de  ser  uma coisa nojenta. Eu também detesto a senhora…

CLAIRE  –  Calma,  menina,  calma…  (Bate  levemente  no  ombro  de  Solange  para acalmá-la)

SOLANGE – Detesto a senhora! Desprezo a senhora. A senhora não me assusta mais não. Desperte a lembrança do seu amante para que ele a proteja. Odeio a senhora! Odeio o  seu  seio…  De  marfim!  Suas  conhas…  De  ouro!  Seus  pés…  De  âmbar!  (Cospe  no vestido vermelho) Odeio-a senhora!

CLAIRE – (Sufocada) Oh! Oh! Mas …

SOLANGE – (Avançando em cima dela) Sim, Madame, minha bela madame. Acha que terá carta branca até o fim? Acha que pode furtar a beleza do céu e me privar? Escolher seus perfumes, seus pés,  seus carmins para as unhas, a seda, o veludo,  a renda, e me privar? E me tomar o leiteiro? Confesso! Confesso, o leiteiro! O viço, a mocidade dele a perturbam, não é? Confesse, o leiteiro. Porque Solange lhe diz: merda!

CLAIRE – (Desvairada) Claire! Claire!

SOLANGE – Ahn!

CLAIRE – (Num murmúrio) Claire, Solange, Claire.

SOLANGE – Ah! Sim, Claire. Claire lhe diz: merda! Claire! Claire está aí, mais clara do que nunca. Luminosa! (Esbofeteia Claire)

CLAIRE – Oh! Oh! Claire… Você… Oh!…

SOLANGE – Madame pensava que estava protegida por sua suas barricadas de flores, salvas por um excepcional destino, pelo sacrifício. É porque não contava com a revolta das criadas. Olhe, Madame, ela está crescendo. Vai estourar e desinchar sua aventura. Esse doutor não passava de um triste ladrão e a senhora, uma…

CLAIRE – Eu te proíbo!

SOLANGE   –   Me   proibir!   Brincadeira!   Madame   está   interditada.   Seu   rosto   se decompõe. Quer um espelho? (Estende a Claire um espelho de mão)

CLAIRE  –  (Mirando-se  com  complacência)  Nele  eu  estou  mais  linda.  O  perigo  me aureola, Claire, e tu, tu és só trevas…

SOLANGE – …  Infernais! Já sei. Já conheço  a  tirada.  Leio  em seu  rosto o que devo responder. Portanto irei até o fim. Aí estão as duas criadas. As dedicadas servas! Fique mais bela para desprezá-las. Já não temos medo da senhora. Nós estamos envolvidos, confundidas  em  nossas  exalações,  nossos  fastos,  nosso  ódio  da  senhora.  Estamos adquirindo    contorno,    Madame,    não    ria.    Ah!    Sobretudo    não    ria    de    minha grandiloqüência…

CLAIRE – Retire-se.

SOLANGE – Às suas ordens, mais uma vez, Madame! Volto para a minha cozinha. Lá torno a encontrar as minhas luvas e o cheiro dos meus dentes. O arroto caldo da pia. A senhora tem as suas flores, eu tenho a minha pia. A senhora, pelo menos, não pode me emporcalhar.  Mas  não  vai  levar,  mas  não  vai  levar  nada  pro  céu,  não  senhora.  Eu preferia acompanhar a senhora até lá do que deixar meu ódio na porta. Ria um pouco, ria  e  reze  rápido,  bem  rápido.  Sua  prosa  acabou,  minha  cara!  (Estapeia  as  mãos  de Claire,  que  protege  a  garganta)  Baixa  as  patas  e  descubra  esse  pescocinho  delicado. Vamos, não trema, não se arrepie. Eu trabalho depressa e sem fazer barulho. Sim vou voltar  pra  minha  cozinha,  mas  primeiro  acabo  o  serviço.  (De  súbito  um  despertador começa a tocar. Solange se interrompe. As duas atrizes se aproximam emocionadas e escutam; uma colada contra a outra) Já?!

FIM DA UNIDADE I

CLAIRE – Depressa. Madame vai chegar. (Começa a descolchear o vestido) Me ajuda, o tempo acabou e não pudeste ir até o fim.

SOLANGE – (Ajudando-a num tom triste) É sempre assim. E a culpa é tua. Nunca te aprontas a tempo. Não posso te liquidar.

CLAIRE – O que nos toma tempo são os preparativos. Olha que…

SOLANGE – (Tira-lhe o vestido) Vigia a janela.

CLAIRE  –  Olha  que  ainda  temos  margem.  Acertei  o  despertador  pra  dar  tempo  de arrumar tudo. (Com lassidão, deixa-se cair na poltrona).

SOLANGE – Está abafado, esta noite. Fez mormaço o dia inteiro.

CLAIRE – É. Isso mata a gente, Solange.

SOLANGE – É isso mata a gente, Claire.

CLAIRE – É. (Levanta-se com lassidão) Vou aprontar o chá.

SOLANGE – Vigia a janela.

CLAIRE – Tem tempo. (Limpa o rosto).

SOLANGE – Ainda estás te olhando… Claire, meu bem…

CLAIRE – Estou cansada.

SOLANGE – (Dura) Vigia a janela. Tu és tão desastrada que ias deixar tudo fora do lugar.  E  tenho  de  limpar  o  vestido  da  Madame.  (Olha  a  irmã)  O  que  é  que  tu  tens? Agora  já  podes  parecer  contigo.  Retoma  teu  rosto.  Vamos,  Claire,  volta  a  ser  minha irmã…

CLAIRE – Estou exausta. Essa luz me mata. Achas que o pessoal daí de fronte…

SOLANGE – O que é que nós temos com isso? Não ias querer que a gente se… Que a gente se organizasse no escuro? Fecha os olhos Claire. Descansa.

CLAIRE – (Põe seu vestidinho preto) Oh! Quando digo que estou cansada, é um modo de dizer. Não te aproveitas para me lastimar. Não tentes me dominar.

SOLANGE  –  Eu  queria  que  tu  descansasses.  É  quando  me  ajudas  mais,  quando descansas.

CLAIRE – Eu te entendo, não te expliques.

SOLANGE – Me explico sim. Tu é que começastes. E logo de saída, com aquela alusão ao leiteiro. Pensas que não te percebi? Se Mário…

CLAIRE – Oh!

SOLANGE – Se o leiteiro à noite me diz grosserias, também diz a ti. Mas estavas bem contente de poder…

CLAIRE – (Ergue os olhos) É melhor verificar se tudo está em ordem. Olha, a chave da secretária estava colocada deste jeito. (Arruma a chave) E sobre os cravos e as rosas é impossível, como bem diz o doutor, a gente deixar…

SOLANGE – (Vilmente) Estavas contente ainda agora de poder misturar teus insultos…

CLAIRE – … De descobrir um fio de cabelo de uma criada ou da outra…

SOLANGE – E os detalhes da nossa vida particular com…

CLAIRE  –  (Irônica)  Com?  Com?  Com  quê?  Dá  nome!  Dá  nome  ao  troço.  A cerimônia?  Aliás,  não  temos  tempo  de  começar  uma  discussão  aqui.  Ela,  ela,  ela  vai chegar. Mas, Solange, desta vez ela está em nossas mãos. Que inveja eu tenho, que lhe visto  a  cara  quando  recebeu  a  notícia  da  prisão  do  doutor.  Pelo  menos  desta  vez  eu trabalhei direitinho. Reconheces? Sem mim, sem a minha carta de denúncia não terias este  espetáculo:  o  amante  algemado  e  Madame  em  pranto.  Ela  pode  até  morrer.  De manhã, mal se agüentava de pé.

SOLANGE – Antes isso. Tomara que estoure! E que eu herde, afinal nunca mais por os pés  naquela  mansarda  sórdida,  entre  aqueles  imbecis,  entre  uma  cozinheira  e  um camareiro.

CLAIRE – Pois eu, gostava de nossa mansarda.

SOLANGE  –  Não  te  enterneças.  Gostas,  pra  me  contradizer.  A  mim,  que  a  detesto. Vejo-a tal qual ela é: sórdida e nua. Sem luxo, como diz  Madame. Mas  também, ora essa, o que é que nós somos? Lixo!

CLAIRE – Ah! Não, não recomeces. É melhor olhar na janela. Eu não enxergo nada, a noite está muito escura.

SOLANGE  –  Deixa  eu  falar.  Me  esvaziar.  Eu  gostava  de  mansarda  porque  aquela pobreza me impunha gestos pobres. Sem reposteiros para erguer, nem tapetes pra pisar, nem móveis pra  acariciar… Com os olhos ou o esfregão, nem  espelhos,  nem balcões. Nada nos forçava a fazer nenhum gesto belo demais. (A um gesto de Claire) Mas fica tranqüila,  na  cadeia  poderás  continuar  bancando  a  tua  soberana,  tua  Maria  Antonieta, sair andando à noite pelo apartamento…

CLAIRE – Tu estás louca! Eu nunca saí andando pelo apartamento.

SOLANGE  –  (Irônica)  Oh!  A  senhorita  nunca  saiu  por  aí!  Envolta  nas  cortinas  ou então  na  colcha  de  renda,  não  é?  Se  contemplando  nos  espelhos,  se  pavoneando  na sacada  e  saudando,  às  duas  da  manhã,  o  povo  que  acorrera  para  desfilar  sob  suas janelas. Nunca, não é? Nunca!

CLAIRE – Mas, Solange…

SOLANGE – A noite é muito escura para espiar Madame. Na tua sacada tu te julgavas invisível. Que pensas que eu sou? Não vais me dizer agora que é sonâmbula. No ponto em que estamos, podes confessar.

CLAIRE  –  Mas,  Solange,  estás  gritando.  Por  favor,  fala  mais  baixo.  Madame  pode chegar sorrateiro… (Corre até a janela e ergue a cortina).

SOLANGE – Deixa a cortina em paz, já acabei. Não gosto de te ver levantá-la assim, teu gesto me agita. Deixe-a cair. Na manhã que foi preso, espiando os policiais, o doutor fez assim.

CLAIRE – O menor dos gestos te parece um gesto de assassino, que tenta fugir pela escada de serviço. Agora estás com medo.

SOLANGE – Zomba para me acirrar. Zomba, anda! Ninguém gosta de mim! Ninguém gosta de nós!

CLAIRE – Ela, ela gosta de nós. Ela é boa. Madame nos adora.

SOLANGE – Gosta de nós como das poltronas dela. E olha lá! Como da louça cor de rosa das latrinas dela. Como o bidê. E nós, nós  não podemos gostar uma da outra. A sujeira…

CLAIRE – Ah!

SOLANGE  –  …  Não  gosta  de  sujeira.  E  achas  que  vou  tomar  partido  da  sujeira, continuar  com  este  brinquedo  e  de  noite  voltar  para  o  meu  catre?  E  será  que  ainda podemos continuar com o brinquedo? E eu, se não puder mais cuspir na cara de alguém que  me  chama  de  Claire,  engasgo  com  os  meus  escarros.  Minha  cusparada  é  meu chuveiro de brilhantes.

CLAIRE – (Levanta-se e chora) Fala mais baixo, por favor. Fala. Fala da bondade de

Madame.

SOLANGE – A bondade dela! É fácil ser boa, e sorridente, e meiga. Ah! A meiguice dela! Quando se é linda e rica! Mas ser criada e boa! A gente se contenta em desfilar enquanto vai arrumando a casa ou lavando a louça. Brandimos um espanador como se fosse um leque. Fazemos gestos elegantes com o avental. Ou então, como tu, alta noite, nos damos o luxo de armar um desfile histórico nos aposentos de Madame.

CLAIRE  –  Solange!  Outra  vez!  O  que  é  que  estás  querendo?  Pensas  que  as  tuas acusações é que vão nos acalmar? A teu respeito eu podia contar outras melhores.

SOLANGE – Tu? Tu?

CLAIRE – Perfeitamente, eu se quisesse. Por que afinal de contas.

SOLANGE – Afinal de contas? O que é que estás insinuando? Tu é que falaste nesse homem. Claire, eu te odeio.

CLAIRE – Te pago na mesma moeda. Mas não vou buscar o pretexto de um leiteiro para te ameaçar.

SOLANGE – De nós duas, qual é a que ameaça a outra? Ahn! Vacilas?

CLAIRE – Experimenta  só. Atira primeiro.  Tu  é que recuas, Solange.  Não ousas me acusar  do  mais  grave:  minhas  cartas  à  polícia.  A  mansarda  ficou  soterrada  sobre  os meus  rascunhos…  Sob  páginas  e  mais  páginas.  Inventei  as  piores  histórias  e  as  mais lindas e tu te aproveitavas. Ontem a noite, bancando Madame com o vestido branco, tu exultavas,  exultavas,  tu  já  devias  subir  furtivamente  na  embarcação  dos  deportados, no…

SOLANGE – No Lamartinière.

CLAIRE – Seguias o Doutor, teu amante… Fugia da França. Partia para a ilha do Diabo ou  para  Guiana,  com  ele!  Um  belo  sonho!  Por  que  eu  tinha  a  coragem  de  mandar minhas cartas anônimas, tu te davas ao luxo de ser uma prostituta de algo bordo, uma hetaira. Estavas feliz com teu sacrifício, de levar a cruz…

CLAIRE – … Do mau ladrão, enxugar-lhe o rosto, ampará-lo, te entregares aos  galés para que lhe seja concedido um pequeno alívio.

SOLANGE – Mas tu, ainda agora, quando falavas em acompanhá-lo.

CLAIRE – Isso eu não nego, retomei a história no ponto em que a deixaste. Mas com menos  violência.  Já  na  mansarda,  no  meio  das  cartas,  o  teu  corpo  balanceava  com  o jogo do navio.

SOLANGE – Tu não te vias.

CLAIRE – Via sim! Posso me ver no teu rosto, observar os estragos que a nossa vítima faz nele! O doutor agora está trancafiado. Alegremo-nos. Pelo menos ficamos livres de suas zombarias. E tu terás mais liberdade para te refestelares no seu tórax, inventarás melhor o torso e as pernas dele, espiarás o jeito dele andar. O jogo do navio se fazia balancear! Já te abandonavas a ele. Com o risco de nos perder.

SOLANGE – Como?

CLAIRE – Eu explico. Perder. Para escrever as minhas cartas de denúncia a polícia, eu precisava de fatos, tinha de fitar datas. E o que é que eu fiz?  Ahn? Vê se te lembras. Minha  cara,  vossa  rósea  confusão  é  encantadora.  Te  envergonhas.  Mas,  no  entanto estavas lá! Dei busca nos papéis de Madame até descobrir a célebre correspondência…

(Pausa)

SOLANGE – E depois?

CLAIRE  –  Oh!  Mas  tu  acabas  por  me  irritar!  Depois?  Está  bem,  depois  quiseste conservar as cartas do doutor. E ainda ontem à noite, na mansarda, restava uma carta do doutor para Madame! Eu descobri!

SOLANGE – (Agressiva) Mexendo nos meus guardados, ahn.

CLAIRE – É meu dever.

SOLANGE – Agora sou eu que espanto com teus escrúpulos…

CLAIRE – Não sou escrupulosa, sou prudente. Enquanto eu arriscava tudo, de joelhos no  tapete,  para  forçar  a  fechadura  e  a  escrivaninha,  para  compor  uma  história  com materiais…

CLAIRE  –  …  Exatos,  tu,  inebriada  com  o  tema  de  teu  amante  criminoso,  culpado  e degredado, me abandonavas!

SOLANGE  –  Eu  tinha  ajeitado  um  espelho  para  enxergar  a  porta  da  rua.  Estava  de alcatéia.

CLAIRE  –  Não  é  verdade.  Eu  reparo  em  tudo  e  há  muito  tempo  que  te  venho observando. Com tua habitual prudência, ficaste parada na porta da copa, pronta a pular pro fundo da cozinha assim que Madame chegasse!

SOLANGE – Mentira, Claire, eu estava vigiando o corredor…

CLAIRE – É falso! Por pouco Madame não me pilhou com a boca na botija! Tu, sem saber  se  as  minhas  mãos  tremiam  procurando  os  papéis,  tu  te  mandavas,  através  dos mares transpunhas o Equador.

SOLANGE  –  (Irônica)  E  tu,  ahn?  Com  esse  ar  de  que  não  sabes  nada  sobre  os  teus arroubos! Vamos ver se tens coragem, Claire, de declarar que nunca sonhaste com um forçado! Que nunca sonhaste precisamente com ele! Vê se tens coragem de dizer que não o denunciaste justamente, justamente, que palavra linda! Pra que ele servisse a tua aventura secreta.

CLAIRE – Sei tudo isso e mais alguma coisa. Sou mais lúcida. Mas a história, tu é que a inventaste. Olha pra cá. Ah se tu te visses. Solange, o sol da mata virgem ainda está luzindo no teu rosto. Estás preparando a evasão do teu amante. (Ri nervosamente) Como te  trabalhas!  Mas  podes  ficar  tranqüila,  eu  te  detesto  por  outros  motivos.  Bem  sabe quais.

SOLANGE – (Baixando a voz) Não tenho medo de ti. Não duvido do teu ódio, de tua esperteza, mas presta bem atenção. A mais velha sou eu.

CLAIRE  –  E  o  que  significa  isso,  a  mais  velha?  E  a  mais  forte?  Me  obrigas  a  falar desse homem para despistar meus olhos. Vamos! Pensas que não te descobri? Tentaste matá-la.

SOLANGE – Estás me acusando?

CLAIRE  –  Não  negues.  Eu  te  vi.  (Longa  pausa)  E  fiquei  com  medo,  com  medo, Solange. Quando executamos a cerimônia, eu protejo meu pescoço. Através de Madame é a mim que estás visando.

CLAIRE – … Sou eu que corro perigo. (Longa pausa. Solange dá de ombros).

SOLANGE – (Decidida) Tentei sim. Queria te libertar. Eu já não podia mais. Sufocada te  vendo  sufocar,  enribescar,  esacerdear,  apodrecer  na  doçura  e  no  azedume  dessa mulher.  Tens  razão  em  me  censurar,  por  te  querer  demais.  Seria  a  primeira  a  me denunciar se eu a tivesse matado. Por ti é que eu seria entregue a polícia.

CLAIRE – (Segura-a pelos punhos) Solange…

SOLANGE – (Se desprendendo) De que tens medo? O caso é comigo.

CLAIRE – Solange, minha irmãzinha. Eu é que errei. Ela vai chegar.

SOLANGE  –  Não  matei  ninguém.  Fui  covarde,  compreendes.  Fiz  tudo  o  que  podia, mas ela se voltou, dormindo, respirava baixinho. Ondulava os lençóis: era Madame.

CLAIRE – Cala a boca.

SOLANGE  –  Ainda  não.  Tu  querias  saber,  espera,  que  eu  te  conto  outras.  Vais  ver como  ela  é  feita,  a  tua  irmã.  Do  que  é  feita,  a  composição  de  uma  criada:  eu  queria estrangular…

CLAIRE – Pensa no céu. Pensa no céu. No que há depois.

SOLANGE – Não há nada. Já estou farta de me ajoelhar em bancos. Na igreja eu queria o veludo vermelho das abadessas ou a pedra dos penitentes, mas pelo menos nobre seria minha  atitude.  Olha!  Olha  só  como  ela  sofre  bem,  como  sofre  bonito.  Transfigurada pela  dor,  embelezada!  Quando  soube  que  o  amante  era  ladrão,  enfrentou  a  polícia. Exultava! Agora é uma abandonada magnífica, amparada em cada braço por duas servas solícitas e desaladas ante o seu sofrimento. Viste? Sua tristeza cintilando ao clarão das jóias, de cetim dos trajes, dos lustres! Claire, a beleza do meu crime devia resgatar a pobreza de meu sofrimento. Depois eu ateava fogo!

