ludwig WITTGENSTEIN

nem gay friendly, mal resolvido e pouco amigável, hiperseletivo, demasiado idiossincrático, compulsivo, explosivo, simplório e sofisticadíssimo aos píncaros….

(só iniciando com os mais diversos textos e situações deste meu amado filósofo, ainda só montando o site, estamos aceitando todo tipo de contribuição em pesquisa, artigos e outros meios, boa leitura!)

“poderia dizer: se o lugar a que pretendo chegar só se pudesse alcançar por meio de uma escada, desistiria de tentar lá chegar. pois o lugar a que de facto tenho de chegar é um lugar em que já me devo encontrar. tudo aquilo que se pode alcançar com uma escada não me interessa”

cultura e valor, edições 70, pg. 21, 1980

  1. O MUNDO É TUDO O QUE OCORRE.
  2. O QUE OCORRE, O FATO, É O SUBSISTIR DOS ESTADOS DE COISAS.
  3. PENSAMENTO É A FIGURAÇÃO LÓGICA DOS FATOS.
  4. O PENSAMENTO É A PROPOSIÇÃO SIGNIFICATIVA.
  5. A PROPOSIÇÃO É UMA FUNÇÃO DE VERDADE DAS PROPOSIÇÕES ELEMENTARES (a proposição elementar é uma função de verdade de si mesma).
  6. A FORMA GERAL DA PROPOSIÇÃO DE VERDADE É ‘o mundo é tudo o que é o caso’
  7. O QUE NÃO SE PODE FALAR, DEVE-SE CALAR.

WITTGENSTEIN, Ludwig. Tractatus logico-philosophicus. São Paulo: COMPANHIA EDITORA NACIONAL, 1968, PGS. 55, 61, 70, 89,112, 129.

Essas são as 7 principais proposições do TRACTATUS que se ramifica em 526 proposições, sendo que 7 se ramificam da primeira, 79 ramificam da segunda, 74 ramificam da terceira, 109 ramificam da quarta, 151 ramificam a quinta, 105 ramificam da sexta e, somente a sétima proposição, dentre as 7 principais, se apresenta como uma proposição única, sem ramificação, um meio/fim em si mesma. bom, é um livro histórico na filosofia, balançou com tudo, mudou tudo, e reestruturou tudo em outros patamares. enfim, a lógica proposicional está no ensino médio público e o cinema já filmou muito wittgenstein… meu mestrado chama-se ‘estética ordinária: comunicação wittgensteiniana do cotidiano da arte’, justamente, por uma proposição do tractatus… além do livro comprovar conceitualmente e estruturalmente os argumentos de minha dissertação. a dizer, a proposição: “5.5563 todas as proposições de nossa linguagem corrente/ordinária são, de fato, tais como são, perfeitamente ordenadas de um ponto de vista lógico. – Tudo o que fôr mais simples e que devemos aqui admitir não é símile da verdade mas a própria verdade plena. (nossos problemas não são abstratos mas talvez os mais concretos que existem), pg. 110 do livro citado. inspirado e um pouco contrapondo a ‘estética doméstica’ de clement greenberg, quis executar uma espécie de forma geral do entendimento est.ético que mostrasse que o entendimento da arte não é privilégio de quem sabe, estuda, pratica ou tem doutorado em arte, a arte então como um objeto ordinário que simplesmente, sobretudo, denuncia nosso comportamento risível e insustentável sobre o planeta. mas meu texto só tá aqui pra dar um incentivo à vossa leitura, e claro, comente, questione, siga, estamos abertos a todo tipo de contribuição.

LUDWIG WITTGENSTEIN

CULTURA E VALOR

Lisboa: Edições 70, 1980

PREFÁCIO:

No material manuscrito deixado por Wittgenstein existem muitas notas que directamente não pertencem às suas obras filosóficas, embora se encontrem dispersas e misturadas com os textos filosóficos. Algumas das notas são autobiográficas, outras referem-se à natureza da actividade filosófica, e outras dizem respeito a assuntos de caráter geral, tais como questões sobre a arte ou religião. Nem sempre é possível separá-las nitidamente do texto filosófico; contudo, em muitos casos, o próprio Wittgenstein deixou entrever essa separação – utilizando parênteses, ou de outra maneiras.

