benedito LEITE

(texto escrito ao ‘deum laetitiae’, ao ‘deus da alegria’, uma oração de amor e amizade)

ad deum laetitiae

ad deum que laetitificat juventutem meum!

firmemente creio no sol. credo in unum!

nem dera impulso à entonação da antífona, reservada pelo orbo ao meu breviário ferial e tampouco ao introibo ad altare dei, como se me exige o múnus, já punha-se diante de mim o algaravio, as vozes em revoada, através os rumores advindos dos pétreos muros.  os nativos de ângelus, como é sabido, ainda que silentes, seu som ressoa e faz-se ouvir nos grãos confins… também eu os ouvi chegar em carrossel de embaixadores. todos desejando ardentemente dar-me a boa nova…   a carta, o broquel. uma como que láurea…   ademais eu percorri e combati o bom combate.

uma corte, uma hoste, legiões d’almas lavadas no mar de olhos de deus.alegria. a policromia das balaustradas das estalas rivalizavam quanto à luz contida em seus âmagos absidais.

em companhia dessa grei, alentei-me, já que sofrera atrozes privações e caminhara por regiões onde vida era um auto de solene cita. frutos? apenas os bem silvestres e hostis à língua mãe. regalar-se ao paladar com o sabor…  um penhor de cárcere férreo. ali só  pão preto e alguma ração de lágrimas dominicais e ainda em suaves respingos misericordiosos, os únicos companheiros nessas celebrativas oitavas.

por mais que fôssemos e sentíssemos revestidos com os braceletes e coroa doiro e d’água, sentia-se frequentes vezes esmaecerem-se os sentidos… o gozo. lépido e intrépido, igual lâmina imperceptível necessitada de qualquer movimento a que se lhe note a existência.

e esse movimento, propositadamente, precipita-me à feliz manhã in coena domini, quando à parte, no jardim-lagar, em ângelus, pressurosamente, saí a prestar-lhe mesuras de criado e vassalo por amor, e lá deparo-me com sua  essência transmutada…  volátil e assim como as chamas penetravam os óleos dos olhos do povo que  habita a região do solstício. quem disse que a contemplação não é um propiciador de êxtase? você era igual a mim.

peregrino e feliz caminhando aos alaúdes, aos átrios de deus!

nesse instante você é e ouço o fragor de seu vocare ad vos. ita, recte, ita domne!  salve, veni ad me, veni mecum.

desconheço um só mortal que repudiar queira os mimos de um deus. no barril éramos moléculas imersas e mistas de e em si. em si bemol, eram os suaves gritos do castrati que alegravam as primícias do encontro, como em sonora abóboda basilical, eram os festins, os suores que exalavam em plena comunhão e recitação de anáforas festivas. havia aí um recôndito, lugar de deuses, éramos guardados por hefesto e cibele, havia forja e deuses em castas, prontos a nos fazer partícipes em seus capítulos de iniciação. um líquido puseram-lhe à cabeça e este escorreu até os pés, embevecido sob o torpor da erva, quedou-se absorto. percebera sua demora, obtive a permissão de reconduzi-lo. ao mergulha, regiões subterrâneas e gélidas da consciência, a abordagem fôra da ninfa designada a velar seu descanso real. quid quaeris? perguntara-me a ninfa. após as premissas explicativas, de confabularmos, intentei a volta abrupta. de volta, em meio às ondas mais revoltas, mas se volta, nós estávamos atracados e plenamente misturados, gêmeos. grãos da mesma ceifa. nesse entrelaçar de líquidos fluidos e constatações pares, demo-nos conta do cheiro os pelos, o êxtase. o gozo vem com o  inconteste e contundente no umbral do orifício. um sacral leite, um graal, líquido resquício. veni mecum, recte dicis!

a mais lícita e ansiada sensação, foi-nos dora em vante, uma lei a executar…   abstração e perda total da fecundidade do verbo.  et verbum caro factum est et verbum erat deum! ave verum, demos vazão à lexicogênese. quiçá perpetramos o cerne verbal, nescio.

polifonia e timtinabulum suntuosas basílicas vítreas, vi-o a descerrar seu majestoso e imponente pluvial, em certo ângulo via-se também seu manípulo, que servia de adorno de seus braços em palmeir e de alforje ao seu centro. têmpora e atemporal regalava aos seus súditos. filetes de um gládio no flanco, davam mostras de sua arte. as lâminas partem. mas quem não parte? será mesmo ø haverá quem se nos reparta a magnífica alteridade? agora nem o arquitriclínio ao expor aquela esperada garrafa de vinho suave conseguira fazer-lhe desviar-se de sua senda irresoluta. palpitações e torpor quadragesimal, conclamam aos transeuntes à valsa nas entranhas.  desfaleço, suspiro a malha epidérmica de deus em mim,  e eu n’ele.

comi-o, bebi-o e sei que é o corpo que será entregue…   hoc facite in meam commemorationem. alisa e serei mais branco que a neve. munda cor meum. posa eu olhar e…

satis, ab aeterno, amem.

BENEDITO LEITE DE SOUZA JÚNIOR, residente em Caruaru, tem licenciatura plena em LETRAS e é mestre em EDUCAÇÃO CONTEMPORÂNEA pela Universidade Federal do Pernambuco, como bolsista CNPQ, tendo estudado exegese, hermenêutica e línguas clássicas na PUCSP. Membro da ABRAFH – Associação Brasileira de Famílias Homotransafetivas, coordenador regional da Sociedade dos Amigos Fraternos de Thomas Merton e docente da RED@LAC, Docentes da América Latina.

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