CLAIRE  –  Calma,  Solange.  O  fogo  podia  não  pegar.  Te  descobririam.  Bem  de  que espera os incendiários.

SOLANGE – Eu sei tudo. Colei os olhos e as orelhas às fechaduras, escutei atrás das portas mais do que qualquer outra…

SOLANGE – … Criada. Sei tudo! Incendiária! Mas é um título admirável.

CLAIRE  –  Cala  a  boca.  Me  fazes  ficar  sem  ar.  Estou  sufocada!  (Quer  entreabrir  a janela) Ah! Um pouco de ar neste quarto!

SOLANGE – (Inquieta) Que queres fazer?

CLAIRE – Abrir.

SOLANGE – Tu também? Eu há muito tempo estou sufocando! Há muito tempo estou querendo fazer o nosso jogo na cara de todo mundo, berrar minha verdade por cima dos telhados, descer à rua com os ares de Madame…

CLAIRE – Cale a boca. Eu queria dizer…

SOLANGE – Ainda é cedo, tens razão. Sai da janela. Abre a porta da ante-câmara e da cozinha. (Claire abre uma porta e a outra) Vai ver se água está fervendo.

CLAIRE – Sozinha?

SOLANGE – Então espera, espera ela chegar. Ela vem com suas estrelas, sua lágrima, seus sorrisos, seus suspiros. Vai nos corromper com a doçura dela. (O telefone toca, as duas escutam)

CLAIRE – (Atendendo o telefone) O doutor? É o doutor… Claire, doutor. (Solange quer escutar, Claire a afasta) Sim senhor, eu aviso Madame. Madame vai ficar contente de saber que o doutor está em liberdade. Sim senhor, vou anotar. Doutor espera Madame no Bilboquê. Muito bem, boa noite doutor. (Quer desligar, mas a mão treme e ela põe o fone na mesa).

SOLANGE – Ele saiu?

CLAIRE – O juiz lhe dá a liberdade provisória. SOLANGE – Mas… Então gorou tudo. CLAIRE – (Seca) Como estás vendo.

SOLANGE – Os juízes tiveram o topete de soltá-lo. Ludibriam a justiça, nos insultam! Se  o  doutor  está livre,  vai  fazer  um  inquérito,  vai  dar  busca  na  casa  para  descobrir  a culpada. Estou me perguntando se tu avalias a gravidade da situação.

CLAIRE – Fiz o que pude, por nossa conta o risco.

SOLANGE – Trabalhaste muito bem. Meus cumprimentos. Tuas denúncias, tuas cartas, tudo funciona as mil maravilhas. E se reconhecerem…

SOLANGE – … Tua letra, vai ser perfeito. E porque é que ele vai para o Bilboquê antes de passar em casa? Podes explicar?

CLAIRE – Já que és assim tão habilidosa, devias ter dado conta do caso com Madame. Mas ficaste com medo, o ar estava perfumado, o leite morno. Era Madame. Só nos resta continuar nesta vida, recomeçar o jogo.

SOLANGE – O próprio jogo é um perigo. Tenho certeza que deixamos pistas. Por tua culpa. Deixamos todas às vezes. Estou vendo a multidão de pistas, que nunca poderei apagar. Ele, ela passando no meio e se apoderando daquilo tudo, decifrando, colocando a pontinha de rósseo pé em cima de nossas pistas. E nos descobre, primeiro uma depois da outra. Por tua culpa, Madame zomba de nós. Madame saberá de tudo. É só colocar a campainha  e  está  servida.  Ficará  sabendo  que  a  gente  usava  vestidos  dela,  roubava gestos  dela,  enrolava  o  amante  dela  com  nossas  macaquices.  Tudo  vai  falar,  Claire. Tudo nos acusará. As cortinas marcadas por teus ombros, os espelhos, por meu rosto, a luz que se acostumou com as nossas loucuras, a luz vai confessar tudo. Por causa do teu desmazelo, tudo está perdido.

CLAIRE – Tudo está perdido porque não tiveste a força necessária para…

SOLANGE – Para…

CLAIRE – Matá-la.

SOLANGE – Ainda posso encontrar a força necessária.

CLAIRE – Onde? Onde? Não estás tão transportada como eu. Não vives acima da copa das árvores. Um leiteiro que atravesse tua cabeça atordoa.

SOLANGE – Foi por não ver a cara dela, Claire. Porque fiquei, de repente, tão perto de Madame, pois estava perto do seu sono. Fui perdendo a força.  Era preciso levantar o lençol, suspenso pelo seu seio, para achar a garganta.

CLAIRE – (Irônica) E os lençóis estavam mornos. A noite negra. Essas coisas a gente faz  é  em  plena  luz  do  dia.  És  incapaz  de  executar  um  ato  terrível.  Mas  eu,  eu  posso conseguir. Eu sou capaz de tudo, bem sabes.

SOLANGE – O gardenal.

CLAIRE – Sim. Vamos falar serenamente. Eu sou forte. Tentaste me dominar…

SOLANGE – Mas, Claire…

CLAIRE – (Calmamente) Perdão. Sei o que estou dizendo. Sou Claire. E estou pronta. Farta. Farta de bancar a aranha, a capa de guarda-chuva, a religiosa sórdida e sem Deus, sem  família!  Farta  de  ter  um  forno  como  altar.  Eu  sou  chata,  a  putrefacta.  Aos  teus olhos também.

SOLANGE – (Abraça os ombros de Claire) Claire… Estamos nervosas. Madame não chega.  Eu  também  já  não  agüento  mais.  Não  agüento  mais  a  nossa  semelhança,  não agüento mais as minhas mãos, as minhas meias pretas, o meu cabelo. Não te censuro minha caçulinha. As tuas passeatas te desabafam…

CLAIRE – (Irritada) Ah! Esquece.

SOLANGE  –  Eu  também  queria  te  ajudar.  Bem  queria  te  consolar,  mais  sei  que  te enojo.  Te  causo  repugnância,  e  sei  disso  porque  me  dás  nojo.  A  gente  se  gostar  na servidão não é gostar.

CLAIRE – E se gostar demais, mas já cansei desse espelho terrível que me envolve a minha imagem como se fosse um mau cheiro. És o meu mau cheiro. Pois bem! Estou pronta. Terei minha coroa. Poderei passear pelos aposentos.

SOLANGE – Mas assim mesmo, a gente não pode matá-la por tão pouco.

CLAIRE  –  É  mesmo?  Não  basta?  E  por  que,  se  me  fazes  o  favor?  Por  que  outro motivo?  Quando,  onde,  encontraremos  um  pretexto  melhor?  Não  é  suficiente?  Esta

noite Madame verá nosso embaraço, rindo às gargalhadas, chorando de rir, com aqueles suspiros grossos! Não. Hei de ter a minha coroa.

CLAIRE – … Serei a envenenadora que não soubeste ser. É a minha vez de te dominar.

SOLANGE – Mas eu nunca…

CLAIRE  –  Me  dá  o  guardanapo!  Me  dá  os  alfinetes  de  fralda!  Descasca  as  cebolas! Rala as cenouras! Lava os ladrilhos! Acabou-se. Está acabado. Ah! Ia me esquecendo… Fecha a torneira! Acabou. Eu disporei o mundo.

SOLANGE – Minha caçulinha!

CLAIRE – Tu me ajudarás.

SOLANGE – Tu não saberás os gestos necessários. As coisas são mais graves, Claire, mais simples.

CLAIRE – Nós lemos a história de Sóros Santa Cruz do Vale-Bendito, que envenenou vinte e sete árabes. Caminhava descalça. Os pés anquilosados. Foi erguida, transportada para o crime. Lemos a história da Princesa Albanarez, que provocou a morte do amante e do marido. Com o frasco destampado ela fez sobre o chávena um grande sinal da cruz. Parada diante dos cadáveres, viu somente a morte e muito longe a sua própria imagem fugidia, levada pelo vento. Ela fez todos os gestos do desespero terrestre. No livro da Marquesa  de  Veneza,  a  que  envenenou  os  filhos,  diz  que  ela  se  aproximou  do  leito sustentada sob os braços do fantasma do amante.

SOLANGE – Caçulinha, meu anjo!

CLAIRE – Eu serei sustentada pelo braço rijo do leiteiro, ele não recuará. Apoiarei na sua  nuca  a  minha  mão  esquerda.  Tu  me  ajudarás.  E  se  for  preciso  ir  mais  longe, Solange, se eu tiver de partir para as galés, tu me acompanharás, virás a bordo, Solange, nós  duas  juntas,  seremos  esse  casal  eterno,  do  criminoso  e  da  santa.  Seremos  salvas, Solange, eu te juro, salvas! (Cai sentada no leito de Madame)

SOLANGE – Calma. Eu te levo lá pra cima. Vais dormir.

CLAIRE – Me deixa. Escurece. Escurece um pouco, por favor.

SOLANGE  –  (Apaga  a  luz)  Descansa.  Descansa,  irmãzinha.  (Ajoelha-se,  descalça, Claire e beija-lhe os pés) Calma, meu bem. (Acaricia-a) Descansa os pés aí. Fecha os olhos.

CLAIRE – (Suspira) Estou com vergonha, Solange.

SOLANGE – (Com muita doçura) Não fales. Deixa que eu faço. Vou te ninar. Quando dormires te levo para mansarda e te deito na tua caminha. Dorme, eu fico aqui.

CLAIRE – Estou com vergonha, Solange.

SOLANGE – Pohhh! Deixa eu te contar um caso. CLAIRE – (Queixosamente) Solange? SOLANGE – Meu anjo?

CLAIRE – Solange, escuta.

SOLANGE – Dorme. (Longa pausa)

CLAIRE – Teu cabelo é bonito. Que cabelo bonito. O dela…

SOLANGE – Não fales mais dela.

CLAIRE – O dela é postiço. (Longa pausa) Lembras? Nós duas. Debaixo da árvore. Com os pés no sol? Solange?

SOLANGE – Dorme. Estou aqui, sou tua irmãzona. (Pausa) (Depois de um instante

Claire se levanta)

CLAIRE – Não! Não! Nada de fraqueza! Acende a luz! Acende! A hora é linda demais! (Solange  acende  a  luz)  De  pé!  Vamos  comer.  O  que  é  que  tem  na  cozinha?  Ahn?  É preciso comer pra ficar forte. Vem. Vais me aconselhar. O gardenal?

SOLANGE – É o gardenal.

CLAIRE  –  O  gardenal.  Não  faças  essa  cara.  É  preciso  ficar  alegre,  cantar.  Vamos cantar! Canta, como quando tu fores mendigar nas cortes e nas embaixadas. Temos de rir.  (As  duas  caem  na  gargalhada)  Senão  a  tragédia  vai  nos  fazer  voar  pela  janela. Fecha a janela. (Rindo Solange fecha a janela) O assassinato é uma coisa… Indizível. Vamos cantar. Vamos levá-la para um bosque e à luz do luar, no pinheiral, vamos picá- la  em  pedacinhos.  Cantaremos!  A  enterraremos  sob  as  flores  em  nosso  jardim,  que  à noite regaremos com um regadorzinho! (Toque de campainha na porta de entrada do apartamento).

SOLANGE  –  É  ela.  É  ela  que  voltou.  (Segura  a  irmã  pelos  pulsos)  Claire,  tu  tens certeza de agüentar a mão?

CLAIRE – Precisa quantos?

SOLANGE  –  Põe  dez.  No  chá  de  tília  dela.  Dez  comprimidos  de  gardenal.  Mas  não terás coragem.

CLAIRE – (Desprende-se, vai arrumar a cama. Solange a fita por um instante) O tubo está aqui comigo. Dez.

SOLANGE – (Muito rápido) Dez. Nove não bastam. Mais, ela vomita. E faz o chá bem forte. Tu entendeste?

CLAIRE – (Murmura) Sim.

SOLANGE  –  (Vai  sair,  mas  reconsidera.  Com  voz  natural)  Com  muito  açúcar.  (Sai pela esquerda: Claire continua a arrumar o quarto e sai pela direita: passa-se alguns segundos, ouve-se nos bastidores uma risada nervosa. Seguida por Solange, Madame, coberta de peles, entra rindo).

MADAME – Cada vez mais! Gladíolos horrorosos, de um rosa doentio e mimosa! Vai ver  que  essas  loucas  correm  ao  mercado  antes  do  amanhecer  para  comprar  as  flores mais barato. Tanta solicitude, minha cara Solange, com uma patroa indigna, tantas rosas para ela, enquanto o doutor é tratado como criminoso! Por que… Ouve, Solange, à tua irmã e  a ti, vou dar mais uma prova  de  confiança. Perdi  toda esperança. Desta vez  o doutor vai mesmo pra cadeia. (Solange tira-lhe o casaco de peles) Pra cadeia, Solange! Para a cadeia! E em circunstâncias infernais! O que é que me dizes! Aí tens tua patroa envolvida  na  mais  sórdida  das  questões,  a  mais  idiota!  O  doutor  estendido  sobre  um feixe de palha e vocês me aprontando nesta alcova florida!

SOLANGE  –  Madame  não  deve  perder  o  controle.  As  prisões  já  não  são  como  no campo da Bastilha…

MADAME  –  Já  sei  que  a  palha  úmida  dos  calabouços  não  existe  mais.  O  que  não impede minha imaginação de inventar para o doutor as piores torturas. As prisões estão repletas  de  facínoras  perigosos  e  ele,  que  é  a  delicadeza  em  pessoa,  terá  de  conviver com  eles!  Eu  morro  de  vergonha!  Enquanto  ele  tenta  compreender  qual  seria  o  seu crime, eu estou aqui, passeando em jardins, debaixo de caramanchões, com o desespero na alma. Estou arrasada.

SOLANGE – As mãos de Madame estão geladas.

MADAME – Estou arrasada. Cada vez que entrar em casa será com o coração batendo assim, com esta horrível violência e um belo dia caio morta sob as flores de vocês. Já que  é  o  meu  túmulo  que  estão  preparando,  já  que  desde  alguns  dias  vocês  vêm acumulando no meu quarto flores fúnebres. Senti muito frio, mas não terei o topete de me lastimar. A noite inteira me arrastei de corredor em corredor. Vi homens gelados, restos  de  mármore,  cabeças  de  cera,  mas  pude  avistar  o  doutor.  Ah! Muito  de  longe. Com a ponta dos dedos fiz-lhe um sinalzinho. Só. Me sentia culpada. E vi-o desaparecer entre dois guardas-civis.

SOLANGE – Guardas-civis? A senhora tem certeza? Deviam ser carcereiros.

MADAME  –  Sabes  coisas  que  eu  ignoro.  Carcereiros  ou  guardas-civis,  levaram  o doutor. Estive ainda agora com a mulher de um juiz. Claire!

SOLANGE – Está preparando o chá de tília de Madame.

MADAME – Então que se apresse! Desculpe, minha pobre Solange. Perdão. Tenho até vergonha de exigir o meu chá quando o doutor está lá, só, sem alimento, sem cigarros, sem nada. As pessoas em geral desconhecem o que é a prisão. Não tem imaginação. Eu tenho  demais.  Minha  sensibilidade  me  fez  sofrer.  Atrozmente.  Sorte  tem  vocês  duas, Claire e tu, que estão sozinhas no mundo. Sei lá de quantas desgraças estão vocês livres graças à humildade de sua condição!

SOLANGE – Eles logo vão ver que o doutor é inocente.

MADAME  –  E  é!  Mas  inocente  ou  culpado  eu  nunca  o  abandonarei.  Assim  é  que reconhecemos  nosso  amor  por  alguém:  o  doutor  não  é  culpado,  mas  se  fosse  eu  me tornaria sua cúmplice. Segui-lo-ia até a Guiana, até a Sibéria. Sei que ele vai se arranjar, mas   pelo   menos   está   história   imbecil   me   permite   tomar   consciência   da   minha dedicação; e este acontecimento, que devia nos separar, nos une cada vez mais. E chega quase a me tornar mais feliz. Com uma felicidade monstruosa! O doutor não é culpado, mas se o fosse, com que júbilo eu carregaria sua cruz! De etapa em etapa, de prisão em prisão, até o degredo eu o acompanharia. A pé, se, for preciso. Até o degredo, Solange, até o degredo! Quero fumar um cigarro!

SOLANGE – Eles não deixavam. Nem as mulheres dos bandidos, nem as irmãs, nem as mães podem sequer acompanhá-los.

MADAME – Bandido! Que linguagem, minha filha! E que ciência! Um condenado já não é um bandido. Depois eu romperia as barreiras. E, Solange, eu empregaria todas as audácias, todos os ardis.

SOLANGE – Madame é corajosa.

MADAME  –  Ainda  não  me  conhece.  Até  agora  tu  e  tua  irmã  têm  visto  uma  mulher cercada  de  cuidados  e  ternura,  preocupada  com  os  seus  chás  e  suas  rendas,  mas  há muito tempo deixei minhas manias. Sou forte. E pronta para luta. Além disso, o doutor não está ameaçado de ir à forca. Mas é bom que eu me eleve até mesmo a esse nível. Preciso dessa exaltação para pensar mais rápido. E dessa rapidez para olhar melhor. E talvez consiga, assim, adivinhar que infernal polícia é essa que, em minha própria casa dispõe de espiões misteriosos.

SOLANGE – Não deve perder a cabeça. Já vi casos mais graves serem absolvidos. No tribunal de Aix-en-Provence…

MADAME – Casos mais graves? E o que é que sabes do seu caso?

SOLANGE – Eu? Nada. É pelo que Madame disse. Suponho que só pode ser um caso sem perigo…

MADAME – Estás gaguejando. E o que é que tu sabes de absolvições? Freqüentas os tribunais? Tu?

SOLANGE – Leio as reportagens. Eu estava falando de um homem que tinha cometido uma coisa pior. Quer dizer…

MADAME  –  O  caso  do  doutor  não  tem  comparação.  Foi  acusado  de  furtos  idiotas. Estás satisfeita? De furtos! Idiotas! Idiotas como essas cartas de denúncia que o fizeram prender.

SOLANGE – Madame devia repousar.

MADAME – Não estou cansada. Chega de me tratar como uma impotente. A partir de hoje não sou mais a patroa que lhes permitia aconselhar e distrair minha preguiça. Não é a mim que devem lastimar. Seus gemidos me seriam intoleráveis. A bondade de vocês me  irrita.  Me  esmaga.  Me  asfixia.  Essa  solicitude  que  depois  de  tantos  anos  não conseguiu tornar-se verdadeiramente afetuosa. E essas flores aí, festejando justamente o oposto de uma boda. Só lhes faltavam acender a lareira para me aquecer. Há por acaso uma lareira na cela em que ele está?

SOLANGE  –  A  lareira  não  está  acesa,  Madame.  E  se  Madame  sugere  que  fomos indiscretas…

MADAME – Mas não estou sugerindo nada disso.

SOLANGE – Madame quer ver as contas de hoje?

MADAME – Francamente! Que inconsciência! Achas que tenho cabeça para lidar com algarismos?  Mas  afinal  de  contas,  Solange,  será  que  me  despreza  ao  ponto  de  me recusares a menor delicadeza?  Falar de  algarismos, cadernos de armazém, receitas de copa  e  cozinha,  quando  quero  ficar  só,  em  paz  com  a  minha  tristeza?  Por  que  não convoca logo todos os fornecedores?