Algumas notas são efêmeras; outras, por outro lado – a maioria – têm um grande interesse. Por vezes, são admiravelmente belas e profundas. Tornou-se evidente para os executores literários que uma parte das notas se deveria publicar, e eu próprio fui encarregue de fazer e organizar uma selecção.

Tratava-se, incontestavelmente, de uma tarefa difícil; em várias ocasiões, tive diferentes ideias sobre como levá-la a cabo da melhor maneira possível. Para começar, por exemplo, pensei que as notas se podiam organizar conforme os assuntos nelas tratados – como ‘música’, ‘arquitetura’, ‘shakespeare’, ‘aforismos sobre sabedoria prática’, ‘filosofia’, etc.  Por vezes, as notas podem assim ordenar-se sem esforço; mas, geralmente, a separação do material por este processo daria provavelmente uma impressão de artificialidade. Além disso, eu tinha pensado, durante um curto período de tempo, em incluir material já publicado. Muitos dos ‘aforismos’ mais impressionantes de Wittgenstein encontram-se nas suas obras filosóficas – nos cadernos de apontamentos da primeira Guerra Mundial, no Tractatus e também nas investigações. Gostaria de dizer que é quando se encontram em tais contextos que os aforismos de Wittgenstein exercem, e facto, o seu mais poderoso efeito. Mas precisamente por essa razão não me parecia correto arrancá-los ao seu contexto.

Durante um curto período de tempo, pensei também não fazer uma seleção muito vasta, mas incluir apenas as ‘melhores’ notas. A impressão criada pelas boas notas só poderia ser enfraquecida, segundo pensava, por um grande volume. Isso é, provavelmente, verdade – mas não permitia confiadamente escolher entre as formulações repetidas do mesmo, ou praticamente do mesmo, pensamento. Muitas vezes, as próprias repetições pareciam-me estar relacionadas com a própria natureza do assunto.

Por fim, decidi-me pelo único princípio de seleção que me parecia incondicionalmente correcto. Excluí da compilação as notas de tipo puramente ‘pessoal’ – isto é, notas em que Wittgenstein faz observações sobre circusntâncias externas da sua vida, sobre o seu estado e espírito e as relações com outras pessoas – algumas das quais ainda vivas. Estas notas foram, de um modo geral, fáceis de separar do resto e o seu nível de interesse é diferente do das notas aqui dadas à estampa. Só em alguns poucos casos em que as duas condições pareciam não estar reunidas incluí, também, notas de natureza autobiográfica.

As notas publicam-se aqui segundo uma ordem cronológica, com uma indicação do seu ano de origem. É notável o facto de praticamente metade as notas provir do período subsequente ao acabamento (1945) a primeira parte das investigações filosóficas. Na ausência de explicações adicionais, algumas das notas revelar-se-ão obscuras ou enigmáticas para um leitor que não se encontre familiarizado com as circunstâncias a vida de Wittgenstein ou com aquilo que ele lia. Em muitos casos, teria sido possível fornecer comentários esclarecedores em notas de pé de página. Abstive-me, contudo, com muito poucas excepções, de incluir comentários. Seria conveniente acrescentar que todas as notas de rodapé são da responsabilidade do editor.

É inevitável que um livro deste tipo venha chegar às mãos de leitores para os quais a obra filosófica de Wittgenstein é, e continuará a ser, desconhecida. Isto não é necessariamente prejudicial ou inútil. Estou, no entanto, convencido de que estas notas apenas se põem devidamente compreender e apreciar contra o pano de fundo a filosofia de Wittgenstein e, além disso, que elas contribuem para a nossa compreensão dessa filosofia.

Comecei a fazer a minha seleção a partir dos manuscritos nos anos de 1965 – 1966; pus em seguida o trabalho de parte até 1974. O Sr. Heikki Nyman ajudou-me na selecção final e na ordenação da compilação. Verificou também a concordância exacta entre o texto e os manuscritos e eliminou muitos erros e lacunas do meu original dactilografado. Estou-lhe muito grato pelo seu trabalho, realizado com imenso cuidado e bom gosto. Sem a sua ajuda, não teria sido provavelmente capaz de conseguir completar a compilação para ser impressa. Estou também profundamente grato ao Sr. Rush Rhees pelas correcções feitas ao texto por mim produzido e pelas opiniões preciosas que me deu sobre questões de selecção.

