marcel PROUST

A Sombra da Pessoa

(…) Uma pessoa não está… nítida e imóvel diante dos nossos olhos, com as suas qualidades, os seus defeitos, os seus projectos, as suas intenções para connosco (como um jardim que contemplamos, com todos os seus canteiros, através de um gradil), mas é uma sombra em que não podemos jamais penetrar, para a qual não existe conhecimento directo, a cujo respeito formamos inúmeras crenças, com auxílio de palavras e até de actos, palavras e actos que só nos fornecem informações insuficientes e aliás contraditórias, uma sombra onde podemos alternadamente imaginar, com a mesma verosimilhança, que brilham o ódio e o amor. 

Marcel Proust, in ‘O Caminho de Guermantes’

O dia inteiro, na mansão de Tansonville, um pouco rústica demais, com jeito de pouso entre dois passeios ou durante um aguaceiro, uma dessas casas cujas salas lembram caramanchões, e onde, nas paredes dos quartos, aqui as rosas do jardim, os pássaros das árvores ali, aproximavam-se e nos faziam companhia – cada um por sua vez  –  porque as forravam velhos papéis, nos quais cada rosa se destacava tanto que poderia, se fosse viva, ser colhida, cada pássaro engaiolado e domesticado, sem nada das grandes decorações dos quartos de hoje, nas quais, sobre fundo prateado, todas as pereiras da Normandia se vêm perfilar em estilo japonês, para alucinar as horas que passamos na cama,  o dia inteiro eu ficava em meu quarto, que dava para a folhagem verde do parque e os lilases da entrada, para as folhas verdes das grandes árvores à beira da água, brilhantes de sol, e para a floresta de Méséglise. Só olhava, afinal, com prazer tudo isso, porque dizia de mim para mim: ‘é bonito ter tanto verde na janela do meu quarto’ até o momento em que, no vasto quadro verdejante, reconheci, pintado ao contrário em azul-escuro, por estar mais longe, o campanário da igreja e Combray, não uma imagem desse campanário, mas o próprio campanário, que, pondo assim sob meus olhos a distância das léguas e dos anos, viera, em meio a luminosa verdura e com tom inteiramente outro, tão sombrio que parecia apenas desenhado,  inscrever-se no losango e minha janela. E se saía um instante do quarto, no fim do corredor orientado de modo diverso, percebia, como uma banda escarlate, o revestimento de uma saleta, simples mousseline, mas vermelha, e prestes a incendiar-se se a tocava um raio de sol.

(o primeiro parágrafo de O TEMPO REDESCOBERTO, último livro da obra EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO, talvez o parágrafo mais fantástico, lindo, maravilhoso que já li em toda a minha vida… lembrei até que LEDA TENÓRIO DA MOTA me falava pra começar PROUST por este último livro, e só o primeiro parágrafo já valeu por uma obra inteira. PROUST começa em sua ‘saga’ descrevivendo um quarto extraordinário, com uma enunciação absurda e alucinante, tirem suas próprias conclusões…)

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