SOLANGE – Nós compreendemos a tristeza de Madame.

MADAME – Não quero forrar de preto o apartamento, mas afinal…

SOLANGE – (Arrumando a capa de peles) O forro rasgou. Levo amanhã ao peleteiro para consertar.

MADAME – Como quiseres, se bem que não valha a pena. Agora abandono as toaletes. Aliás, sou uma mulher velha. Não é verdade Solange, que estou velha?

SOLANGE – Olha as idéias negras outra vez…

MADAME – São idéias de luto, não te espantes. Como poderia pensar nas minhas peles e  toaletes  com  o  doutor  na  prisão.  Se  vocês  acharem  que  o  apartamento  ficou  triste demais.

SOLANGE – Oh! Madame…

MADAME  –  Reconheço  que  vocês  não  têm  a  menor  obrigação  de  compartilhar  meu infortúnio.

SOLANGE  –  Nunca  abandonaremos  Madame.  Depois  de  tudo  que  Madame  fez  por nós.

MADAME – Eu sei, Solange. Vocês têm sido muito infelizes?

SOLANGE – Oh!

MADAME – São um pouco minhas filhas. Com vocês a vida ficará menos triste para mim. Iremos para o interior. Terão as flores do jardim. Mas vocês duas não gostam de brincar. São moças e não riem nunca. Na roça ficarão à vontade. Pretendo mimar vocês. E  depois  deixo  para  as  duas,  todos  os  bens  que  possuo.  Aliás,  do  que  é  que  ainda precisam?  Só com os meus vestidos usados já podiam se exibir como princesas. E os meus  vestidos…  (Vai  ao  guarda  roupa  e  olha  seus  vestidos)  Para  quem  serviriam? Renuncio a vida elegante. (Entra Claire, trazendo o chá de tília).

CLAIRE – O chá está pronto.

MADAME – Adeus, bailes, noitadas, teatro!… Vocês é que herdarão tudo.

CLAIRE – (Seca) Conserve suas toaletes, Madame.

MADAME – (Com um sobressalto) Como?

CLAIRE – (Calma) Devia até encomendar outras, mais lindas.

MADAME – Eu, nos modistas? Como? Acabo de explicar à tua irmã: doutor está preso. Sei que vou precisar de um “pretinho” para as minhas visitas ao parlatório. Mas daí a…

CLAIRE – Madame ficará elegantíssima. Sua própria tristeza dará novos pretextos.

MADAME – Ahn? Vai ver que tens razão. Continuarei a me vestir para o doutor. Mas então, será que tenho de inventar o luto do exílio do doutor? Há de ser mais suntuoso que  o  da  morte.  Farei  toaletes  novas  mais  lindas.  E  vocês  me  ajudarão,  usando  as velhas. Dando-as a vocês, eu talvez atraia clemência para o doutor. Nunca se sabe.

CLAIRE – Mas, Madame…

SOLANGE – O chá pronto, Madame.

MADAME – Põe aí. Daqui a pouco eu tomo. Terão os meus vestidos. Dou tudo para vocês.

CLAIRE – Nós nunca poderemos substituir Madame. Se Madame soubesse das nossas preocupações quando arranjamos as suas toaletes! O armário de Madame, para nós, é como a capela da Virgem-Santa. Quando o abrimos…

SOLANGE – (Seca) O chá vai esfriar.

CLAIRE – Escancaremos as duas portas nos nossos dias de festa. Mal podemos olhar para os vestidos, não temos o direito. O armário de Madame é sagrado. É sua grande rouparia!

SOLANGE – Você está falando demais, cansando Madame…

MADAME   –   Acabou-se.   (Acaricia   o   vestido   de   veludo   vermelho)   Meu   lindo

“fascinação”,  o  mais  bonito.  Pobre  lindeza.  Foi  Lanvin  que  desenhou  para  mim.

Especialmente. Tomem. Eu lhes dou. Te dou de presente, Claire! (Dá o vestido a Claire e procura no armário).

CLAIRE – Oh! Madame deu mesmo? De verdade?

MADAME – (Sorrindo suavemente) Mas claro. Se estou te dizendo.

SOLANGE  –  Madame  é  bondosa  demais.  (A  Claire)  Pode  agradecer  a  Madame.  Há tanto tempo você o admirava.

CLAIRE – Nunca terei coragem de vesti-lo. Ele é tão lindo!

MADAME  –  Podes  reformar.  Só  na  cauda  há  veludo  bastante  para  fazer  as  mangas. Ficará bem quente. Conheço vocês, precisam de tecidos fortes. E tu, Solange, o que é que  eu  poderia  te  dar?  Darei…  Olha  aqui,  minhas  raposas.  (Pega-as  e  as  coloca  na poltrona do centro).

CLAIRE – Oh! O mantô do desfile!

MADAME – Que desfile?

SOLANGE – Claire quer dizer que Madame somente o usava nas grandes ocasiões.

MADAME  –  Absolutamente.  Enfim,  vocês  têm  sorte  de  ganhar  vestidos.  Eu,  se  os quiser,  tenho  de  comprar.  Mas  encomendarei  outros  mais  ricos,  para  dar  maior magnificência ao luto pelo doutor.

CLAIRE – Madame é linda!

MADAME  –  Não,  não.  Não  me  engrandeçam.  É  tão  agradável  semear  felicidade  ao redor da gente. Quando eu só penso em fazer o bem! Quem pode ter a maldade de me castigar?  E castigar por quê?  Eu me julgava tão ao abrigo da vida, tão protegida pela dedicação de vocês. Tão protegida pelo doutor. E toda essa coalizão de amizades não pode erguer uma barricada capaz de interceptar o desespero. Estou desesperada! Cartas! Cartas que só eu, unicamente conheço. Solange?

SOLANGE – (Saudando a irmã) Sim, Madame.

MADAME  –  (Aparecendo)  Como?  Oh,  fazes  mesuras  a  Claire?  Pensei  que  tinham mesmo propensão para brincar.

CLAIRE – O chá, Madame.

MADAME – Solange, eu te chamei para perguntar… Ora essa, quem mexeu outra vez na  chave  da  escrivaninha?…  Para  perguntar  o  que  é  que  tu  achas.  Quem  poderia  ter mandado essas cartas? Não tens a menor idéia! Naturalmente vocês duas estão como eu. Abismadas  como  eu.  Mas  isto  se  esclarecerá,  minhas  meninas.  O  doutor  saberá deslindar  o  mistério.  Quero  que  analisem  a  caligrafia  e  descubram  quem  é  que  pode maquinar uma trama de tal ordem. O telefone… Quem desligou o telefone? E por quê? Tocaram para cá? (Pausa)

CLAIRE – Foi eu? Foi quando o doutor…

MADAME – Doutor? Que doutor? (Claire está muda) Fale!

SOLANGE – Quando o doutor telefonou.

MADAME – Que estás dizendo? Da prisão? O doutor telefonou da prisão?

CLAIRE – Queríamos fazer uma surpresa a Madame. SOLANGE – O doutor está em liberdade provisória. CLAIRE – Espera Madame no “Bilboquê”. SOLANGE – Oh! Se Madame soubesse!

CLAIRE – Madame nunca nos perdoará.

MADAME – (Levantando-se) E vocês não diziam nada! Um carro. Solange, depressa, um carro. Mas anda. Corre, ora essa! (Empurra Solange para fora do quarto) Minhas peles!  Mas,  mais  depressa!  Vocês  são  loucas  ou  sou  eu  que  estou  ficando.  (Veste  o mantô de peles – à Claire) Quando ele chamou?

CLAIRE – (Com voz branda) Cinco minutos antes de Madame chegar.

MADAME – Mas deviam me dizer. E este chá que está frio. Não poderei nunca esperar por Solange. Oh! O que foi que ele disse?

CLAIRE – O que eu disse agora. Estava muito calmo.

MADAME – Ah! Sempre o mesmo. A sentença de morte o deixaria impassível. É um temperamento. E depois?

CLAIRE – Nada. Disse que o juiz o punha em liberdade.

MADAME  –  Como  se  pode  sair  do  Palácio  da  Justiça  à  meia-noite?  Os  juízes trabalham assim tão tarde?

CLAIRE – Às vezes até muito mais tarde.

MADAME – Muito mais tarde? Como é que tu sabes?

CLAIRE – Estou ao par. Leio “Detetive”.

MADAME – (Assombrada) Ah! É mesmo? Ora vejam, que engraçado. É mesmo uma moça esquisita, Claire. (Olha o relógio pulseira) Ela podia se apressar. (Longa pausa) Não te esqueças de mandar coser o forro do meu mantô.

CLAIRE – Levarei amanhã ao peleteiro. (Longa pausa)

MADAME – E as contas? As contas de hoje. Tenho tempo. Quero vê-las.

CLAIRE – Solange é que cuida disso.

MADAME  –  É  verdade.  Além  disso,  estou  com  a  cabeça  oca,  amanhã  eu  confiro. (Olhando Claire) Chega aqui um pouquinho! Vem! Mas… Tu estás de rouge! (Rindo) Mas Claire, tu te…

CLAIRE – (Muito contra-feita) Madame…

MADAME  –  Ah!  Não  mintas!  Aliás,  tens  toda  razão.  Vive,  minha  filha,  vive.  É  em homenagem a quem? Confessa.

CLAIRE – Pus um pouco de pó.

MADAME – Isso não é pó de arroz. É rouge, é “Cinza de Rosas”, um rouge velho que não uso mais. Tens toda razão. Ainda estás moça, embeleza-te, minha filha. Arranja-te. (Põe-lhe  uma  flor  no  cabelo.  Consulta  o  relógio-pulseira)  Que  será  que  ela  está fazendo? É meia-noite e ainda não voltou!

CLAIRE – Os táxis são difíceis. Deve ter ido procurar no estacionamento.

MADAME  –  Achas?  Eu  não  tenho  noção  de  tempo.  A  felicidade  me  enlouquece.  O

doutor, telefonando que está livre e uma hora destas!

CLAIRE – Madame devia sentar-se. Vou aquecer o chá. (Vai sair).

MADAME – Não, não. Não estou com sede. Esta noite é champagne que vamos beber. Hoje não voltamos.

CLAIRE – Mas com toda certeza um pouco de chá… MADAME – (Rindo) Já estou mais do que excitada. CLAIRE – Justamente.

MADAME – E nada de ficarem a nossa espera, tu e Solange. Vão já já para cama. (De repente vê o despertador) Mas… Esse despertador? Que está fazendo aí? De onde vem?

CLAIRE – (Muito embaraçada) O despertador? É o despertador da cozinha.

MADAME – Isso? Eu nunca vi.

CLAIRE – (Pega o despertador) Estava na prateleira. Sempre esteve.

MADAME  –  (Sorridente)  Verdade  que  a  cozinha,  para  mim,  é  território  um  pouco estranho. Vocês, lá  estão em casa.  É o domínio. São soberanas. Eu me  pergunto: por que o trouxeram para cá?

CLAIRE – É Solange para a arrumação. Não confia no relógio.

MADAME – (Sorridente) É a exatidão em pessoa. Sou servida pelas mais fiéis de todas as criadas.

CLAIRE – Adoramos Madame.

MADAME – E têm toda razão. O que é que eu não tenho feito por vocês? (Sai)

CLAIRE  –  (Sozinha,  com  amargura)  Madame  nos  vestiu  como  princesas.  Madame tratou das doenças de Claire ou Solange, pois Madame sempre nos confundia uma com a  outra.  Madame  nos  envolvia  na  bondade  dela:  graças  a  Madame,  eu  e  minha  irmã podíamos  morar  juntas.  Ela  nos  dava  pequenos  objetos  que  não  serviam  mais.  No domingo tolerava que a gente fosse a missa e sentasse perto do seu banco.

MADAME – Ouça! Ouça!

CLAIRE – Ela aceita a água que nós lhe oferecemos e, às vezes, na ponta da luva, nos oferece também.

MADAME – O táxi! Ela está chegando! Ahn! Que estás dizendo?

CLAIRE – (Muito forte) Estou recapitulando as bondades de Madame.

MADAME – (Entra no quarto, sorridente) Quantas honras! Quantas honras… E quanto desmazelo.  (Passa  a  mão  sobre  o  móvel)  Vocês  cobrem  os  móveis  de  rosas,  mas  se esquecem de limpá-los.

CLAIRE – Madame não está satisfeita com o serviço?

MADAME – Mas felicíssima, Claire. E de saída!

CLAIRE – Mesmo frio, Madame vai tomar um pouquinho de chá.

MADAME – (Rindo, inclina-se sobre ela) Queres me matar com teu chá, tuas flores, tuas recomendações. Esta noite…

CLAIRE – (Implorando) Ao menos um pouco…

MADAME  –  Esta  noite  tomo  champagne.  (Vai  a  bandeja  de  chá,  Claire  se  dirige lentamente até onde está o chá) Chá de tília! No serviço de luxo! E para que solenidade!

CLAIRE – Madame…

MADAME   –   Levem   daqui   essas   flores.   Carreguem-nas   para   vocês.   Descansem. (Tendo-se voltado para sair) O doutor está livre Claire! O doutor está livre e eu vou me encontrar com ele.

CLAIRE – Madame…

MADAME – Madame escapole! Tirem daqui essas flores! (A porta bate atrás dela).

CLAIRE – (Que ficou só) Pois Madame é boa! Madame é linda! Madame é meiga! Mas nós  não  somos  ingratos  e  todas  as  noites,  na  mansarda,  como  Madame  mandou, rezamos  por  ela.  Nunca  falamos  mais  alto  e  diante  dela  nem  temos  a  ousadia  de  nos tratarmos por tu. E assim Madame nos mata com a meiguice dela. Com a sua bondade, Madame nos envenena. Porque Madame é boa. Madame é linda! Madame é meiga! Nos deixa  tomar  um  banho  todos  os  domingos  na  banheira  dela.  De  vez  em  quando  nos oferece  uma  balinha.  Ela  nos  cobre  de  flores  murchas.  Madame  prepara  nossos  chás. Madame nos fala do doutor até nos deixar com ciúmes. Porque Madame é boa! Madame é linda! Madame é meiga!

SOLANGE – Ela não bebeu? Claro que não. Era de esperar. Bonito trabalho.

CLAIRE – Só queria te ver no meu lugar.

SOLANGE  –  Bem  podias  zombar  de  mim.  Madame  escapa.  Madame  nos  escapa. Claire! Como a deixaste fugir? Vai se encontrar com o doutor e entender tudo. Estamos perdidas.

CLAIRE  –  Não  me  arrazes.  Pus  o  gardenal  no  chá,  ela  não  quis  beber.  Será  minha culpa…

SOLANGE – Como sempre!

CLAIRE – … Pois tua garganta estava ardendo para anunciar a liberdade do doutor.

SOLANGE – A frase começou na tua boca…

CLAIRE – … E acabou na tua.

SOLANGE – Fiz o máximo possível. Queria conter as palavras. Ah! Mas não vás agora inventar  acusações.  Eu  trabalhei  para  que  tudo  desse  certo.  Para  te  dar  tempo  de preparar   tudo,   desci   a   escada   o   mais   devagar   possível,   fui   pelas   ruas   menos movimentadas,  havia  táxis  aos  montes.  Eu  já  não  podia  evitá-los.  Acho  que  acabei chamando  um  deles  sem  nem  sequer  perceber.  E  enquanto  eu  espichava  o  tempo,  tu, aqui, deixavas tudo a perder. Soltavas Madame. Só nos resta fugir. Vamos pegar nossas coisas… Vamos dar o fora…

CLAIRE – Todos os ardis eram inúteis. Somos malditas.

SOLANGE – Maldita! Vais começar tuas besteiras!

CLAIRE  –  Sabes  o  que  quero  dizer.  Sabes  muito  bem  que  os  objetos  estão  nos abandonando.

SOLANGE – E achas que os objetos se preocupam conosco?

CLAIRE – Eles não fazem outra coisa. Nos atraiçoam. E devemos ser muito culpadas mesmo, para que nos acusem com tanta tenacidade. Já os vi a ponto de revelarem tudo a Madame. Depois do telefone, nossos lábios é que nos traíram. Tu não viste como eu vi, todas as descobertas de Madame. Porque eu vi caminhar, passo firme, rumo a revelação. Não adivinhou nada, mas está queimado.

SOLANGE – E a deixaste ir!

CLAIRE – Eu vi Madame, Solange, eu vi Madame descobrir o despertador da cozinha que esquecemos de levar de volta, vi descobrir o pé na madrugadara, descobrir o rouge mal tirado no meu rosto, descobrir que a gente lê “Detetive”, nos descobrir sem parar e eu estava sozinha, suportando todos esses choques, sozinha nos vendo cair!

SOLANGE – Temos de partir. Vamos levar nossas coisas. Depressa, depressa, Claire, vamos tomar o trem… O navio…

CLAIRE  –  Partir  para  onde?  Ao  encontro  de  quem?  Eu  não  teria  força  nem  para carregar uma valise.

SOLANGE – Vamos. Pra onde quer que seja. Com o que quer que seja. CLAIRE – Pra onde podemos ir? Como é que vamos viver? Nós somos pobres. SOLANGE – (Olhando em volta) Claire, a gente leva… Leva…

CLAIRE   –   O   dinheiro?   Não   consinto.   Não   somos   ladras.   A   polícia   logo   nos descobriria.  E  o  próprio  dinheiro  nos  denunciaria.  Depois  que  vi  os  objetos  nos revelando,  um  depois  do  outro,  fiquei  com  medo  deles,  Solange.  O  menor  dos  erros pode nos entregar.

SOLANGE – Ao diabo! Que tudo vá pro diabo! Temos de encontrar um meio de fugir.

CLAIRE – Nós perdemos… Agora é tarde.

SOLANGE – Não penses que vamos ficar assim, nessa angústia. Amanhã eles voltam, os dois. Vão saber de onde é que vinham as cartas. Vão saber de tudo! Tudo! Então não viste  como  ela  cintilava?  Seu  andar  na  escada!  Seu  andar  vitorioso!  Sua  felicidade atroz? Toda alegria dela será feita com a nossa vergonha. Seu triunfo é o vermelho da nossa  vergonha!  Seu  vestido  é  o  vermelho  da  nossa  vergonha!  Suas  peles!  Ah!  Ela pegou as peles outra vez!

CLAIRE – Estou tão cansada!

SOLANGE – Bonita hora pra se queixar. Sua delicadeza surge bem na hora exata.

CLAIRE – Cansada demais!

SOLANGE – É evidente que as criadas são culpadas quando Madame é inocente. É tão simples  ser  inocente,  Madame!  Mas  eu,  se  me  tivesse  encarregado  de  executar  a senhora, eu juro que chegava até o fim!

CLAIRE – Mas, Solange…

SOLANGE – Até o fim! Com esse chá envenenado, esse chá que a senhora se atrevia a rejeitar, eu abria com as mãos a sua queixada para a forçar a tragá-la! Mas recusar-se a

morrer, a senhora! Quando eu estava pronta a lhe pedir de joelhos que morresse de mãos postas e beijando seu vestido!

CLAIRE – Não era assim tão fácil de conseguir!

SOLANGE  –  A  senhora  acha?  Eu  dava  um  jeito  de  tornar  sua  vida  impossível.  De forçá-la a vir me implorar para lhe oferecer esse  veneno, que talvez  eu lhe recusa-se. Seja como for, a vida lhe seria insuportável.