Helsínquia, Janeiro de 1977

Georg Henrik Von Wright

1914

Temos tendência para confundir a fala de um chinês com um gorgolejo inarticulado. Alguém que comprenda o chinês reconhecerá, no que ouve, a língua. Muitas vezes, não consigo, analogamente, distinguir num homem a humanidade.

1929

Considero nova a minha própria maneira de filosofar, e continuo ainda a pensar que assim é; é por isso que tão frequentemente necessito de me repetir. Para uma nova geração, ela ter-se-á tornado uma segunda natureza e as repetições parecerão ameaçadoras. Para mim as repetições são necessárias.

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É bom que eu não me permita ser influenciado!

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Uma boa parábola refresca o entendimento.

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É difícil indicar o caminho a um míope, visto que não se lhe pode dizer: ‘olhe para aquela torre de igreja a dez milhas e siga nessa direcção’.

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Não há nenhuma confissão religiosa em que o uso incorreto de expressões metafísicas tenha sido responsável por tantos pecados quanto na matemática.

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O olhar humano tem o poder de conferir valor às coisas; mas também faz que elas se tornem mais caras.

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Deixa falar apenas a natureza e admite como superior à natureza unicamente uma coisa, mas não aquilo que os outros possam pensar.

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Todas as manhãs é preciso atravessar de novo o cascalho inerte, de modo a atingir a semente viva e quente.

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Uma palavra nova é como uma nova semente viçosa lançada à terra no campo da discussão. (ah, e quando se encontra terra fértil em algumas cabeças é lindo de se ver o florescer, e é só numa palavra, imagina uma frase! – nota minha)

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Com a minha mochila filosófica cheia, apenas posso escalar lentamente a montanha da matemática.

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Mendelssohn não é um cume, mas um planalto. O inglês que há nele.

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Ninguém pode pensar por mim um pensamento, da mesma maneira que ninguém pode  por mim pôr o meu chapéu.

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Quem ouve uma criança a chorar e compreende o que ouve saberá que aí dormitam forças anímicas, forças terríveis, diferentes do que geralmente se supõe. Raiva profunda, sofrimento e ânsia de destruição.

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Mendelsoohn é como um homem que só está bem disposto quando tudo é prazeiroso, ou como um homem que só é bom quando se encontra rodeado por homens bons; não tem a integridade de uma árvore que se ergue firmemente no seu lugar, seja o que for que se passe à sua volta. Também sou assim e tenho tendência a sê-lo.

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O meu ideal é uma certa frieza. Um templo que proporcione um fundo para as paixões, sem com elas se imiscuir.

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Muitas vezes penso que meu ideal cultural será um ideal novo, isto é, contemporâneo, ou se promanará do templo de Schumann. Tenho, pelo menos, a impressão de que ele dá continuidade a esse ideal, embora de um modo diferente de como na altura ele efectivamente se manteve. Isto é, a segunda metade do século dezanove foi excluída. Tratou-se, devo dizê-lo, de um desenvolvimento puramente instintivo e não do resultado de uma reflexão.

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Quando pensamos no futuro do mundo, temos sempre em mente a situação em que ele virá a alcançar se prosseguir na direcção em que o vemos agora mover-se; não nos ocorre que a sua marcha é sinuosa e não em linha recta, e que a sua direcção, constantemente se altera.

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Creio que a obra de qualidade austríaca (Grillparzer, Lenau, Bruckner, Labor) é particularmente difícil de compreender. É, num certo sentido, mais subtil do que tudo o mais, e a sua verdade nunca mostra tendência para a plausibilidade.

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O que é bom é também divino. Por mais estranho que tal possa parecer, essa afirmação resume a minha ética. Só algo de sobrenatural pode expressar o sobrenatural.

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Não se pode levar os homens ao bem; apenas se lhes pode indicar o caminho para qualquer lugar. O bem reside fora do âmbito dos factos.

1930

Disse recentemente a Arvid[1] depois de com ele ter visto um filme muito antigo: um filme moderno está para um filme antigo tal como um automóvel actual está para um construído há 25 anos.  A impressão que nos causa é igualmente ridícula e tosca, e os progressos conseguidos na produção de filmes correspondem aos melhoramentos técnicos que observamos nos carros. Tal progresso não se equipara a melhoria – se é correto chamá-lo assim – de um estilo artístico. O mesmo, sensivelmente, deveria passar-se também com a moderna música de dança. Uma dança de jazz, tal como um filme, deve ser algo susceptível de aperfeiçoamento. O que distingue todos estes desenvolvimentos da formação de um estilo é que o espírito não desempenha neles qualquer papel.

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Disse em tempos, talvez acertadamente: a cultura antiga fragmentar-se-á e tornar-se-á       finalmente um monte de cinza, mas sobre as cinzas pairarão espíritos.

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Hoje em dia, a diferença entre um bom e um mau arquitecto é que este sucumbe a todas as tentações, enquanto o bom arquitecto lhes resiste.

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Quer-se tapar com palha a fenda que se mostra na unidade orgânica da obra de arte, mas para tranquilizar a consciência usa-se só apenas a melhor palha.

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Se alguém pensa ter encontrado a solução do problema da vida e se sente disposto a dizer a si próprio que agora tudo é muito fácil, basta-lhe, para ver que está enganado, recordar-se de uma época em que tal ‘solução’ ainda não havia sido descoberta; teria sido também possível viver nessa altura, e a solução agora encontrada pareceria fortuita relativamente a esse tempo. O mesmo se passa com o estudo da lógica. Se existisse uma ‘solução’ para os problemas da lógica (filosófica), necessitaríamos apenas de ter em conta que houve um tempo em que eles não estavam resolvidos (e que também então as pessoas sabiam viver e pensar).

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Engelmann disse-me que em casa, ao remexer uma gaveta cheia de manuscritos seus, estes lhe parecem tão excelentes que pensa que valeria a pena dá-los a conhecer a outras pessoas. (Diz que o mesmo se passa ao ler cartas dos seus parentes já falecidos.) Mas quando pensa em publicar um seleção desses manuscritos, as coisas perdem o seu encanto e valor, o projeto torna-se impossível. Eu disse que tal se assemelhava ao caso seguinte: nada há de mais extraordinário do que ver um homem, que pensa não estar a ser observado, a levar a cabo uma actividade vulgar e muito simples. Imaginemos um teatro; o pano sobe e vemos um homem sozinho num quarto, a andar para frente e para trás, a acender um cigarro, a sentar-se, etc., de modo que, subitamente, estamos a observar com os nossos próprios olhos um capítulo de uma biografia – isto poderia, sem dúvida, ser ao mesmo tempo inquietante e maravilhoso. Estaríamos a observar algo mais admirável do que qualquer coisa que um dramaturgo pudesse arranjar para ser representado ou dito num palco: a própria vida. – Mas isso é o que vemos todos os dias, sem que tal nos provoque a mais ligeira impressão! Sim, mas não o vemos nessa perspectiva.  – Bem, quando Engelmann olha para o que escreveu e o acha extraordinário (embora não se preocupe com a publicação de qualquer dos seus escritos), vê a sua vida como uma obra de arte feita por Deus e, como tal, merecendo decerto ser contemplada, assim como qualquer vida e tudo o mais. Mas só o artista é capaz de apresentar assim uma coisa individual de modo que ela nos apareça como uma obra de arte; é verdade que esses manuscritos perderiam seu valor se fossem examinados um a um e, especialmente, se fossem olhados desinteressadamente, isto é, por alguém que não sente por eles, à partida, qualquer entusiasmo. A obra de arte obriga-nos – por assim dizer – a vê-la da perspectiva correta; mas na ausência da arte, o objeto é apenas um fragmento da natureza, como outro qualquer; podemos enaltecê-lo como o nosso entusiasmo, mas isso não dá a ninguém o direito de com ele nos confrontar. (continua a pensar num desses insípidos instantâneos fotográficos de um fragmento de paisagem que tem interesse para quem os tirou porque ele estava lá e sentiu algo; mas qualquer pessoa olhará para eles com frieza de um modo inteiramente justificado, até ao ponto em que é justificável olhar friamente para uma coisa.)