CLAIRE – Claire e Solange, vocês me irritam, pois eu confundo vocês duas, Claire ou Solange, vocês me irritam e provocam minha cólera. Pois é você que eu acuso de todos os males.

SOLANGE – Repita se tem coragem. (Ela põe seu vestido branco, diante do espelho, por cima do seu vestido preto).

CLAIRE – Eu as acuso de serem culpadas do mais terrível dos crimes.

SOLANGE  –  Ficou  louca!  Ou  embriagada!  Pois  não  há  nenhum  crime,  Claire,  te desafio a nos acusar de um crime definido.

CLAIRE  –  Então  o  inventaremos,  porque  …  você  queria  me  insultar.  Não  faça cerimônia! Cuspa-me na cara! Cubra-me de lama e de imundices!

SOLANGE – A senhora está linda!

CLAIRE – Salte as formalidades de começo. Já faz muito tempo que vocês tornaram inúteis as mentiras, as hesitações que levam a metamorfose! Corre! Corre! Já não posso mais com as vergonhas e as humilhações. O mundo pode nos ouvir, sorrir, sacudir os ombros, nos tratar de loucas ou invejosas, eu estremeço, me arrepio de prazer, Claire eu vou relinchar de alegria!

SOLANGE – A senhora está linda! CLAIRE – Começa os insultos! SOLANGE – A senhora está linda!

CLAIRE – Dispensa o prelúdio. Os insultos!

SOLANGE – A senhora me deslumbra. Eu jamais poderia.

CLAIRE – Os insultos, já disse. Não pensa que me fez enfiar este vestido só para ouvir hinos a minha formosura. Cubra-se de ódio! De insultos! De escarros!

SOLANGE – Me ajude.

CLAIRE  –  Detesto  os  criados.  Detesto-  lhes  a  espécie  odiosa  e  vil.  Os  criados  não pertencem  à  humanidade.  Eles  escorrem.  São  um  miasma  se  arrastando  por  nossos quartos,  por  nossos  corredores,  penetrando  em  nós,  se  enfiando  por  nossa  boca,  nos

corrompendo. Eu, por mim vomito vocês. (Movimento de Solange para ir à janela) Fica aqui.

SOLANGE – Estou subindo, estou subindo…

CLAIRE  –  Sei  que  são  necessários,  como  os  coveiros,  os  limpadores  de  latrina,  os policiais. O que não impede toda essa bela gentalha de feder.

SOLANGE – Continue, continue.

CLAIRE – Com as suas caras de pavor e de remorso, com os seus cotovelos enrugados, seus corpetes demodé, seus corpos feitos para vestir nossos retôlhos. Vocês são nossos espelhos, de deformação, nossa válvula de escape, nossa vergonha, nossa bêrra. SOLANGE – Continue, continue.

CLAIRE  –  Eu  já  estou  beirando,  anda  depressa,  por  favor.  Vocês  são…  Vocês  são… Meu  Deus,  estou  vazia,  não  encontro  mais.  Esgotei  meus  insultos.  Claire,  você  me externa!

SOLANGE – Deixa eu sair. Nós vamos falar ao mundo. Que ele chegue à janela para nos enxergar, é preciso que ele nos ouça. (Abre a janela, mas Claire a puxa para dentro do quarto)

CLAIRE – O pessoal daí defronte vai nos ver.

SOLANGE – (Já na sacada) É o que espero. O tempo está bem. O vento me exalta.

CLAIRE – Solange! Solange! Fica comigo. Entra!

SOLANGE  –  Cheguei  ao  nível.  Madame  contava  com  seu  arrulho  de  rola,  seus amantes, seu leiteiro.

CLAIRE – Solange…

SOLANGE  –  Silêncio!  Seu  leiteiro  matinal,  seu  mensageiro  da  aurora,  seu  sino delicioso, seu senhor insinuante e pálido acabou-se. A postos para o baile.

CLAIRE – Que estás fazendo?

SOLANGE – (Solene) Interrompo-lhe o curso. De joelhos!

CLAIRE – Solange… SOLANGE – De joelhos! CLAIRE – Estás te excedendo!

SOLANGE – De joelhos! Pois já sei qual é finalmente o meu destino.

CLAIRE – Me matar!

SOLANGE – (Indo sobre ela) É o que espero. Meu desespero me faz indomável. Sou capaz de tudo. Ah! Nós éramos malditas!

CLAIRE – Cale a boca.

SOLANGE – Não lhe será preciso ir até o crime.

CLAIRE – Solange!

SOLANGE – Não se mova! Madame vai me ouvir. Você lhe consentiu que escapasse. Você! Ah! Que pena que não posso dizer a ela toda a minha ira! Contar a ela todas as nossas caretas. Mas tu, tão covarde, tão tola, a deixaste fugir! Neste instante ela engole champagne! Não se mova! Não se mova! A morte está presente e nos espreita!

CLAIRE – Deixa eu sair.

SOLANGE – Não se mova. Com seu auxílio vou talvez descobrir o meio mais simples e a coragem, Madame, de libertar minha irmã e ao mesmo tempo me levar à morte.

CLAIRE – Que vais fazer? Tudo isso, aonde nos leva?

SOLANGE – Por favor, Claire, me responda.

CLAIRE – Solange, vamos parar. Não agüento mais. Me deixa.

SOLANGE  –  Pois  vou  continuar  sozinha,  minha  cara.  Não  se  mova.  Quando  você dispunha   de   meios   tão   maravilhosos   era   impossível   que   Madame   escapulisse. (Avançando sobre Claire) E desta vez quero liquidar com uma tipa tão covarde.

CLAIRE – Solange! Solange! Solange!

SOLANGE – Berre à vontade! Pode até lançar seu grito derradeiro, Madame! (Empurra Claire,  que  fica  agachada  num  canto)  Enfim!  Madame  está  morta!  Estendida  no linóleo… Estrangulada pelas luvas de lavar panelas. Madame pode permanecer sentada! Madame pode me chamar de senhorita Solange. Justamente. É por causa do que eu fiz. Madame, o doutor me chamará Senhorita Solange Lemercier… Madame devia ter tirado esse vestido preto, é grotesco. (Imita a voz de Madame) Eis-me aqui reduzida, por luto a minha criada. A saída do cemitério, todos os empregados do bairro desfilavam diante de mim como se eu fosse alguém da família. Tantas vezes fiz de conta que ela pertencia à família.  Vai  ver  que  a  morte  levou  esse  gracejo  até  as  últimas  conseqüências.  Oh! Madame, sou sua igual Madame, e ando de cabeça erguida… (Ri) Não, senhor inspetor, não… O senhor não saberá nada sobre o meu trabalho. Nada sobre o nosso trabalho em comum.  Nada  sobre  a  nossa  colaboração  para  esse  assassinato…  Os  vestidos?  Oh! Madame pode guardá-los. Minha irmã e eu tínhamos os nossos. Aqueles que vestíamos a  noite,  escondida.  Agora  tenho  meu  vestido  e  sou  sua  igual.  Estou  com  a  toalete vermelha  das  criminosas.  Faço  rir  o  doutor?  Faço  o  doutor  sorrir?  Ele  pensa  que  as criadas devem ter bom gosto de não fazerem  gestos que estão reservados à Madame! Verdade que me perdoa? É a bondade em pessoa. Quer competir comigo em grandeza. Mas  a  que  eu  conquistar  é  a  mais  selvagem…  Madame  começa  a  perceber  minha solidão!  Finalmente!  Agora  estou  sozinha,  medonha.  Podia  lhe  falar  com  crueldade,

mas posso ser boa. Seu medo vai passar, Madame. Vai passar completamente. No meio das  suas  flores,  seus  perfumes,  seus  vestidos.  Aquele  vestido  branco  que  a  senhora usava à noite no baile da ópera, aquele vestido branco que eu não deixo ela vestir nunca. E no meio das suas jóias, dos seus  amantes. Quanto a mim, tenho,  minha irmã. Sim, ouso  falar  nela.  Ouso,  Madame.  Posso  ousar  tudo.  E  quem  poderia  me  fazer  falar? Quem  teria  a  coragem  de  me  dizer:  “minha  filha”?  Eu  servi.  Fiz  os  gestos  que  são necessários  para  servir.  Sorri  para  Madame.  Me  abaixei  para  lavar  os  ladrilhos,  me abaixei  para  fazer  a  cama,  me  abaixei  para  descascar  legumes,  para  escutar  atrás  das portas,  colar  meu  olho  nas  fechaduras.  Mas  agora  estou  de  pé.  E  firme.  Sou  a estranguladora. A senhorita Solange, aquela que estrangulou a irmã! Me calar! Madame é mesmo delicada. Mas tenho pena da brancura da Madame, da sua pele acetinada, das suas orelhinhas, dos seus pulsinhos… Eu sou a galinha preta, tenho os meus juízes. Sou da  polícia…  Claire?  Ela  gostava  muito,  muito  mesmo  da  Madame!…  Não  senhor inspetor,  diante  deles  não  explico  nada.  Essas  coisas  só  interessam  a  nós…  Aquilo, minha  filha,  a  nossa  noite,  nossa!  (Acende  um  cigarro  e  fuma  desajeitadamente.  A fumaça  a  faz  tossir)  Nem  vocês  nem  ninguém  vai  saber  nada,  senão  que  desta  vez Solange foi até o fim. Vocês a estão vendo vestida de vermelho. Ela vai sair. (Solange se dirige para a janela, abre-a e sobe a sacada, de costas para o público, encarando a noite. Dirá a retirada seguinte. Um vento leve faz ondular as cortinas) Sair. Descer a grande  escadaria!  A  polícia  a  acompanha.  Saiam  à  sacada  para  vê-la  seguir  entre  os negros penitentes. É meio-dia. E, assim, leva na mão uma tocha de nove libras. Logo atrás, o  carrasco segreda-lhe ao  ouvido palavras  de amor.  O carrasco me  acompanha, Claire! (Ri) Ela será conduzida em cortejo por todas as criadas do bairro, por todos os domésticos  que  acompanharam  Claire  à  sua  última  morada.  (Olha  para  fora)  Levam coroas, flores, bandeirolas, tocam o dobre de finados. O enterro desdobra sua pompa. Lindo,  não.  Vêm  primeiro  os  mordomos,  de  fraque,  sem  forro  de  seda.  Trazem  suas coroas. Depois os criados de libré, os lacaios de culote curto e meias brancas. Trazem suas  coroas.  Vêm  depois  os  camareiros  e  depois  as  arrumadeiras,  trazendo  as  nossas cores. Vêm os porteiros e vêm ainda, as delegações do céu. E eu as conduzo. O carrasco me embala. Todos clamam. Estou pálida e vou morrer! (Entra) Quantas flores! Deram- lhe um lindo enterro, não. Oh! Claire, minha pobrezinha Claire! (Rompe em soluços e se afunda numa poltrona. Levanta-se de novo) Não adianta, Madame, obedeço à polícia. Só ela me compreende. Ela também é do mundo dos réprobos. (Debruçada na ombreira da porta da cozinha, Claire visível só para o público, desde há instantes ouve sua irmã) Agora  somos  a  senhorita  Solange  Lemercier.  A  mulher  Lemercier.  A  Lemercier.  A célebre criminosa. (Cansada) Claire, nós estamos perdidas.

CLAIRE – (Dolente, com a voz da Madame) Fecha a janela e corra a cortina.

SOLANGE – Já é tarde. Todo mundo foi dormir. Não vamos continuar.

CLAIRE – (Faz com a mão um gesto de silêncio) Claire, você vai me servir um chá.

SOLANGE – Mas…

CLAIRE – Eu estou dizendo, meu chá.

SOLANGE – Estamos mortas de cansaço. Temos de parar. (Senta-se na poltrona)

CLAIRE – Ah! Absolutamente! Não! Então pensa, criadinha, que se safa assim à toa? Seria fácil demais conspirar com o vento, ser cúmplice da noite.

SOLANGE – Mas…

CLAIRE – Não discuta. É a mim que compete dispor destes minutos finais. Solange, tu me guardarás em ti.

SOLANGE  –  Mas,  não!  Não!  Estás  louca,  nós  vamos  embora.  Depressa  Claire.  Não vamos ficar. O apartamento está condenado.

CLAIRE – Fica.

SOLANGE – Então não estás vendo, Claire, como eu estou fraca? Como estou pálida?

CLAIRE – Tu és covarde. Obedece. Estamos bem na beira, Solange. Iremos até o fim. Ficarás sozinha para assumir as nossas duas existências. Precisarás de ter muita força. No  presídio  ninguém  saberá  que  eu  te  acompanho,  escondida.  E,  principalmente, quando fores condenada, não te esqueças que me trazes em ti. Precisamente. Seremos lindas,  livres  e  alegres.  Solange,  não  temos  mais  nenhum  minuto  a  perder.  Repete comigo…

SOLANGE – Fala, mas baixinho.

CLAIRE – (Mecânica) Madame deve tomar seu chá.

SOLANGE – (Dura) Não, eu não quero.

CLAIRE – (Segurando pelos pulsos) Descarada! Repete. Madame vai tomar seu chá.

SOLANGE – Madame vai tomar seu chá… CLAIRE – Porque é preciso que ela durma… SOLANGE – Porque é preciso que ela durma… CLAIRE – E que eu vele.

SOLANGE – E que eu vele.

CLAIRE – (Deita-se no leito de Madame) Vou repetir. Não me interrompas mais. Estás me ouvindo? Me obedeces? (Solange faz que sim com a cabeça) Repito! Meu chá!

SOLANGE – (Hesitante) Mas…

CLAIRE – Estou dizendo! Meu chá!

SOLANGE – Mas Madame…

CLAIRE – Bem, continua.

SOLANGE – Mas Madame, ele está frio.

CLAIRE – Tomarei assim mesmo. Traz. (Solange traz-lhe a bandeja) E o serviste no aparelho mais rico, mais precioso… (Pega a xícara e bebe. Enquanto isso Solange de face  para  o  público,  permanece  imóvel,  com  as  mãos  cruzadas,  como  se  tivessem algemadas).

FIM

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s Criadas

(Jean Genet – Tradução de Pontes De Paula Lima)

Personagens Claire Solange Madame

(O quarto de Madame. Móveis Luiz XV. Rendas. Ao fundo, uma janela aberta, que dá para a fachada de um prédio em frente. À  direita, o eleito. À esquerda,  uma porta e uma cômoda. Flores em profusão. É noite)

CLAIRE – (De pé, de combinação, voltando as costas para a penteadeira. Seu gesto, o braço estendido, é o tom serão de um trágico exasperado) E essas luvas! Essas luvas eternas! Já te repeti suficientemente que as deixasses na cozinha. É com isso, por certo, que esperas seduzir o leiteiro. Não, não, não mintas, é inútil. Pendure-as  por cima da pia. Quando compreenderás que este quarto não pode ser enxovalhado. Tudo, mas tudo o que vem da cozinha é escarro! Sai! E leva os teus escarros! Mas para! (Durante esta tirada,  Solange  brincava  com  um  par  de  luvas  de  borracha,  observando  suas  mãos enluvadas;  ora  em  buquê,  ora  em  leque)  Nada  de  cerimônia,  faz  teu  bichinho.  E principalmente  não  te  apresses,  temos  tempo.  Sai!  (Solange,  de  repente,  muda  de atitude  e  sai  com  humildade  segurando  na  ponta  dos  dedos  as  luvas  de  borracha. Claire senta-se à penteadeira. Aspira as flores. Afaga os objetos de toillete, escova o cabelo, ajeita o rosto) Prepara meu vestido. Depressa, o tempo voa. Você não está aí? (Volta-se) Claire!Claire! (Entra Solange)

SOLANGE – Madame me perdoe, eu estava preparando o chá de tília (Ela pronuncia tílea) da senhora.

CLAIRE  –  Arranje  as  minhas  toaletes.  O  vestido  branco  de  pailleté.  O  leque,  as esmeraldas.

SOLANGE – Todas as jóias de Madame?

CLAIRE – Traga. Quero escolher. E, naturalmente, os sapatos de verniz. Aqueles que você vem cobiçando há anos. (Solange tira do armário alguns estojos que abre e dispõe sobre  a  cama)  Para  o  seu  casamento,  com  certeza.  Confessa.  Confessa  que  ele  a seduziu!  Que  você  está  grávida!  Confesse!  (Solange  se  agacha  no  tapete  e,  cuspindo neles,  lustra  os  escarpins  de  verniz)  Eu  já  lhe  disse,  Claire,  para  evitar  os  escarros. Deixe-os  dormir  dentro  de  você  minha  filha,  apodrecer  aí  dentro.  Ah!  Ah!  (Ri nervosamente)  Que  nele  se  afogue  o  caminhante  perdido.  Ah!  Ah!  Você  é  horrenda, minha  bela!  Curva-se  mais  e  olhe-se  nos  meus  sapatos.  (Estende  o  pé,  que  Solange examina) Pensa que me é agradável saber o meu pé envolto nos véus da sua saliva? Na bruma de seus pantanais?

SOLANGE – (De joelhos e muito humilde) Desejo que Madame fique linda.

CLAIRE  –  Ficarei.  (Arruma-se  ao  espelho)  Vocês  me  detestam,  não  é?  Vocês  me esmagam com os seus cuidados e a sua humildade, com gladiólogos e rosedá. (Levanta- se em tom mais baixo) Atulhamos à toa. Aqui tem flor demais. É mortal. (Contempla-se ainda) Ficarei linda. Mais do que você jamais conseguirá. Pois não com esse corpo e essa cara que conquistará Mário. Esse jovem leiteiro ridículo nos despreza e se fez em você um bebê…

SOLANGE – Oh! Mas eu nunca…

CLAIRE – Cale-se idiota! Meu vestido!

SOLANGE – (Procura no armário, afastando alguns vestidos) O vestido vermelho. Madame vai por o vestido vermelho!

CLAIRE – Eu disse o vestido branco de pailleté.

SOLANGE  –  (Dura)  Sinto  muito.  Madame  esta  noite  usará  o  vestido  de  veludo escarlate.

CLAIRE – (Ingenuamente) Ah? Por quê?

SOLANGE – (Friamente) Não consigo esquecer o colo de madame sob o drapeado de veludo. Quando Madame suspira e diz ao doutor como eu sou dedicada! Uma toalete negra serviria melhor sua viuvez.

CLAIRE – Como?

SOLANGE – Tenho que explicar?

CLAIRE – Ah! Queres falar… Perfeito. Me ameaça. Insulta tua patroa. Solange, queres falar, não é? Nas desgraças do doutor. Tola. Não é o momento de lembrá-lo, mas dessa sugestão vai tirar um partido estupendo. Sorris? Duvidas?

SOLANGE – Ainda não é hora de exumar…

CLAIRE – Minha infâmia? Minha infâmia! De exumar! Que palavra!

SOLANGE – Madame!

CLAIRE – Estou vendo aonde queres chegar. Já ouço o zum-zum das tuas acusações, desde o começo estás me insultando, procurando a hora de cuspir na minha cara..

SOLANGE – (Mísera) Madame, Madame, ainda não chegamos aí. Se o doutor…

CLAIRE – Se o doutor está na cadeia, é graças a mim, tem coragem, diz! Diz! Podes falar franco, fala. Eu ajo em surdina, camuflada pelas minhas flores, mas contra mim tu não podes fazer nada.

SOLANGE – A menor palavra lhe parece uma ameaça. Recorde-se, Madame, eu sou a criada.