                Mas parece-me também que há outra maneira de apreender o mundo sub specie aeterni, para além do trabalho do artista. É o caminho do pensamento que, por assim dizer, voa sobre o mundo e o deixa tal como é  –  observando-o de cima, em voo.

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            Leio no Peuple d’Israel de Renan: “o nascimento, a doença, a morte, a loucura a catalepsia, o sono, os sonhos, tudo isso causava uma enorme impressão e, mesmo hoje em dia, apenas uns quantos têm o dom de ver claramente que estes fenômenos têm causas na nossa constituição”. [2]

                Não há, pelo contrário, razão alguma para nos admirarmos com estas coisas, porque elas são acontecimentos de todos os dias. Se os homens primitivos não podem deixar de se admirar com elas, muito mais tal acontecerá com os cães e os macacos. Ou estar-se-á a presumir que os homens acordaram, por assim dizer, repentinamente, e que, reparando pela primeira vez nas coisas que sempre tinham estado presentes, ficaram compreensívelmente espantados?  –  Bem, na realidade, podíamos presumir algo deste tipo; não que eles tinham tido consciência destas coisas pela primeira vez, mas que, de repente, comecem a sentir-se admirado com elas. Mas, mais uma vez, tal nada tem a ver com o seu primitivismo. A menos que se considere primitivo não sentir admiração pelas coisas, o que implicaria que as pessoas de hoje fossem na realidade os primitivos, assim como o próprio Renan, se ele pensa que a explicação científica poderia aumentar a admiração. 

                Como se um raio fosse mais trivial ou menos aterrador hoje em dia do que há 2000 anos.

                O homem  –  e talvez os povos  –  para admirar, tem de despertar. A ciência é a maneira de o voltar a fazer adormecer.

                Por outras palavras, é completamente falso dizer: os povos primitivos deveriam espantar-se com todos os fenômenos. Embora seja talvez verdade que estes povos se admiravam com tudo o que os rodeava.  –  Presumir que não podiam deixar de se admirar é uma superstição primitiva. (É supor que tinham de ter medo de todas as forças da natureza, ao passo que nós não temos, evidentemente, que ter medo delas. Por outro lado, a experiência pode ensinar-nos que certas tribos primitivas têm uma forte tendência para recear os fenômenos naturais.  –  Mas não podemos excluir a possibilidade de povos altamente civilizados virem a estar de novo sujeitos a este mesmo receio; nem a sua civilização nem o conhecimento científico os podem disso proteger. É, porém, verdade que o espírito que hoje preside ao trabalho da ciência não é compatível com semelhante temor.)

                O que Renan chama bons sens précoce  das raças semíticas (uma ideia que me tinha também ocorrido há muito tempo) é a sua mentalidade não poética, que se orienta directamente para o que é concreto. Eis o que caracteriza a minha filosofia.

                As coisas estão mesmo à frente dos nossos olhos, nenhum véu as cobre.

                Aqui se separam a religião e a arte.

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Esboço de um Prefácio[3]

                Este livro é escrito para os que compartilham do espírito que preside à sua escrita. Este não é, segundo creio, o espírito da corrente mais importante da civilização americana e europeia. O espírito desta civilização se manifesta na indústria,  na arquitetura e na música do nosso tempo, no seu fascismo e no seu socialismo, e é estranho e desagradável ao autor. Não se trata de um juízo de valor. Tal não quer dizer que ele aceite o que hoje em dia passa por arquitectura cmoo se fosse arquitectura, ou que não se aproxime do que se chama música moderna com a maior suspeita (embora sem compreender a sua linguagem), mas, por outro lado, o desaparecimento das artes não justifica que se julgue depreciativamente tal tipo de humanidade. Em épocas como esta, as naturezas genuínas e fortes põem de parte as artes e viram-se para outras coisas e, de uma maneira ou de outra, o valor do indivíduo encontra forma de se exprimir. Não evidentemente da mesma maneira que numa época de elevada cultura. Uma cultura é como uma grande organização que atribui a cada  um de seus membros um lugar em que ele pode trabalhar no espírito do conjunto; e é perfeitamente justo que o seu poder seja medido pela contribuição que consegue dar ao todo. Numa época sem cultura, por outro lado, as forças tornam-se fragmentárias e o poder do indivíduo consome-se na tentativa de vencer forças opostas e resistências ao atrito; tal poder não é visível na distância que percorre, mas talvez  unicamente no calor por ele produzido ao vencer o atrito. Mas a energia continua a ser a energia, e embora o espetáculo que a nossa época nos proporciona não seja o da formação de uma  grande obra cultural, com os melhores homens a contribuir para o mesmo fim grandioso,  mas o espetáculo mais expressivo de uma multidão cujos melhores membros trabalham com vista à realização de objectivos puramente pessoais, mesmo assim não nos devemos esquecer de que o espetáculo não é o que interessa.