CLAIRE  –  Por  que  denunciei  o  doutor  à  polícia,  consenti  em  vendê-lo,  ficarei  à  tua mercê? No entanto eu teria feito pior. Melhor. Pensas que não sofri? Claire, eu forcei minha  mão,  estás  ouvindo,  lentamente,  sem  errar,  sem  riscar,  firmemente,  forcei-a  a traçar essa carta que mandaria meu amante às galés. E tu, em vez de me amparar, me escarneces? Falas de viuvez! O doutor não está morto. Claire, o doutor, de presídio em presídio, será levado até a Guiana. Talvez, eu, a amante, louca de dor, o acompanharei. Estarei  no  comboio,  compartilharei  sua  glória.  Falas  de  viuvez.  O  vestido  branco  é  o luto das rainhas, Claire, disto não sabes. Negas-me o vestido branco!

SOLANGE – (Friamente) Madame vai por o vestido vermelho.

CLAIRE – (Simplesmente) Bem.  (Severa) Me dá o vestido. Oh! Estou mesmo só em amizade. Vejo em teus olhos que me odeias.

SOLANGE – Eu gosto da senhora.

CLAIRE – Como se gosta de uma patroa, não há dúvida. Gostas de mim e me respeitas. E esperas minha doação, o codicilo em teu benefício…

SOLANGE – Eu faria o impossível…

CLAIRE  –  (Irônica)  Eu  sei.  Me  atirarias  ao  fogo.  (Solange  ajuda  Claire  a  por  o vestido)  Prenda  os  colchetes.  Puxe  com  menos  força.  Não  procures  me  amarrar. (Solange ajoelha-se aos pés de Claire e lhe arranja as dobras do vestido) Veja se não me encosta. Afaste-se. Você fede a fera. De que desvão infecto onde à noite os criados a visitam,  vocês  trazem  esses  cheiros?  O  desvão?  O  quarto  das  criadas!  A  mansarda! (Com  graça)  Por  lembrança  é  que  me  refiro  ao  cheiro  das  mansardas,  Claire,  ali… (Mostra um ponto do quarto) Ali, as duas camas de ferro, separadas pelo criado-mudo. Ali, a cômoda de pinhão com o altarzinho da Virgem Santíssima. É exato, não é?

SOLANGE – Somos infelizes. Eu podia chorar.

CLAIRE – É exato. Deixemos nossas devoções à Virgem Santíssima de gesso, nossas ajoelhações.  Não  devemos  nem  sequer  falar  das  flores  de  papel…  (Ri)  de  papel!  E  o

galho  de  buxo  bento!  (Mostra  as  flores  do quarto) Veja  só  estas  acarolas  abertas  em meu louvor! Eu sou uma virgem mais linda, Claire.

SOLANGE – Cale a boca…

CLAIRE – E lá, a célebre clarabóia por onde o leiteiro seminu pula para sua cama!

SOLANGE – Madame se extravia, Madame…

CLAIRE  –  Suas  mãos!  Não  extravie  suas  mãos.  Já  lhe  sussurrei  bastante!  Elas emprestam a pia!

SOLANGE – A queda!

CLAIRE – Ahn?

SOLANGE – (Arranjando-lhe o vestido) A queda. Estou ajeitando essa sua queda de amor.

CLAIRE – Afasta-se, labona! (Dá com o salto Luiz XV na têmpora de Solange. Esta, agachada, vacila e recua)

SOLANGE – Ladrona, eu? Oh!

CLAIRE – Eu digo lambona. Se insiste em choramingar, faça-o na sua mansarda. Só aceito aqui, em meu quarto, lágrimas nobres. A barra do meu vestido ficará, certo dia, cravejado de lágrimas, porém preciosas. Arranja a cauda cadela!

SOLANGE – Madame se arrebata!

CLAIRE  –  Em  seus  braços  perfumados  o  diabo  me  arrebata.  Me  levanta,  eu  decolo, parto… (Bate com o salto no chão) e fico. O colar? Anda, não vamos ter tempo. Se o vestido  estiver  comprido  demais,  faz  uma  bainha  com  alfinetes  de  fralda.  (Solange levanta-se e vai buscar o colar num estojo, mas Claire passa-lhe à frente e se apodera da jóia, tendo seus dedos roçado nos de Solange. Claire horrorizada, recua) Fique com as mãos longe das minhas, seu toque é imundo. Ande depressa.

SOLANGE  –  É  bom  não  exagerar.  Seus  olhos  se  acendem.  Já  está  alcançando  a margem…

CLAIRE – Quer dizer?

SOLANGE – Os limites. Os confins, Madame. Convém manter as distâncias.

CLAIRE  –  Que  linguagem  minha  filha.  Claire?  Estás  descontando,  não  é?  Estás pressentindo o instante em que sais do meu papel…

SOLANGE – Madame me compreenderá as mil maravilhas. Madame advinha.

CLAIRE  –  Pressente  o  instante  em  que  não  serás  mais  criada.  Vais  te  vingar.  Estás preparando? Aguçando as unhas? O ódio te despertar. Claire, não esquece, Claire, tu me ouves? Mas Claire, não me estás ouvindo?

SOLANGE – (Distraída) Estou ouvindo.

CLAIRE – (Urrando) É graças a mim que tu és, e zombas de mim. Não podes calcular como é doloroso ser Madame Claire, servir de pretexto para as momices de vocês. Me custaria tão pouco e deixavas de existir. Mas eu sou boa, e sou bela e te desafio. Meu desespero de amante me faz mais linda!

SOLANGE – (Desdenhosa) Seu amante!

CLAIRE – Meu desgraçado amante ainda contribui para minha nobreza, minha filha. Cresço ainda mais para te reduzir e te exaltar. Recorro os teus ardis. É hora!

SOLANGE – Basta! Depressa… Estás pronta?

CLAIRE – E tu?

SOLANGE  –  (Com  brandura  em  princípio)  Estou  pronta.  Já  estou  farta  de  ser  uma coisa nojenta. Eu também detesto a senhora…

CLAIRE  –  Calma,  menina,  calma…  (Bate  levemente  no  ombro  de  Solange  para acalmá-la)

SOLANGE – Detesto a senhora! Desprezo a senhora. A senhora não me assusta mais não. Desperte a lembrança do seu amante para que ele a proteja. Odeio a senhora! Odeio o  seu  seio…  De  marfim!  Suas  conhas…  De  ouro!  Seus  pés…  De  âmbar!  (Cospe  no vestido vermelho) Odeio-a senhora!

CLAIRE – (Sufocada) Oh! Oh! Mas …

SOLANGE – (Avançando em cima dela) Sim, Madame, minha bela madame. Acha que terá carta branca até o fim? Acha que pode furtar a beleza do céu e me privar? Escolher seus perfumes, seus pés,  seus carmins para as unhas, a seda, o veludo,  a renda, e me privar? E me tomar o leiteiro? Confesso! Confesso, o leiteiro! O viço, a mocidade dele a perturbam, não é? Confesse, o leiteiro. Porque Solange lhe diz: merda!

CLAIRE – (Desvairada) Claire! Claire!

SOLANGE – Ahn!

CLAIRE – (Num murmúrio) Claire, Solange, Claire.

SOLANGE – Ah! Sim, Claire. Claire lhe diz: merda! Claire! Claire está aí, mais clara do que nunca. Luminosa! (Esbofeteia Claire)

CLAIRE – Oh! Oh! Claire… Você… Oh!…

SOLANGE – Madame pensava que estava protegida por sua suas barricadas de flores, salvas por um excepcional destino, pelo sacrifício. É porque não contava com a revolta das criadas. Olhe, Madame, ela está crescendo. Vai estourar e desinchar sua aventura. Esse doutor não passava de um triste ladrão e a senhora, uma…

CLAIRE – Eu te proíbo!

SOLANGE   –   Me   proibir!   Brincadeira!   Madame   está   interditada.   Seu   rosto   se decompõe. Quer um espelho? (Estende a Claire um espelho de mão)

CLAIRE  –  (Mirando-se  com  complacência)  Nele  eu  estou  mais  linda.  O  perigo  me aureola, Claire, e tu, tu és só trevas…

SOLANGE – …  Infernais! Já sei. Já conheço  a  tirada.  Leio  em seu  rosto o que devo responder. Portanto irei até o fim. Aí estão as duas criadas. As dedicadas servas! Fique mais bela para desprezá-las. Já não temos medo da senhora. Nós estamos envolvidos, confundidas  em  nossas  exalações,  nossos  fastos,  nosso  ódio  da  senhora.  Estamos adquirindo    contorno,    Madame,    não    ria.    Ah!    Sobretudo    não    ria    de    minha grandiloqüência…

CLAIRE – Retire-se.

SOLANGE – Às suas ordens, mais uma vez, Madame! Volto para a minha cozinha. Lá torno a encontrar as minhas luvas e o cheiro dos meus dentes. O arroto caldo da pia. A senhora tem as suas flores, eu tenho a minha pia. A senhora, pelo menos, não pode me emporcalhar.  Mas  não  vai  levar,  mas  não  vai  levar  nada  pro  céu,  não  senhora.  Eu preferia acompanhar a senhora até lá do que deixar meu ódio na porta. Ria um pouco, ria  e  reze  rápido,  bem  rápido.  Sua  prosa  acabou,  minha  cara!  (Estapeia  as  mãos  de Claire,  que  protege  a  garganta)  Baixa  as  patas  e  descubra  esse  pescocinho  delicado. Vamos, não trema, não se arrepie. Eu trabalho depressa e sem fazer barulho. Sim vou voltar  pra  minha  cozinha,  mas  primeiro  acabo  o  serviço.  (De  súbito  um  despertador começa a tocar. Solange se interrompe. As duas atrizes se aproximam emocionadas e escutam; uma colada contra a outra) Já?!

FIM DA UNIDADE I

CLAIRE – Depressa. Madame vai chegar. (Começa a descolchear o vestido) Me ajuda, o tempo acabou e não pudeste ir até o fim.

SOLANGE – (Ajudando-a num tom triste) É sempre assim. E a culpa é tua. Nunca te aprontas a tempo. Não posso te liquidar.

CLAIRE – O que nos toma tempo são os preparativos. Olha que…

SOLANGE – (Tira-lhe o vestido) Vigia a janela.

CLAIRE  –  Olha  que  ainda  temos  margem.  Acertei  o  despertador  pra  dar  tempo  de arrumar tudo. (Com lassidão, deixa-se cair na poltrona).

SOLANGE – Está abafado, esta noite. Fez mormaço o dia inteiro.

CLAIRE – É. Isso mata a gente, Solange.

SOLANGE – É isso mata a gente, Claire.

CLAIRE – É. (Levanta-se com lassidão) Vou aprontar o chá.

SOLANGE – Vigia a janela.

CLAIRE – Tem tempo. (Limpa o rosto).

SOLANGE – Ainda estás te olhando… Claire, meu bem…

CLAIRE – Estou cansada.

SOLANGE – (Dura) Vigia a janela. Tu és tão desastrada que ias deixar tudo fora do lugar.  E  tenho  de  limpar  o  vestido  da  Madame.  (Olha  a  irmã)  O  que  é  que  tu  tens? Agora  já  podes  parecer  contigo.  Retoma  teu  rosto.  Vamos,  Claire,  volta  a  ser  minha irmã…

CLAIRE – Estou exausta. Essa luz me mata. Achas que o pessoal daí de fronte…

SOLANGE – O que é que nós temos com isso? Não ias querer que a gente se… Que a gente se organizasse no escuro? Fecha os olhos Claire. Descansa.

CLAIRE – (Põe seu vestidinho preto) Oh! Quando digo que estou cansada, é um modo de dizer. Não te aproveitas para me lastimar. Não tentes me dominar.

SOLANGE  –  Eu  queria  que  tu  descansasses.  É  quando  me  ajudas  mais,  quando descansas.

CLAIRE – Eu te entendo, não te expliques.

SOLANGE – Me explico sim. Tu é que começastes. E logo de saída, com aquela alusão ao leiteiro. Pensas que não te percebi? Se Mário…

CLAIRE – Oh!

SOLANGE – Se o leiteiro à noite me diz grosserias, também diz a ti. Mas estavas bem contente de poder…

CLAIRE – (Ergue os olhos) É melhor verificar se tudo está em ordem. Olha, a chave da secretária estava colocada deste jeito. (Arruma a chave) E sobre os cravos e as rosas é impossível, como bem diz o doutor, a gente deixar…

SOLANGE – (Vilmente) Estavas contente ainda agora de poder misturar teus insultos…

CLAIRE – … De descobrir um fio de cabelo de uma criada ou da outra…

SOLANGE – E os detalhes da nossa vida particular com…

CLAIRE  –  (Irônica)  Com?  Com?  Com  quê?  Dá  nome!  Dá  nome  ao  troço.  A cerimônia?  Aliás,  não  temos  tempo  de  começar  uma  discussão  aqui.  Ela,  ela,  ela  vai chegar. Mas, Solange, desta vez ela está em nossas mãos. Que inveja eu tenho, que lhe visto  a  cara  quando  recebeu  a  notícia  da  prisão  do  doutor.  Pelo  menos  desta  vez  eu trabalhei direitinho. Reconheces? Sem mim, sem a minha carta de denúncia não terias este  espetáculo:  o  amante  algemado  e  Madame  em  pranto.  Ela  pode  até  morrer.  De manhã, mal se agüentava de pé.

SOLANGE – Antes isso. Tomara que estoure! E que eu herde, afinal nunca mais por os pés  naquela  mansarda  sórdida,  entre  aqueles  imbecis,  entre  uma  cozinheira  e  um camareiro.

CLAIRE – Pois eu, gostava de nossa mansarda.

SOLANGE  –  Não  te  enterneças.  Gostas,  pra  me  contradizer.  A  mim,  que  a  detesto. Vejo-a tal qual ela é: sórdida e nua. Sem luxo, como diz  Madame. Mas  também, ora essa, o que é que nós somos? Lixo!

CLAIRE – Ah! Não, não recomeces. É melhor olhar na janela. Eu não enxergo nada, a noite está muito escura.

SOLANGE  –  Deixa  eu  falar.  Me  esvaziar.  Eu  gostava  de  mansarda  porque  aquela pobreza me impunha gestos pobres. Sem reposteiros para erguer, nem tapetes pra pisar, nem móveis pra  acariciar… Com os olhos ou o esfregão, nem  espelhos,  nem balcões. Nada nos forçava a fazer nenhum gesto belo demais. (A um gesto de Claire) Mas fica tranqüila,  na  cadeia  poderás  continuar  bancando  a  tua  soberana,  tua  Maria  Antonieta, sair andando à noite pelo apartamento…

CLAIRE – Tu estás louca! Eu nunca saí andando pelo apartamento.

SOLANGE  –  (Irônica)  Oh!  A  senhorita  nunca  saiu  por  aí!  Envolta  nas  cortinas  ou então  na  colcha  de  renda,  não  é?  Se  contemplando  nos  espelhos,  se  pavoneando  na sacada  e  saudando,  às  duas  da  manhã,  o  povo  que  acorrera  para  desfilar  sob  suas janelas. Nunca, não é? Nunca!

CLAIRE – Mas, Solange…

SOLANGE – A noite é muito escura para espiar Madame. Na tua sacada tu te julgavas invisível. Que pensas que eu sou? Não vais me dizer agora que é sonâmbula. No ponto em que estamos, podes confessar.

CLAIRE  –  Mas,  Solange,  estás  gritando.  Por  favor,  fala  mais  baixo.  Madame  pode chegar sorrateiro… (Corre até a janela e ergue a cortina).

SOLANGE – Deixa a cortina em paz, já acabei. Não gosto de te ver levantá-la assim, teu gesto me agita. Deixe-a cair. Na manhã que foi preso, espiando os policiais, o doutor fez assim.

CLAIRE – O menor dos gestos te parece um gesto de assassino, que tenta fugir pela escada de serviço. Agora estás com medo.

SOLANGE – Zomba para me acirrar. Zomba, anda! Ninguém gosta de mim! Ninguém gosta de nós!

CLAIRE – Ela, ela gosta de nós. Ela é boa. Madame nos adora.

SOLANGE – Gosta de nós como das poltronas dela. E olha lá! Como da louça cor de rosa das latrinas dela. Como o bidê. E nós, nós  não podemos gostar uma da outra. A sujeira…

CLAIRE – Ah!

SOLANGE  –  …  Não  gosta  de  sujeira.  E  achas  que  vou  tomar  partido  da  sujeira, continuar  com  este  brinquedo  e  de  noite  voltar  para  o  meu  catre?  E  será  que  ainda podemos continuar com o brinquedo? E eu, se não puder mais cuspir na cara de alguém que  me  chama  de  Claire,  engasgo  com  os  meus  escarros.  Minha  cusparada  é  meu chuveiro de brilhantes.

CLAIRE – (Levanta-se e chora) Fala mais baixo, por favor. Fala. Fala da bondade de

Madame.

SOLANGE – A bondade dela! É fácil ser boa, e sorridente, e meiga. Ah! A meiguice dela! Quando se é linda e rica! Mas ser criada e boa! A gente se contenta em desfilar enquanto vai arrumando a casa ou lavando a louça. Brandimos um espanador como se fosse um leque. Fazemos gestos elegantes com o avental. Ou então, como tu, alta noite, nos damos o luxo de armar um desfile histórico nos aposentos de Madame.

CLAIRE  –  Solange!  Outra  vez!  O  que  é  que  estás  querendo?  Pensas  que  as  tuas acusações é que vão nos acalmar? A teu respeito eu podia contar outras melhores.

SOLANGE – Tu? Tu?

CLAIRE – Perfeitamente, eu se quisesse. Por que afinal de contas.

SOLANGE – Afinal de contas? O que é que estás insinuando? Tu é que falaste nesse homem. Claire, eu te odeio.

CLAIRE – Te pago na mesma moeda. Mas não vou buscar o pretexto de um leiteiro para te ameaçar.

SOLANGE – De nós duas, qual é a que ameaça a outra? Ahn! Vacilas?

CLAIRE – Experimenta  só. Atira primeiro.  Tu  é que recuas, Solange.  Não ousas me acusar  do  mais  grave:  minhas  cartas  à  polícia.  A  mansarda  ficou  soterrada  sobre  os meus  rascunhos…  Sob  páginas  e  mais  páginas.  Inventei  as  piores  histórias  e  as  mais lindas e tu te aproveitavas. Ontem a noite, bancando Madame com o vestido branco, tu exultavas,  exultavas,  tu  já  devias  subir  furtivamente  na  embarcação  dos  deportados, no…

SOLANGE – No Lamartinière.

CLAIRE – Seguias o Doutor, teu amante… Fugia da França. Partia para a ilha do Diabo ou  para  Guiana,  com  ele!  Um  belo  sonho!  Por  que  eu  tinha  a  coragem  de  mandar minhas cartas anônimas, tu te davas ao luxo de ser uma prostituta de algo bordo, uma hetaira. Estavas feliz com teu sacrifício, de levar a cruz…

CLAIRE – … Do mau ladrão, enxugar-lhe o rosto, ampará-lo, te entregares aos  galés para que lhe seja concedido um pequeno alívio.

SOLANGE – Mas tu, ainda agora, quando falavas em acompanhá-lo.

CLAIRE – Isso eu não nego, retomei a história no ponto em que a deixaste. Mas com menos  violência.  Já  na  mansarda,  no  meio  das  cartas,  o  teu  corpo  balanceava  com  o jogo do navio.

SOLANGE – Tu não te vias.