                Compreendo, por isso, que o desaparecimento de uma cultura não significa o desaparecimento do valor humano, mas apenas o desaparecimento de certos meios de expressar este valor. Contudo, mantém-se o facto de eu não ter qualquer simpatia pela corrente da civilização europeia e não compreender os seus objectivos, se é que eles existem. Assim, escrevo de facto para amigos dispersos pelo recanto do mundo.

                É-me indiferente que o cientista ocidental típico compreenda ou aprecie, ou não, o meu trabalho, visto que de qualquer modo ele não compreenderá o espírito com que escrevo. A nossa civilização é caracterizada pela palavra ‘progresso’. Fazer progressos não é uma das suas características, o progresso é, mais propriamente a sua forma. Ela é tipicamente constructora. Ocupa-se em construir uma estructura cada vez mais complicada. E até mesmo a claridade é desejada apenas como um meio para atingir este fim,  nunca como um fim em si mesmo. Para mim, pelo contrário, a claridade e a transparência são em si mesmas valiosas.

                Não estou interessado na construção de um edifício, mas sim em ter uma visão clara dos alicerces de edifícios possíveis.

                Assim, não viso o mesmo alvo que os cientistas e a minha maneira de pensar é diferente da deles.

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                Cada uma das frases que escrevo procura exprimir tudo, isto é, a mesma coisa repetidas vezes; é como se elas fossem simplesmente visões de um mesmo objeto, obtidas de ângulos diferentes.

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                Poderia dizer: se o lugar a que pretendo chegar só se pudesse alcançar por meio de uma escada, desistiria de tentar lá chegar. Pois o lugar a que de facto tenho de chegar é um lugar em que já me devo encontrar.

                Tudo aquilo que se pode alcançar com uma escada não me interessa.

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                O primeiro movimento liga os pensamentos uns aos outros numa série, o outro continua a visar o mesmo lugar.

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                O primeiro movimento é constructivo e apanha uma pedra a seguir a outra, o outro continua a segurar a mesma coisa.

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                O perigo de um prefácio[4] longo é o de que o espírito de um livro tem de se mostrar no próprio livro e não pode ser descrito. Se um livro foi escrito apenas para alguns leitores, tal será claro precisamente pelo facto de apenas um pequeno número de pessoas o compreender. O livro deve separar automaticamente aqueles que o compreendem dos que o não compreendem. Até  mesmo o prefácio é escrito somente para aqueles que compreendem o livro.

                Dizer a alguém algo que ele não pode compreender não faz sentido, mesmo que se lhe diga também que não será capaz de o compreender. (Isso acontece frequentemente com alguém que se ama).

                Se tiveres um quarto em que não queres que certas pessoas entrem, põe-lhe uma fechadura para a qual não tenham a chave. Mas não faz qualquer sentido falar-lhes disso, a não ser, claro, que pretendas que elas admirem o quarto do lado de fora!

                A única coisa honesta a fazer é pôr na porta uma fechadura que apenas seja notada por aqueles que a podem abrir e não pelos outros.

                Mas é correcto dizer que penso que o livro nada tem  ver com a civilização progressiva a Europa e da América.

                E que, embora seu espírito apenas possa ser possível no ambiente desta civilização, são diferentes os seus objetivos.

                Tudo o que é ritual (tudo o que cheira, por assim dizer, a sumo sacerdote) deve ser estritamente evitado, dado que imediatamente apodrece.

                É evidente que um beijo também é um ritual não é podre, mas o ritual é aceitável apenas até ao ponto em que seja tão genuíno como um beijo.

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                Tentar tornar explícito o espírito é um grande tentação.

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                Quando se choca com os limites da própria honestidade é como se os pensamentos entrassem em redemoinho, num retrocesso infinito. Pode dizer-se o que se quiser, não se vai mais além. 