CLAIRE – Via sim! Posso me ver no teu rosto, observar os estragos que a nossa vítima faz nele! O doutor agora está trancafiado. Alegremo-nos. Pelo menos ficamos livres de suas zombarias. E tu terás mais liberdade para te refestelares no seu tórax, inventarás melhor o torso e as pernas dele, espiarás o jeito dele andar. O jogo do navio se fazia balancear! Já te abandonavas a ele. Com o risco de nos perder.

SOLANGE – Como?

CLAIRE – Eu explico. Perder. Para escrever as minhas cartas de denúncia a polícia, eu precisava de fatos, tinha de fitar datas. E o que é que eu fiz?  Ahn? Vê se te lembras. Minha  cara,  vossa  rósea  confusão  é  encantadora.  Te  envergonhas.  Mas,  no  entanto estavas lá! Dei busca nos papéis de Madame até descobrir a célebre correspondência…

(Pausa)

SOLANGE – E depois?

CLAIRE  –  Oh!  Mas  tu  acabas  por  me  irritar!  Depois?  Está  bem,  depois  quiseste conservar as cartas do doutor. E ainda ontem à noite, na mansarda, restava uma carta do doutor para Madame! Eu descobri!

SOLANGE – (Agressiva) Mexendo nos meus guardados, ahn.

CLAIRE – É meu dever.

SOLANGE – Agora sou eu que espanto com teus escrúpulos…

CLAIRE – Não sou escrupulosa, sou prudente. Enquanto eu arriscava tudo, de joelhos no  tapete,  para  forçar  a  fechadura  e  a  escrivaninha,  para  compor  uma  história  com materiais…

CLAIRE  –  …  Exatos,  tu,  inebriada  com  o  tema  de  teu  amante  criminoso,  culpado  e degredado, me abandonavas!

SOLANGE  –  Eu  tinha  ajeitado  um  espelho  para  enxergar  a  porta  da  rua.  Estava  de alcatéia.

CLAIRE  –  Não  é  verdade.  Eu  reparo  em  tudo  e  há  muito  tempo  que  te  venho observando. Com tua habitual prudência, ficaste parada na porta da copa, pronta a pular pro fundo da cozinha assim que Madame chegasse!

SOLANGE – Mentira, Claire, eu estava vigiando o corredor…

CLAIRE – É falso! Por pouco Madame não me pilhou com a boca na botija! Tu, sem saber  se  as  minhas  mãos  tremiam  procurando  os  papéis,  tu  te  mandavas,  através  dos mares transpunhas o Equador.

SOLANGE  –  (Irônica)  E  tu,  ahn?  Com  esse  ar  de  que  não  sabes  nada  sobre  os  teus arroubos! Vamos ver se tens coragem, Claire, de declarar que nunca sonhaste com um forçado! Que nunca sonhaste precisamente com ele! Vê se tens coragem de dizer que não o denunciaste justamente, justamente, que palavra linda! Pra que ele servisse a tua aventura secreta.

CLAIRE – Sei tudo isso e mais alguma coisa. Sou mais lúcida. Mas a história, tu é que a inventaste. Olha pra cá. Ah se tu te visses. Solange, o sol da mata virgem ainda está luzindo no teu rosto. Estás preparando a evasão do teu amante. (Ri nervosamente) Como te  trabalhas!  Mas  podes  ficar  tranqüila,  eu  te  detesto  por  outros  motivos.  Bem  sabe quais.

SOLANGE – (Baixando a voz) Não tenho medo de ti. Não duvido do teu ódio, de tua esperteza, mas presta bem atenção. A mais velha sou eu.

CLAIRE  –  E  o  que  significa  isso,  a  mais  velha?  E  a  mais  forte?  Me  obrigas  a  falar desse homem para despistar meus olhos. Vamos! Pensas que não te descobri? Tentaste matá-la.

SOLANGE – Estás me acusando?

CLAIRE  –  Não  negues.  Eu  te  vi.  (Longa  pausa)  E  fiquei  com  medo,  com  medo, Solange. Quando executamos a cerimônia, eu protejo meu pescoço. Através de Madame é a mim que estás visando.

CLAIRE – … Sou eu que corro perigo. (Longa pausa. Solange dá de ombros).

SOLANGE – (Decidida) Tentei sim. Queria te libertar. Eu já não podia mais. Sufocada te  vendo  sufocar,  enribescar,  esacerdear,  apodrecer  na  doçura  e  no  azedume  dessa mulher.  Tens  razão  em  me  censurar,  por  te  querer  demais.  Seria  a  primeira  a  me denunciar se eu a tivesse matado. Por ti é que eu seria entregue a polícia.

CLAIRE – (Segura-a pelos punhos) Solange…

SOLANGE – (Se desprendendo) De que tens medo? O caso é comigo.

CLAIRE – Solange, minha irmãzinha. Eu é que errei. Ela vai chegar.

SOLANGE  –  Não  matei  ninguém.  Fui  covarde,  compreendes.  Fiz  tudo  o  que  podia, mas ela se voltou, dormindo, respirava baixinho. Ondulava os lençóis: era Madame.

CLAIRE – Cala a boca.

SOLANGE  –  Ainda  não.  Tu  querias  saber,  espera,  que  eu  te  conto  outras.  Vais  ver como  ela  é  feita,  a  tua  irmã.  Do  que  é  feita,  a  composição  de  uma  criada:  eu  queria estrangular…

CLAIRE – Pensa no céu. Pensa no céu. No que há depois.

SOLANGE – Não há nada. Já estou farta de me ajoelhar em bancos. Na igreja eu queria o veludo vermelho das abadessas ou a pedra dos penitentes, mas pelo menos nobre seria minha  atitude.  Olha!  Olha  só  como  ela  sofre  bem,  como  sofre  bonito.  Transfigurada pela  dor,  embelezada!  Quando  soube  que  o  amante  era  ladrão,  enfrentou  a  polícia. Exultava! Agora é uma abandonada magnífica, amparada em cada braço por duas servas solícitas e desaladas ante o seu sofrimento. Viste? Sua tristeza cintilando ao clarão das jóias, de cetim dos trajes, dos lustres! Claire, a beleza do meu crime devia resgatar a pobreza de meu sofrimento. Depois eu ateava fogo!

CLAIRE  –  Calma,  Solange.  O  fogo  podia  não  pegar.  Te  descobririam.  Bem  de  que espera os incendiários.

SOLANGE – Eu sei tudo. Colei os olhos e as orelhas às fechaduras, escutei atrás das portas mais do que qualquer outra…

SOLANGE – … Criada. Sei tudo! Incendiária! Mas é um título admirável.

CLAIRE  –  Cala  a  boca.  Me  fazes  ficar  sem  ar.  Estou  sufocada!  (Quer  entreabrir  a janela) Ah! Um pouco de ar neste quarto!

SOLANGE – (Inquieta) Que queres fazer?

CLAIRE – Abrir.

SOLANGE – Tu também? Eu há muito tempo estou sufocando! Há muito tempo estou querendo fazer o nosso jogo na cara de todo mundo, berrar minha verdade por cima dos telhados, descer à rua com os ares de Madame…

CLAIRE – Cale a boca. Eu queria dizer…

SOLANGE – Ainda é cedo, tens razão. Sai da janela. Abre a porta da ante-câmara e da cozinha. (Claire abre uma porta e a outra) Vai ver se água está fervendo.

CLAIRE – Sozinha?

SOLANGE – Então espera, espera ela chegar. Ela vem com suas estrelas, sua lágrima, seus sorrisos, seus suspiros. Vai nos corromper com a doçura dela. (O telefone toca, as duas escutam)

CLAIRE – (Atendendo o telefone) O doutor? É o doutor… Claire, doutor. (Solange quer escutar, Claire a afasta) Sim senhor, eu aviso Madame. Madame vai ficar contente de saber que o doutor está em liberdade. Sim senhor, vou anotar. Doutor espera Madame no Bilboquê. Muito bem, boa noite doutor. (Quer desligar, mas a mão treme e ela põe o fone na mesa).

SOLANGE – Ele saiu?

CLAIRE – O juiz lhe dá a liberdade provisória. SOLANGE – Mas… Então gorou tudo. CLAIRE – (Seca) Como estás vendo.

SOLANGE – Os juízes tiveram o topete de soltá-lo. Ludibriam a justiça, nos insultam! Se  o  doutor  está livre,  vai  fazer  um  inquérito,  vai  dar  busca  na  casa  para  descobrir  a culpada. Estou me perguntando se tu avalias a gravidade da situação.

CLAIRE – Fiz o que pude, por nossa conta o risco.

SOLANGE – Trabalhaste muito bem. Meus cumprimentos. Tuas denúncias, tuas cartas, tudo funciona as mil maravilhas. E se reconhecerem…

SOLANGE – … Tua letra, vai ser perfeito. E porque é que ele vai para o Bilboquê antes de passar em casa? Podes explicar?

CLAIRE – Já que és assim tão habilidosa, devias ter dado conta do caso com Madame. Mas ficaste com medo, o ar estava perfumado, o leite morno. Era Madame. Só nos resta continuar nesta vida, recomeçar o jogo.

SOLANGE – O próprio jogo é um perigo. Tenho certeza que deixamos pistas. Por tua culpa. Deixamos todas às vezes. Estou vendo a multidão de pistas, que nunca poderei apagar. Ele, ela passando no meio e se apoderando daquilo tudo, decifrando, colocando a pontinha de rósseo pé em cima de nossas pistas. E nos descobre, primeiro uma depois da outra. Por tua culpa, Madame zomba de nós. Madame saberá de tudo. É só colocar a campainha  e  está  servida.  Ficará  sabendo  que  a  gente  usava  vestidos  dela,  roubava gestos  dela,  enrolava  o  amante  dela  com  nossas  macaquices.  Tudo  vai  falar,  Claire. Tudo nos acusará. As cortinas marcadas por teus ombros, os espelhos, por meu rosto, a luz que se acostumou com as nossas loucuras, a luz vai confessar tudo. Por causa do teu desmazelo, tudo está perdido.

CLAIRE – Tudo está perdido porque não tiveste a força necessária para…

SOLANGE – Para…

CLAIRE – Matá-la.

SOLANGE – Ainda posso encontrar a força necessária.

CLAIRE – Onde? Onde? Não estás tão transportada como eu. Não vives acima da copa das árvores. Um leiteiro que atravesse tua cabeça atordoa.

SOLANGE – Foi por não ver a cara dela, Claire. Porque fiquei, de repente, tão perto de Madame, pois estava perto do seu sono. Fui perdendo a força.  Era preciso levantar o lençol, suspenso pelo seu seio, para achar a garganta.

CLAIRE – (Irônica) E os lençóis estavam mornos. A noite negra. Essas coisas a gente faz  é  em  plena  luz  do  dia.  És  incapaz  de  executar  um  ato  terrível.  Mas  eu,  eu  posso conseguir. Eu sou capaz de tudo, bem sabes.

SOLANGE – O gardenal.

CLAIRE – Sim. Vamos falar serenamente. Eu sou forte. Tentaste me dominar…

SOLANGE – Mas, Claire…

CLAIRE – (Calmamente) Perdão. Sei o que estou dizendo. Sou Claire. E estou pronta. Farta. Farta de bancar a aranha, a capa de guarda-chuva, a religiosa sórdida e sem Deus, sem  família!  Farta  de  ter  um  forno  como  altar.  Eu  sou  chata,  a  putrefacta.  Aos  teus olhos também.

SOLANGE – (Abraça os ombros de Claire) Claire… Estamos nervosas. Madame não chega.  Eu  também  já  não  agüento  mais.  Não  agüento  mais  a  nossa  semelhança,  não agüento mais as minhas mãos, as minhas meias pretas, o meu cabelo. Não te censuro minha caçulinha. As tuas passeatas te desabafam…

CLAIRE – (Irritada) Ah! Esquece.

SOLANGE  –  Eu  também  queria  te  ajudar.  Bem  queria  te  consolar,  mais  sei  que  te enojo.  Te  causo  repugnância,  e  sei  disso  porque  me  dás  nojo.  A  gente  se  gostar  na servidão não é gostar.

CLAIRE – E se gostar demais, mas já cansei desse espelho terrível que me envolve a minha imagem como se fosse um mau cheiro. És o meu mau cheiro. Pois bem! Estou pronta. Terei minha coroa. Poderei passear pelos aposentos.

SOLANGE – Mas assim mesmo, a gente não pode matá-la por tão pouco.

CLAIRE  –  É  mesmo?  Não  basta?  E  por  que,  se  me  fazes  o  favor?  Por  que  outro motivo?  Quando,  onde,  encontraremos  um  pretexto  melhor?  Não  é  suficiente?  Esta

noite Madame verá nosso embaraço, rindo às gargalhadas, chorando de rir, com aqueles suspiros grossos! Não. Hei de ter a minha coroa.

CLAIRE – … Serei a envenenadora que não soubeste ser. É a minha vez de te dominar.

SOLANGE – Mas eu nunca…

CLAIRE  –  Me  dá  o  guardanapo!  Me  dá  os  alfinetes  de  fralda!  Descasca  as  cebolas! Rala as cenouras! Lava os ladrilhos! Acabou-se. Está acabado. Ah! Ia me esquecendo… Fecha a torneira! Acabou. Eu disporei o mundo.

SOLANGE – Minha caçulinha!

CLAIRE – Tu me ajudarás.

SOLANGE – Tu não saberás os gestos necessários. As coisas são mais graves, Claire, mais simples.

CLAIRE – Nós lemos a história de Sóros Santa Cruz do Vale-Bendito, que envenenou vinte e sete árabes. Caminhava descalça. Os pés anquilosados. Foi erguida, transportada para o crime. Lemos a história da Princesa Albanarez, que provocou a morte do amante e do marido. Com o frasco destampado ela fez sobre o chávena um grande sinal da cruz. Parada diante dos cadáveres, viu somente a morte e muito longe a sua própria imagem fugidia, levada pelo vento. Ela fez todos os gestos do desespero terrestre. No livro da Marquesa  de  Veneza,  a  que  envenenou  os  filhos,  diz  que  ela  se  aproximou  do  leito sustentada sob os braços do fantasma do amante.

SOLANGE – Caçulinha, meu anjo!

CLAIRE – Eu serei sustentada pelo braço rijo do leiteiro, ele não recuará. Apoiarei na sua  nuca  a  minha  mão  esquerda.  Tu  me  ajudarás.  E  se  for  preciso  ir  mais  longe, Solange, se eu tiver de partir para as galés, tu me acompanharás, virás a bordo, Solange, nós  duas  juntas,  seremos  esse  casal  eterno,  do  criminoso  e  da  santa.  Seremos  salvas, Solange, eu te juro, salvas! (Cai sentada no leito de Madame)

SOLANGE – Calma. Eu te levo lá pra cima. Vais dormir.

CLAIRE – Me deixa. Escurece. Escurece um pouco, por favor.

SOLANGE  –  (Apaga  a  luz)  Descansa.  Descansa,  irmãzinha.  (Ajoelha-se,  descalça, Claire e beija-lhe os pés) Calma, meu bem. (Acaricia-a) Descansa os pés aí. Fecha os olhos.

CLAIRE – (Suspira) Estou com vergonha, Solange.

SOLANGE – (Com muita doçura) Não fales. Deixa que eu faço. Vou te ninar. Quando dormires te levo para mansarda e te deito na tua caminha. Dorme, eu fico aqui.

CLAIRE – Estou com vergonha, Solange.

SOLANGE – Pohhh! Deixa eu te contar um caso. CLAIRE – (Queixosamente) Solange? SOLANGE – Meu anjo?

CLAIRE – Solange, escuta.

SOLANGE – Dorme. (Longa pausa)

CLAIRE – Teu cabelo é bonito. Que cabelo bonito. O dela…

SOLANGE – Não fales mais dela.

CLAIRE – O dela é postiço. (Longa pausa) Lembras? Nós duas. Debaixo da árvore. Com os pés no sol? Solange?

SOLANGE – Dorme. Estou aqui, sou tua irmãzona. (Pausa) (Depois de um instante

Claire se levanta)

CLAIRE – Não! Não! Nada de fraqueza! Acende a luz! Acende! A hora é linda demais! (Solange  acende  a  luz)  De  pé!  Vamos  comer.  O  que  é  que  tem  na  cozinha?  Ahn?  É preciso comer pra ficar forte. Vem. Vais me aconselhar. O gardenal?

SOLANGE – É o gardenal.

CLAIRE  –  O  gardenal.  Não  faças  essa  cara.  É  preciso  ficar  alegre,  cantar.  Vamos cantar! Canta, como quando tu fores mendigar nas cortes e nas embaixadas. Temos de rir.  (As  duas  caem  na  gargalhada)  Senão  a  tragédia  vai  nos  fazer  voar  pela  janela. Fecha a janela. (Rindo Solange fecha a janela) O assassinato é uma coisa… Indizível. Vamos cantar. Vamos levá-la para um bosque e à luz do luar, no pinheiral, vamos picá- la  em  pedacinhos.  Cantaremos!  A  enterraremos  sob  as  flores  em  nosso  jardim,  que  à noite regaremos com um regadorzinho! (Toque de campainha na porta de entrada do apartamento).

SOLANGE  –  É  ela.  É  ela  que  voltou.  (Segura  a  irmã  pelos  pulsos)  Claire,  tu  tens certeza de agüentar a mão?

CLAIRE – Precisa quantos?

SOLANGE  –  Põe  dez.  No  chá  de  tília  dela.  Dez  comprimidos  de  gardenal.  Mas  não terás coragem.

CLAIRE – (Desprende-se, vai arrumar a cama. Solange a fita por um instante) O tubo está aqui comigo. Dez.

SOLANGE – (Muito rápido) Dez. Nove não bastam. Mais, ela vomita. E faz o chá bem forte. Tu entendeste?

CLAIRE – (Murmura) Sim.

SOLANGE  –  (Vai  sair,  mas  reconsidera.  Com  voz  natural)  Com  muito  açúcar.  (Sai pela esquerda: Claire continua a arrumar o quarto e sai pela direita: passa-se alguns segundos, ouve-se nos bastidores uma risada nervosa. Seguida por Solange, Madame, coberta de peles, entra rindo).

MADAME – Cada vez mais! Gladíolos horrorosos, de um rosa doentio e mimosa! Vai ver  que  essas  loucas  correm  ao  mercado  antes  do  amanhecer  para  comprar  as  flores mais barato. Tanta solicitude, minha cara Solange, com uma patroa indigna, tantas rosas para ela, enquanto o doutor é tratado como criminoso! Por que… Ouve, Solange, à tua irmã e  a ti, vou dar mais uma prova  de  confiança. Perdi  toda esperança. Desta vez  o doutor vai mesmo pra cadeia. (Solange tira-lhe o casaco de peles) Pra cadeia, Solange! Para a cadeia! E em circunstâncias infernais! O que é que me dizes! Aí tens tua patroa envolvida  na  mais  sórdida  das  questões,  a  mais  idiota!  O  doutor  estendido  sobre  um feixe de palha e vocês me aprontando nesta alcova florida!

SOLANGE  –  Madame  não  deve  perder  o  controle.  As  prisões  já  não  são  como  no campo da Bastilha…

MADAME  –  Já  sei  que  a  palha  úmida  dos  calabouços  não  existe  mais.  O  que  não impede minha imaginação de inventar para o doutor as piores torturas. As prisões estão repletas  de  facínoras  perigosos  e  ele,  que  é  a  delicadeza  em  pessoa,  terá  de  conviver com  eles!  Eu  morro  de  vergonha!  Enquanto  ele  tenta  compreender  qual  seria  o  seu crime, eu estou aqui, passeando em jardins, debaixo de caramanchões, com o desespero na alma. Estou arrasada.

SOLANGE – As mãos de Madame estão geladas.

MADAME – Estou arrasada. Cada vez que entrar em casa será com o coração batendo assim, com esta horrível violência e um belo dia caio morta sob as flores de vocês. Já que  é  o  meu  túmulo  que  estão  preparando,  já  que  desde  alguns  dias  vocês  vêm acumulando no meu quarto flores fúnebres. Senti muito frio, mas não terei o topete de me lastimar. A noite inteira me arrastei de corredor em corredor. Vi homens gelados, restos  de  mármore,  cabeças  de  cera,  mas  pude  avistar  o  doutor.  Ah! Muito  de  longe. Com a ponta dos dedos fiz-lhe um sinalzinho. Só. Me sentia culpada. E vi-o desaparecer entre dois guardas-civis.

SOLANGE – Guardas-civis? A senhora tem certeza? Deviam ser carcereiros.

MADAME  –  Sabes  coisas  que  eu  ignoro.  Carcereiros  ou  guardas-civis,  levaram  o doutor. Estive ainda agora com a mulher de um juiz. Claire!

SOLANGE – Está preparando o chá de tília de Madame.

MADAME – Então que se apresse! Desculpe, minha pobre Solange. Perdão. Tenho até vergonha de exigir o meu chá quando o doutor está lá, só, sem alimento, sem cigarros, sem nada. As pessoas em geral desconhecem o que é a prisão. Não tem imaginação. Eu tenho  demais.  Minha  sensibilidade  me  fez  sofrer.  Atrozmente.  Sorte  tem  vocês  duas, Claire e tu, que estão sozinhas no mundo. Sei lá de quantas desgraças estão vocês livres graças à humildade de sua condição!

SOLANGE – Eles logo vão ver que o doutor é inocente.

MADAME  –  E  é!  Mas  inocente  ou  culpado  eu  nunca  o  abandonarei.  Assim  é  que reconhecemos  nosso  amor  por  alguém:  o  doutor  não  é  culpado,  mas  se  fosse  eu  me tornaria sua cúmplice. Segui-lo-ia até a Guiana, até a Sibéria. Sei que ele vai se arranjar, mas   pelo   menos   está   história   imbecil   me   permite   tomar   consciência   da   minha dedicação; e este acontecimento, que devia nos separar, nos une cada vez mais. E chega quase a me tornar mais feliz. Com uma felicidade monstruosa! O doutor não é culpado, mas se o fosse, com que júbilo eu carregaria sua cruz! De etapa em etapa, de prisão em prisão, até o degredo eu o acompanharia. A pé, se, for preciso. Até o degredo, Solange, até o degredo! Quero fumar um cigarro!

SOLANGE – Eles não deixavam. Nem as mulheres dos bandidos, nem as irmãs, nem as mães podem sequer acompanhá-los.

MADAME – Bandido! Que linguagem, minha filha! E que ciência! Um condenado já não é um bandido. Depois eu romperia as barreiras. E, Solange, eu empregaria todas as audácias, todos os ardis.

SOLANGE – Madame é corajosa.

MADAME  –  Ainda  não  me  conhece.  Até  agora  tu  e  tua  irmã  têm  visto  uma  mulher cercada  de  cuidados  e  ternura,  preocupada  com  os  seus  chás  e  suas  rendas,  mas  há muito tempo deixei minhas manias. Sou forte. E pronta para luta. Além disso, o doutor não está ameaçado de ir à forca. Mas é bom que eu me eleve até mesmo a esse nível. Preciso dessa exaltação para pensar mais rápido. E dessa rapidez para olhar melhor. E talvez consiga, assim, adivinhar que infernal polícia é essa que, em minha própria casa dispõe de espiões misteriosos.

SOLANGE – Não deve perder a cabeça. Já vi casos mais graves serem absolvidos. No tribunal de Aix-en-Provence…

MADAME – Casos mais graves? E o que é que sabes do seu caso?

SOLANGE – Eu? Nada. É pelo que Madame disse. Suponho que só pode ser um caso sem perigo…

MADAME – Estás gaguejando. E o que é que tu sabes de absolvições? Freqüentas os tribunais? Tu?

SOLANGE – Leio as reportagens. Eu estava falando de um homem que tinha cometido uma coisa pior. Quer dizer…

MADAME  –  O  caso  do  doutor  não  tem  comparação.  Foi  acusado  de  furtos  idiotas. Estás satisfeita? De furtos! Idiotas! Idiotas como essas cartas de denúncia que o fizeram prender.

SOLANGE – Madame devia repousar.

MADAME – Não estou cansada. Chega de me tratar como uma impotente. A partir de hoje não sou mais a patroa que lhes permitia aconselhar e distrair minha preguiça. Não é a mim que devem lastimar. Seus gemidos me seriam intoleráveis. A bondade de vocês me  irrita.  Me  esmaga.  Me  asfixia.  Essa  solicitude  que  depois  de  tantos  anos  não conseguiu tornar-se verdadeiramente afetuosa. E essas flores aí, festejando justamente o oposto de uma boda. Só lhes faltavam acender a lareira para me aquecer. Há por acaso uma lareira na cela em que ele está?

SOLANGE  –  A  lareira  não  está  acesa,  Madame.  E  se  Madame  sugere  que  fomos indiscretas…

MADAME – Mas não estou sugerindo nada disso.

SOLANGE – Madame quer ver as contas de hoje?

MADAME – Francamente! Que inconsciência! Achas que tenho cabeça para lidar com algarismos?  Mas  afinal  de  contas,  Solange,  será  que  me  despreza  ao  ponto  de  me recusares a menor delicadeza?  Falar de  algarismos, cadernos de armazém, receitas de copa  e  cozinha,  quando  quero  ficar  só,  em  paz  com  a  minha  tristeza?  Por  que  não convoca logo todos os fornecedores?

SOLANGE – Nós compreendemos a tristeza de Madame.

MADAME – Não quero forrar de preto o apartamento, mas afinal…

SOLANGE – (Arrumando a capa de peles) O forro rasgou. Levo amanhã ao peleteiro para consertar.

MADAME – Como quiseres, se bem que não valha a pena. Agora abandono as toaletes. Aliás, sou uma mulher velha. Não é verdade Solange, que estou velha?

SOLANGE – Olha as idéias negras outra vez…

MADAME – São idéias de luto, não te espantes. Como poderia pensar nas minhas peles e  toaletes  com  o  doutor  na  prisão.  Se  vocês  acharem  que  o  apartamento  ficou  triste demais.

SOLANGE – Oh! Madame…

MADAME  –  Reconheço  que  vocês  não  têm  a  menor  obrigação  de  compartilhar  meu infortúnio.

SOLANGE  –  Nunca  abandonaremos  Madame.  Depois  de  tudo  que  Madame  fez  por nós.

MADAME – Eu sei, Solange. Vocês têm sido muito infelizes?

SOLANGE – Oh!

MADAME – São um pouco minhas filhas. Com vocês a vida ficará menos triste para mim. Iremos para o interior. Terão as flores do jardim. Mas vocês duas não gostam de brincar. São moças e não riem nunca. Na roça ficarão à vontade. Pretendo mimar vocês. E  depois  deixo  para  as  duas,  todos  os  bens  que  possuo.  Aliás,  do  que  é  que  ainda precisam?  Só com os meus vestidos usados já podiam se exibir como princesas. E os meus  vestidos…  (Vai  ao  guarda  roupa  e  olha  seus  vestidos)  Para  quem  serviriam? Renuncio a vida elegante. (Entra Claire, trazendo o chá de tília).

CLAIRE – O chá está pronto.

MADAME – Adeus, bailes, noitadas, teatro!… Vocês é que herdarão tudo.

CLAIRE – (Seca) Conserve suas toaletes, Madame.

MADAME – (Com um sobressalto) Como?

CLAIRE – (Calma) Devia até encomendar outras, mais lindas.

MADAME – Eu, nos modistas? Como? Acabo de explicar à tua irmã: doutor está preso. Sei que vou precisar de um “pretinho” para as minhas visitas ao parlatório. Mas daí a…

CLAIRE – Madame ficará elegantíssima. Sua própria tristeza dará novos pretextos.

MADAME – Ahn? Vai ver que tens razão. Continuarei a me vestir para o doutor. Mas então, será que tenho de inventar o luto do exílio do doutor? Há de ser mais suntuoso que  o  da  morte.  Farei  toaletes  novas  mais  lindas.  E  vocês  me  ajudarão,  usando  as velhas. Dando-as a vocês, eu talvez atraia clemência para o doutor. Nunca se sabe.

CLAIRE – Mas, Madame…

SOLANGE – O chá pronto, Madame.

MADAME – Põe aí. Daqui a pouco eu tomo. Terão os meus vestidos. Dou tudo para vocês.

CLAIRE – Nós nunca poderemos substituir Madame. Se Madame soubesse das nossas preocupações quando arranjamos as suas toaletes! O armário de Madame, para nós, é como a capela da Virgem-Santa. Quando o abrimos…

SOLANGE – (Seca) O chá vai esfriar.

CLAIRE – Escancaremos as duas portas nos nossos dias de festa. Mal podemos olhar para os vestidos, não temos o direito. O armário de Madame é sagrado. É sua grande rouparia!

SOLANGE – Você está falando demais, cansando Madame…

MADAME   –   Acabou-se.   (Acaricia   o   vestido   de   veludo   vermelho)   Meu   lindo

“fascinação”,  o  mais  bonito.  Pobre  lindeza.  Foi  Lanvin  que  desenhou  para  mim.

Especialmente. Tomem. Eu lhes dou. Te dou de presente, Claire! (Dá o vestido a Claire e procura no armário).

CLAIRE – Oh! Madame deu mesmo? De verdade?

MADAME – (Sorrindo suavemente) Mas claro. Se estou te dizendo.

SOLANGE  –  Madame  é  bondosa  demais.  (A  Claire)  Pode  agradecer  a  Madame.  Há tanto tempo você o admirava.

CLAIRE – Nunca terei coragem de vesti-lo. Ele é tão lindo!

MADAME  –  Podes  reformar.  Só  na  cauda  há  veludo  bastante  para  fazer  as  mangas. Ficará bem quente. Conheço vocês, precisam de tecidos fortes. E tu, Solange, o que é que  eu  poderia  te  dar?  Darei…  Olha  aqui,  minhas  raposas.  (Pega-as  e  as  coloca  na poltrona do centro).

CLAIRE – Oh! O mantô do desfile!

MADAME – Que desfile?

SOLANGE – Claire quer dizer que Madame somente o usava nas grandes ocasiões.

MADAME  –  Absolutamente.  Enfim,  vocês  têm  sorte  de  ganhar  vestidos.  Eu,  se  os quiser,  tenho  de  comprar.  Mas  encomendarei  outros  mais  ricos,  para  dar  maior magnificência ao luto pelo doutor.

CLAIRE – Madame é linda!

MADAME  –  Não,  não.  Não  me  engrandeçam.  É  tão  agradável  semear  felicidade  ao redor da gente. Quando eu só penso em fazer o bem! Quem pode ter a maldade de me castigar?  E castigar por quê?  Eu me julgava tão ao abrigo da vida, tão protegida pela dedicação de vocês. Tão protegida pelo doutor. E toda essa coalizão de amizades não pode erguer uma barricada capaz de interceptar o desespero. Estou desesperada! Cartas! Cartas que só eu, unicamente conheço. Solange?

SOLANGE – (Saudando a irmã) Sim, Madame.

MADAME  –  (Aparecendo)  Como?  Oh,  fazes  mesuras  a  Claire?  Pensei  que  tinham mesmo propensão para brincar.

CLAIRE – O chá, Madame.

MADAME – Solange, eu te chamei para perguntar… Ora essa, quem mexeu outra vez na  chave  da  escrivaninha?…  Para  perguntar  o  que  é  que  tu  achas.  Quem  poderia  ter mandado essas cartas? Não tens a menor idéia! Naturalmente vocês duas estão como eu. Abismadas  como  eu.  Mas  isto  se  esclarecerá,  minhas  meninas.  O  doutor  saberá deslindar  o  mistério.  Quero  que  analisem  a  caligrafia  e  descubram  quem  é  que  pode maquinar uma trama de tal ordem. O telefone… Quem desligou o telefone? E por quê? Tocaram para cá? (Pausa)

CLAIRE – Foi eu? Foi quando o doutor…

MADAME – Doutor? Que doutor? (Claire está muda) Fale!

SOLANGE – Quando o doutor telefonou.

MADAME – Que estás dizendo? Da prisão? O doutor telefonou da prisão?

CLAIRE – Queríamos fazer uma surpresa a Madame. SOLANGE – O doutor está em liberdade provisória. CLAIRE – Espera Madame no “Bilboquê”. SOLANGE – Oh! Se Madame soubesse!

CLAIRE – Madame nunca nos perdoará.

MADAME – (Levantando-se) E vocês não diziam nada! Um carro. Solange, depressa, um carro. Mas anda. Corre, ora essa! (Empurra Solange para fora do quarto) Minhas peles!  Mas,  mais  depressa!  Vocês  são  loucas  ou  sou  eu  que  estou  ficando.  (Veste  o mantô de peles – à Claire) Quando ele chamou?

CLAIRE – (Com voz branda) Cinco minutos antes de Madame chegar.

MADAME – Mas deviam me dizer. E este chá que está frio. Não poderei nunca esperar por Solange. Oh! O que foi que ele disse?

CLAIRE – O que eu disse agora. Estava muito calmo.

MADAME – Ah! Sempre o mesmo. A sentença de morte o deixaria impassível. É um temperamento. E depois?

CLAIRE – Nada. Disse que o juiz o punha em liberdade.

MADAME  –  Como  se  pode  sair  do  Palácio  da  Justiça  à  meia-noite?  Os  juízes trabalham assim tão tarde?

CLAIRE – Às vezes até muito mais tarde.

MADAME – Muito mais tarde? Como é que tu sabes?

CLAIRE – Estou ao par. Leio “Detetive”.

MADAME – (Assombrada) Ah! É mesmo? Ora vejam, que engraçado. É mesmo uma moça esquisita, Claire. (Olha o relógio pulseira) Ela podia se apressar. (Longa pausa) Não te esqueças de mandar coser o forro do meu mantô.

CLAIRE – Levarei amanhã ao peleteiro. (Longa pausa)

MADAME – E as contas? As contas de hoje. Tenho tempo. Quero vê-las.

CLAIRE – Solange é que cuida disso.

MADAME  –  É  verdade.  Além  disso,  estou  com  a  cabeça  oca,  amanhã  eu  confiro. (Olhando Claire) Chega aqui um pouquinho! Vem! Mas… Tu estás de rouge! (Rindo) Mas Claire, tu te…

CLAIRE – (Muito contra-feita) Madame…

MADAME  –  Ah!  Não  mintas!  Aliás,  tens  toda  razão.  Vive,  minha  filha,  vive.  É  em homenagem a quem? Confessa.

CLAIRE – Pus um pouco de pó.

MADAME – Isso não é pó de arroz. É rouge, é “Cinza de Rosas”, um rouge velho que não uso mais. Tens toda razão. Ainda estás moça, embeleza-te, minha filha. Arranja-te. (Põe-lhe  uma  flor  no  cabelo.  Consulta  o  relógio-pulseira)  Que  será  que  ela  está fazendo? É meia-noite e ainda não voltou!

CLAIRE – Os táxis são difíceis. Deve ter ido procurar no estacionamento.

MADAME  –  Achas?  Eu  não  tenho  noção  de  tempo.  A  felicidade  me  enlouquece.  O

doutor, telefonando que está livre e uma hora destas!

CLAIRE – Madame devia sentar-se. Vou aquecer o chá. (Vai sair).

MADAME – Não, não. Não estou com sede. Esta noite é champagne que vamos beber. Hoje não voltamos.

CLAIRE – Mas com toda certeza um pouco de chá… MADAME – (Rindo) Já estou mais do que excitada. CLAIRE – Justamente.

MADAME – E nada de ficarem a nossa espera, tu e Solange. Vão já já para cama. (De repente vê o despertador) Mas… Esse despertador? Que está fazendo aí? De onde vem?

CLAIRE – (Muito embaraçada) O despertador? É o despertador da cozinha.

MADAME – Isso? Eu nunca vi.

CLAIRE – (Pega o despertador) Estava na prateleira. Sempre esteve.

MADAME  –  (Sorridente)  Verdade  que  a  cozinha,  para  mim,  é  território  um  pouco estranho. Vocês, lá  estão em casa.  É o domínio. São soberanas. Eu me  pergunto: por que o trouxeram para cá?

CLAIRE – É Solange para a arrumação. Não confia no relógio.

MADAME – (Sorridente) É a exatidão em pessoa. Sou servida pelas mais fiéis de todas as criadas.

CLAIRE – Adoramos Madame.

MADAME – E têm toda razão. O que é que eu não tenho feito por vocês? (Sai)

CLAIRE  –  (Sozinha,  com  amargura)  Madame  nos  vestiu  como  princesas.  Madame tratou das doenças de Claire ou Solange, pois Madame sempre nos confundia uma com a  outra.  Madame  nos  envolvia  na  bondade  dela:  graças  a  Madame,  eu  e  minha  irmã podíamos  morar  juntas.  Ela  nos  dava  pequenos  objetos  que  não  serviam  mais.  No domingo tolerava que a gente fosse a missa e sentasse perto do seu banco.

MADAME – Ouça! Ouça!

CLAIRE – Ela aceita a água que nós lhe oferecemos e, às vezes, na ponta da luva, nos oferece também.

MADAME – O táxi! Ela está chegando! Ahn! Que estás dizendo?

CLAIRE – (Muito forte) Estou recapitulando as bondades de Madame.

MADAME – (Entra no quarto, sorridente) Quantas honras! Quantas honras… E quanto desmazelo.  (Passa  a  mão  sobre  o  móvel)  Vocês  cobrem  os  móveis  de  rosas,  mas  se esquecem de limpá-los.

CLAIRE – Madame não está satisfeita com o serviço?

MADAME – Mas felicíssima, Claire. E de saída!

CLAIRE – Mesmo frio, Madame vai tomar um pouquinho de chá.

MADAME – (Rindo, inclina-se sobre ela) Queres me matar com teu chá, tuas flores, tuas recomendações. Esta noite…

CLAIRE – (Implorando) Ao menos um pouco…

MADAME  –  Esta  noite  tomo  champagne.  (Vai  a  bandeja  de  chá,  Claire  se  dirige lentamente até onde está o chá) Chá de tília! No serviço de luxo! E para que solenidade!

CLAIRE – Madame…

MADAME   –   Levem   daqui   essas   flores.   Carreguem-nas   para   vocês.   Descansem. (Tendo-se voltado para sair) O doutor está livre Claire! O doutor está livre e eu vou me encontrar com ele.

CLAIRE – Madame…

MADAME – Madame escapole! Tirem daqui essas flores! (A porta bate atrás dela).

CLAIRE – (Que ficou só) Pois Madame é boa! Madame é linda! Madame é meiga! Mas nós  não  somos  ingratos  e  todas  as  noites,  na  mansarda,  como  Madame  mandou, rezamos  por  ela.  Nunca  falamos  mais  alto  e  diante  dela  nem  temos  a  ousadia  de  nos tratarmos por tu. E assim Madame nos mata com a meiguice dela. Com a sua bondade, Madame nos envenena. Porque Madame é boa. Madame é linda! Madame é meiga! Nos deixa  tomar  um  banho  todos  os  domingos  na  banheira  dela.  De  vez  em  quando  nos oferece  uma  balinha.  Ela  nos  cobre  de  flores  murchas.  Madame  prepara  nossos  chás. Madame nos fala do doutor até nos deixar com ciúmes. Porque Madame é boa! Madame é linda! Madame é meiga!