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                Tenho estado a ler Lessing (sobre a Bíblia)[5]: “Junte-se a isto a roupagem verbal e o estilo… Todo ele cheio de tautologias, mas de um tipo que permite o exercício das nossas capacidades pelo facto de parecer por vezes dizer algo de diferente quando, na realidade, diz o mesmo e noutras alturas parecer dizer o mesmo quando no fundo quer dizer, ou é capaz de querer dizer, algo diferente”.

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                Se não estou completamente seguro sobre o modo como começar um livro, tal deve-se ao facto de algo ser ainda para mim pouco claro. Eu gostaria de começar com os dados originais da filosofia, com frases escritas e ditas, com livros, por assim dizer.

                E aqui confrontam-nos com a dificuldade do ‘tudo está em devir’. Talvez seja esse, precisamente, o ponto onde se deve começar.

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                Se alguém está apenas avançando em relação à sua época, ela virá um dia a alcançá-lo.

1931

                Há quem considere a música uma arte primitiva porque ela só tem poucas notas e ritmos. Mas só é simples à superfície; a sua essência, que torna  possível interpretar o seu conteúdo manifesto, tem, por outro lado, toda a complexidade infinita que é sugerida pelas formas externas de outras artes e que a música oculta. Ela é, num certo sentido, a mais sofisticada de todas as artes.

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                Há problemas dos quais nunca me aproximo, que não se encontram no meu caminho ou não fazem parte do meu mundo. Problemas do mundo intelectual do Ocidente com os quais Beethoven (e talvez, até certo ponto, Goethe) se defrontou, esforçando-se intensivamente por os resolver, mas que nenhum filósofo alguma vez enfrentou ( talvez Nietzsche por eles tenha passado). E talvez estejam perdidos para a filosofia ocidental, isto é, ninguém será aí capaz de sentir e, portanto, de descrever o progresso desta cultura como epopeia. Ou, para se mais preciso, ela já não é uma epopeia, ou então só para quem a observe do exterior e foi provavelmente o que Bethoven fez com presciência  (como refere algures Spengler). Poderia dizer-se que a civilização só antecipadamente pode ter os seus poetas épicos. Tal como um homem não pode descrever a sua própria morte quando esta ocorre, mas apenas entrevê-la e descrevê-la como algo de futuro. Poderia, pois, dizer-se: se pretendes ver uma descrição épica de uma cultura na sua globalidade, terás de considerar as obras das suas figuras mais notáveis e, por isso, obras compostas quando o fim dessa cultura apenas podia ser entrevisto, visto que mais tarde não haverá ninguém para o descrever. E assim não é de admirar que ele esteja escrito na linguagem obscura da profecia, compreensível, de facto, apenas para alguns.

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                Mas não abordo estes problemas. Quando ‘desistir do mundo’ terei criado uma massa amorfa (transparente) e o mundo na sua enorme variedade será posto de lado como um quarto de arrumações sem interesse.

                Ou talvez, para ser mais preciso: o resultado global de todo este trabalho é pôr o mundo de lado (atirar o mundo na sua totalidade par o quarto de arrumações).

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                Neste mundo (no meu) não há tragédia, nem a infinita variedade de circunstâncias que dá origem à tragédia (como seu resultado).

                É como se tudo fosse solúvel no éter do mundo; não há superfícies sólidas.

                O que isso significa é que a solidez e o conflito não se convertem em algo esplêndido, mas numa deficiência.

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                O conflito dissipa-se sensivelmente da mesma maneira que a tensão de uma mola quando se funde o mecanismo (ou se dissolve o mecanismo em ácido nítrico). Essa dissolução elimina as tensões.

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                Se afirmo que o meu livro se dirige apenas a um pequeno círculo de pessoas (se é que se lhe pode chamar um círculo), não quero com isso dizer que acredite que tal círculo é uma elite da humanidade: mas inclui aqueles para quem me viro (não porque sejam melhores ou piores que outros) porque constituem o meu meio cultural, são, por assim dizer, os meus concidadãos, em contraste com os outros que para mim são estrangeiros.