SOLANGE – Ela não bebeu? Claro que não. Era de esperar. Bonito trabalho.

CLAIRE – Só queria te ver no meu lugar.

SOLANGE  –  Bem  podias  zombar  de  mim.  Madame  escapa.  Madame  nos  escapa. Claire! Como a deixaste fugir? Vai se encontrar com o doutor e entender tudo. Estamos perdidas.

CLAIRE  –  Não  me  arrazes.  Pus  o  gardenal  no  chá,  ela  não  quis  beber.  Será  minha culpa…

SOLANGE – Como sempre!

CLAIRE – … Pois tua garganta estava ardendo para anunciar a liberdade do doutor.

SOLANGE – A frase começou na tua boca…

CLAIRE – … E acabou na tua.

SOLANGE – Fiz o máximo possível. Queria conter as palavras. Ah! Mas não vás agora inventar  acusações.  Eu  trabalhei  para  que  tudo  desse  certo.  Para  te  dar  tempo  de preparar   tudo,   desci   a   escada   o   mais   devagar   possível,   fui   pelas   ruas   menos movimentadas,  havia  táxis  aos  montes.  Eu  já  não  podia  evitá-los.  Acho  que  acabei chamando  um  deles  sem  nem  sequer  perceber.  E  enquanto  eu  espichava  o  tempo,  tu, aqui, deixavas tudo a perder. Soltavas Madame. Só nos resta fugir. Vamos pegar nossas coisas… Vamos dar o fora…

CLAIRE – Todos os ardis eram inúteis. Somos malditas.

SOLANGE – Maldita! Vais começar tuas besteiras!

CLAIRE  –  Sabes  o  que  quero  dizer.  Sabes  muito  bem  que  os  objetos  estão  nos abandonando.

SOLANGE – E achas que os objetos se preocupam conosco?

CLAIRE – Eles não fazem outra coisa. Nos atraiçoam. E devemos ser muito culpadas mesmo, para que nos acusem com tanta tenacidade. Já os vi a ponto de revelarem tudo a Madame. Depois do telefone, nossos lábios é que nos traíram. Tu não viste como eu vi, todas as descobertas de Madame. Porque eu vi caminhar, passo firme, rumo a revelação. Não adivinhou nada, mas está queimado.

SOLANGE – E a deixaste ir!

CLAIRE – Eu vi Madame, Solange, eu vi Madame descobrir o despertador da cozinha que esquecemos de levar de volta, vi descobrir o pé na madrugadara, descobrir o rouge mal tirado no meu rosto, descobrir que a gente lê “Detetive”, nos descobrir sem parar e eu estava sozinha, suportando todos esses choques, sozinha nos vendo cair!

SOLANGE – Temos de partir. Vamos levar nossas coisas. Depressa, depressa, Claire, vamos tomar o trem… O navio…

CLAIRE  –  Partir  para  onde?  Ao  encontro  de  quem?  Eu  não  teria  força  nem  para carregar uma valise.

SOLANGE – Vamos. Pra onde quer que seja. Com o que quer que seja. CLAIRE – Pra onde podemos ir? Como é que vamos viver? Nós somos pobres. SOLANGE – (Olhando em volta) Claire, a gente leva… Leva…

CLAIRE   –   O   dinheiro?   Não   consinto.   Não   somos   ladras.   A   polícia   logo   nos descobriria.  E  o  próprio  dinheiro  nos  denunciaria.  Depois  que  vi  os  objetos  nos revelando,  um  depois  do  outro,  fiquei  com  medo  deles,  Solange.  O  menor  dos  erros pode nos entregar.

SOLANGE – Ao diabo! Que tudo vá pro diabo! Temos de encontrar um meio de fugir.

CLAIRE – Nós perdemos… Agora é tarde.

SOLANGE – Não penses que vamos ficar assim, nessa angústia. Amanhã eles voltam, os dois. Vão saber de onde é que vinham as cartas. Vão saber de tudo! Tudo! Então não viste  como  ela  cintilava?  Seu  andar  na  escada!  Seu  andar  vitorioso!  Sua  felicidade atroz? Toda alegria dela será feita com a nossa vergonha. Seu triunfo é o vermelho da nossa  vergonha!  Seu  vestido  é  o  vermelho  da  nossa  vergonha!  Suas  peles!  Ah!  Ela pegou as peles outra vez!

CLAIRE – Estou tão cansada!

SOLANGE – Bonita hora pra se queixar. Sua delicadeza surge bem na hora exata.

CLAIRE – Cansada demais!

SOLANGE – É evidente que as criadas são culpadas quando Madame é inocente. É tão simples  ser  inocente,  Madame!  Mas  eu,  se  me  tivesse  encarregado  de  executar  a senhora, eu juro que chegava até o fim!

CLAIRE – Mas, Solange…

SOLANGE – Até o fim! Com esse chá envenenado, esse chá que a senhora se atrevia a rejeitar, eu abria com as mãos a sua queixada para a forçar a tragá-la! Mas recusar-se a

morrer, a senhora! Quando eu estava pronta a lhe pedir de joelhos que morresse de mãos postas e beijando seu vestido!

CLAIRE – Não era assim tão fácil de conseguir!

SOLANGE  –  A  senhora  acha?  Eu  dava  um  jeito  de  tornar  sua  vida  impossível.  De forçá-la a vir me implorar para lhe oferecer esse  veneno, que talvez  eu lhe recusa-se. Seja como for, a vida lhe seria insuportável.

CLAIRE – Claire e Solange, vocês me irritam, pois eu confundo vocês duas, Claire ou Solange, vocês me irritam e provocam minha cólera. Pois é você que eu acuso de todos os males.

SOLANGE – Repita se tem coragem. (Ela põe seu vestido branco, diante do espelho, por cima do seu vestido preto).

CLAIRE – Eu as acuso de serem culpadas do mais terrível dos crimes.

SOLANGE  –  Ficou  louca!  Ou  embriagada!  Pois  não  há  nenhum  crime,  Claire,  te desafio a nos acusar de um crime definido.

CLAIRE  –  Então  o  inventaremos,  porque  …  você  queria  me  insultar.  Não  faça cerimônia! Cuspa-me na cara! Cubra-me de lama e de imundices!

SOLANGE – A senhora está linda!

CLAIRE – Salte as formalidades de começo. Já faz muito tempo que vocês tornaram inúteis as mentiras, as hesitações que levam a metamorfose! Corre! Corre! Já não posso mais com as vergonhas e as humilhações. O mundo pode nos ouvir, sorrir, sacudir os ombros, nos tratar de loucas ou invejosas, eu estremeço, me arrepio de prazer, Claire eu vou relinchar de alegria!

SOLANGE – A senhora está linda! CLAIRE – Começa os insultos! SOLANGE – A senhora está linda!

CLAIRE – Dispensa o prelúdio. Os insultos!

SOLANGE – A senhora me deslumbra. Eu jamais poderia.

CLAIRE – Os insultos, já disse. Não pensa que me fez enfiar este vestido só para ouvir hinos a minha formosura. Cubra-se de ódio! De insultos! De escarros!

SOLANGE – Me ajude.

CLAIRE  –  Detesto  os  criados.  Detesto-  lhes  a  espécie  odiosa  e  vil.  Os  criados  não pertencem  à  humanidade.  Eles  escorrem.  São  um  miasma  se  arrastando  por  nossos quartos,  por  nossos  corredores,  penetrando  em  nós,  se  enfiando  por  nossa  boca,  nos

corrompendo. Eu, por mim vomito vocês. (Movimento de Solange para ir à janela) Fica aqui.

SOLANGE – Estou subindo, estou subindo…

CLAIRE  –  Sei  que  são  necessários,  como  os  coveiros,  os  limpadores  de  latrina,  os policiais. O que não impede toda essa bela gentalha de feder.

SOLANGE – Continue, continue.

CLAIRE – Com as suas caras de pavor e de remorso, com os seus cotovelos enrugados, seus corpetes demodé, seus corpos feitos para vestir nossos retôlhos. Vocês são nossos espelhos, de deformação, nossa válvula de escape, nossa vergonha, nossa bêrra. SOLANGE – Continue, continue.

CLAIRE  –  Eu  já  estou  beirando,  anda  depressa,  por  favor.  Vocês  são…  Vocês  são… Meu  Deus,  estou  vazia,  não  encontro  mais.  Esgotei  meus  insultos.  Claire,  você  me externa!

SOLANGE – Deixa eu sair. Nós vamos falar ao mundo. Que ele chegue à janela para nos enxergar, é preciso que ele nos ouça. (Abre a janela, mas Claire a puxa para dentro do quarto)

CLAIRE – O pessoal daí defronte vai nos ver.

SOLANGE – (Já na sacada) É o que espero. O tempo está bem. O vento me exalta.

CLAIRE – Solange! Solange! Fica comigo. Entra!

SOLANGE  –  Cheguei  ao  nível.  Madame  contava  com  seu  arrulho  de  rola,  seus amantes, seu leiteiro.

CLAIRE – Solange…

SOLANGE  –  Silêncio!  Seu  leiteiro  matinal,  seu  mensageiro  da  aurora,  seu  sino delicioso, seu senhor insinuante e pálido acabou-se. A postos para o baile.

CLAIRE – Que estás fazendo?

SOLANGE – (Solene) Interrompo-lhe o curso. De joelhos!

CLAIRE – Solange… SOLANGE – De joelhos! CLAIRE – Estás te excedendo!

SOLANGE – De joelhos! Pois já sei qual é finalmente o meu destino.

CLAIRE – Me matar!

SOLANGE – (Indo sobre ela) É o que espero. Meu desespero me faz indomável. Sou capaz de tudo. Ah! Nós éramos malditas!

CLAIRE – Cale a boca.

SOLANGE – Não lhe será preciso ir até o crime.

CLAIRE – Solange!

SOLANGE – Não se mova! Madame vai me ouvir. Você lhe consentiu que escapasse. Você! Ah! Que pena que não posso dizer a ela toda a minha ira! Contar a ela todas as nossas caretas. Mas tu, tão covarde, tão tola, a deixaste fugir! Neste instante ela engole champagne! Não se mova! Não se mova! A morte está presente e nos espreita!

CLAIRE – Deixa eu sair.

SOLANGE – Não se mova. Com seu auxílio vou talvez descobrir o meio mais simples e a coragem, Madame, de libertar minha irmã e ao mesmo tempo me levar à morte.

CLAIRE – Que vais fazer? Tudo isso, aonde nos leva?

SOLANGE – Por favor, Claire, me responda.

CLAIRE – Solange, vamos parar. Não agüento mais. Me deixa.

SOLANGE  –  Pois  vou  continuar  sozinha,  minha  cara.  Não  se  mova.  Quando  você dispunha   de   meios   tão   maravilhosos   era   impossível   que   Madame   escapulisse. (Avançando sobre Claire) E desta vez quero liquidar com uma tipa tão covarde.

CLAIRE – Solange! Solange! Solange!

SOLANGE – Berre à vontade! Pode até lançar seu grito derradeiro, Madame! (Empurra Claire,  que  fica  agachada  num  canto)  Enfim!  Madame  está  morta!  Estendida  no linóleo… Estrangulada pelas luvas de lavar panelas. Madame pode permanecer sentada! Madame pode me chamar de senhorita Solange. Justamente. É por causa do que eu fiz. Madame, o doutor me chamará Senhorita Solange Lemercier… Madame devia ter tirado esse vestido preto, é grotesco. (Imita a voz de Madame) Eis-me aqui reduzida, por luto a minha criada. A saída do cemitério, todos os empregados do bairro desfilavam diante de mim como se eu fosse alguém da família. Tantas vezes fiz de conta que ela pertencia à família.  Vai  ver  que  a  morte  levou  esse  gracejo  até  as  últimas  conseqüências.  Oh! Madame, sou sua igual Madame, e ando de cabeça erguida… (Ri) Não, senhor inspetor, não… O senhor não saberá nada sobre o meu trabalho. Nada sobre o nosso trabalho em comum.  Nada  sobre  a  nossa  colaboração  para  esse  assassinato…  Os  vestidos?  Oh! Madame pode guardá-los. Minha irmã e eu tínhamos os nossos. Aqueles que vestíamos a  noite,  escondida.  Agora  tenho  meu  vestido  e  sou  sua  igual.  Estou  com  a  toalete vermelha  das  criminosas.  Faço  rir  o  doutor?  Faço  o  doutor  sorrir?  Ele  pensa  que  as criadas devem ter bom gosto de não fazerem  gestos que estão reservados à Madame! Verdade que me perdoa? É a bondade em pessoa. Quer competir comigo em grandeza. Mas  a  que  eu  conquistar  é  a  mais  selvagem…  Madame  começa  a  perceber  minha solidão!  Finalmente!  Agora  estou  sozinha,  medonha.  Podia  lhe  falar  com  crueldade,

mas posso ser boa. Seu medo vai passar, Madame. Vai passar completamente. No meio das  suas  flores,  seus  perfumes,  seus  vestidos.  Aquele  vestido  branco  que  a  senhora usava à noite no baile da ópera, aquele vestido branco que eu não deixo ela vestir nunca. E no meio das suas jóias, dos seus  amantes. Quanto a mim, tenho,  minha irmã. Sim, ouso  falar  nela.  Ouso,  Madame.  Posso  ousar  tudo.  E  quem  poderia  me  fazer  falar? Quem  teria  a  coragem  de  me  dizer:  “minha  filha”?  Eu  servi.  Fiz  os  gestos  que  são necessários  para  servir.  Sorri  para  Madame.  Me  abaixei  para  lavar  os  ladrilhos,  me abaixei  para  fazer  a  cama,  me  abaixei  para  descascar  legumes,  para  escutar  atrás  das portas,  colar  meu  olho  nas  fechaduras.  Mas  agora  estou  de  pé.  E  firme.  Sou  a estranguladora. A senhorita Solange, aquela que estrangulou a irmã! Me calar! Madame é mesmo delicada. Mas tenho pena da brancura da Madame, da sua pele acetinada, das suas orelhinhas, dos seus pulsinhos… Eu sou a galinha preta, tenho os meus juízes. Sou da  polícia…  Claire?  Ela  gostava  muito,  muito  mesmo  da  Madame!…  Não  senhor inspetor,  diante  deles  não  explico  nada.  Essas  coisas  só  interessam  a  nós…  Aquilo, minha  filha,  a  nossa  noite,  nossa!  (Acende  um  cigarro  e  fuma  desajeitadamente.  A fumaça  a  faz  tossir)  Nem  vocês  nem  ninguém  vai  saber  nada,  senão  que  desta  vez Solange foi até o fim. Vocês a estão vendo vestida de vermelho. Ela vai sair. (Solange se dirige para a janela, abre-a e sobe a sacada, de costas para o público, encarando a noite. Dirá a retirada seguinte. Um vento leve faz ondular as cortinas) Sair. Descer a grande  escadaria!  A  polícia  a  acompanha.  Saiam  à  sacada  para  vê-la  seguir  entre  os negros penitentes. É meio-dia. E, assim, leva na mão uma tocha de nove libras. Logo atrás, o  carrasco segreda-lhe ao  ouvido palavras  de amor.  O carrasco me  acompanha, Claire! (Ri) Ela será conduzida em cortejo por todas as criadas do bairro, por todos os domésticos  que  acompanharam  Claire  à  sua  última  morada.  (Olha  para  fora)  Levam coroas, flores, bandeirolas, tocam o dobre de finados. O enterro desdobra sua pompa. Lindo,  não.  Vêm  primeiro  os  mordomos,  de  fraque,  sem  forro  de  seda.  Trazem  suas coroas. Depois os criados de libré, os lacaios de culote curto e meias brancas. Trazem suas  coroas.  Vêm  depois  os  camareiros  e  depois  as  arrumadeiras,  trazendo  as  nossas cores. Vêm os porteiros e vêm ainda, as delegações do céu. E eu as conduzo. O carrasco me embala. Todos clamam. Estou pálida e vou morrer! (Entra) Quantas flores! Deram- lhe um lindo enterro, não. Oh! Claire, minha pobrezinha Claire! (Rompe em soluços e se afunda numa poltrona. Levanta-se de novo) Não adianta, Madame, obedeço à polícia. Só ela me compreende. Ela também é do mundo dos réprobos. (Debruçada na ombreira da porta da cozinha, Claire visível só para o público, desde há instantes ouve sua irmã) Agora  somos  a  senhorita  Solange  Lemercier.  A  mulher  Lemercier.  A  Lemercier.  A célebre criminosa. (Cansada) Claire, nós estamos perdidas.

CLAIRE – (Dolente, com a voz da Madame) Fecha a janela e corra a cortina.

SOLANGE – Já é tarde. Todo mundo foi dormir. Não vamos continuar.

CLAIRE – (Faz com a mão um gesto de silêncio) Claire, você vai me servir um chá.

SOLANGE – Mas…

CLAIRE – Eu estou dizendo, meu chá.

SOLANGE – Estamos mortas de cansaço. Temos de parar. (Senta-se na poltrona)

CLAIRE – Ah! Absolutamente! Não! Então pensa, criadinha, que se safa assim à toa? Seria fácil demais conspirar com o vento, ser cúmplice da noite.

SOLANGE – Mas…

CLAIRE – Não discuta. É a mim que compete dispor destes minutos finais. Solange, tu me guardarás em ti.

SOLANGE  –  Mas,  não!  Não!  Estás  louca,  nós  vamos  embora.  Depressa  Claire.  Não vamos ficar. O apartamento está condenado.

CLAIRE – Fica.

SOLANGE – Então não estás vendo, Claire, como eu estou fraca? Como estou pálida?

CLAIRE – Tu és covarde. Obedece. Estamos bem na beira, Solange. Iremos até o fim. Ficarás sozinha para assumir as nossas duas existências. Precisarás de ter muita força. No  presídio  ninguém  saberá  que  eu  te  acompanho,  escondida.  E,  principalmente, quando fores condenada, não te esqueças que me trazes em ti. Precisamente. Seremos lindas,  livres  e  alegres.  Solange,  não  temos  mais  nenhum  minuto  a  perder.  Repete comigo…

SOLANGE – Fala, mas baixinho.

CLAIRE – (Mecânica) Madame deve tomar seu chá.

SOLANGE – (Dura) Não, eu não quero.

CLAIRE – (Segurando pelos pulsos) Descarada! Repete. Madame vai tomar seu chá.

SOLANGE – Madame vai tomar seu chá… CLAIRE – Porque é preciso que ela durma… SOLANGE – Porque é preciso que ela durma… CLAIRE – E que eu vele.

SOLANGE – E que eu vele.

CLAIRE – (Deita-se no leito de Madame) Vou repetir. Não me interrompas mais. Estás me ouvindo? Me obedeces? (Solange faz que sim com a cabeça) Repito! Meu chá!

SOLANGE – (Hesitante) Mas…

CLAIRE – Estou dizendo! Meu chá!

SOLANGE – Mas Madame…

CLAIRE – Bem, continua.

SOLANGE – Mas Madame, ele está frio.

CLAIRE – Tomarei assim mesmo. Traz. (Solange traz-lhe a bandeja) E o serviste no aparelho mais rico, mais precioso… (Pega a xícara e bebe. Enquanto isso Solange de face  para  o  público,  permanece  imóvel,  com  as  mãos  cruzadas,  como  se  tivessem algemadas).

FIM

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