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                O limite da linguagem mostra-se na impossibilidade de descrever o facto que corresponde a uma frase (a sua tradução), sem repetir simplesmente a frase. (isto tem que ver com a solução kantiana do problema da filosofia)

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                Poderei dizer que uma peça de teatro tem um tempo próprio  que não é um segmento do tempo histórico? Isto é, posso nela distinguir um antes e um depois, ma não faz qualquer sentido para o problema se os acontecimentos na peça ocorrem, por exemplo, antes ou depois da morte de César.

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                A propósito, a velha ideia – em termos gerais a os (grandes) filósofos ocidentais – era a de que existiam, em sentido científico, dois tipos de problemas universais, grandes, essenciais, e problemas não essenciais,acidentais, por assim dizer. Por outro lado, a nossa concepção é que não há, no sentido da ciência, nenhum problema grande, nenhum problema essencial.

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                A estrutura e o sentimento na música. Os sentimentos acompanham a nossa apreensão de uma peça musical da mesma maneira que acompanham os acontecimentos da nossa vida.

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                A seriedade de Labor é uma seriedade muito tardia.

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                O talento é uma fonte da qual constantemente brota água fresca. Mas, esta fonte, se não for usada de uma maneira correcta,  perde seu valor.

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                <<O que o homem inteligente sabe é difícil de conhece>>.  Terá o  desprezo de Goethe pela experimentação laboratorial, juntamente com sua exortação para aprendermos com a natureza livre, algo a ver com a ideia de que a hipótese incorrectamente interpretada é já uma falsificação da verdade? E estará ele relacionado com o modo que estou agora a pensar iniciar o meu livro – com uma descrição da natureza?

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                As flores ou os animais que as pessoas consideram feios surgem-lhes sempre como artefatos. <<Parece-se com um…>>, dizem elas. Isto esclarece o sentido das palavras ‘feio’  e ‘bonito’.

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                É  delicioso o modo como as várias partes do corpo humano diferem na temperatura.

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                É humilhante ter de aparecer como uma câmara de ar vazia, simplesmente cheia pela mente.

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Ninguém gosta de ter ofendido outrem; por isso, toda a gente se sente muito melhor se a outra pessoa não mostrar que foi ofendida. Ninguém gosta de enfrentar um leão ferido. Lembrem-se disso. É muito mais fácil evitar com paciência e tolerância a pessoa ofendida do que aproximar-se dela como amigo. É preciso coragem para o fazer.

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                Para tratar bem alguém que não gosta de nós, é não só necessário ter bom coração, mas também ter muito tacto.

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                Lutamos com a linguagem. Estamos envolvidos numa luta com a linguagem.

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                A solução os problemas filosóficos pode comparar-se com um presente num conto de fadas: o castelo mágico ele aparece encantado, mas se o vires no exterior, à luz do dia, não é mais do que um vulgar bocado de ferro (ou algo do gênero).

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                O pensador assemelha-se muito ao desenhador cujo objectivo é representar todas as inter-relações entre coisas.

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                As peças musicais compostas ao piano, no teclado, as que são concebidas com caneta e papel e as que são unicamente compostas com o ouvido interno, devem ser bastante diferentes no seu carácter e originar tipos de impressões bastante diferentes.

                Tenho certeza de que Bruckner compôs imaginando apenas  o som da orquestra, Brahms com caneta e papel. É evidente que se trata de uma simplificação exagerada. Mas isto é uma característica importante.

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                Uma tragédia podia de facto começar com as palavras: <<Nada teria acontecido se não…>>  (se ele não tivesse ficado preso na máquina pela ponta da sua roupa?)

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                Mas é, sem dúvida, uma visão unilateral da tragédia pensar que ela mostra, unicamente, que um encontro inesperado pode decidir a totalidade da nossa vida.

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                Penso que seria possível ter, hoje em dia, uma forma de teatro representado com máscaras. As personagens seriam apenas tipos humanos estilizados. Pode ver-se isto distintamente nos escritos de Kraus. As suas peças poderiam, ou deveriam, ser representadas com máscaras. Tal associa-se, naturalmente, a um certo carácter abstracto, típico destas obras. E, tal como o vejo, o teatro representado com máscaras é, de qualquer maneira, a expressão de um carácter espitiritual. Talvez pela mesma razão seja uma forma teatral que apenas atrairá judeus.

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                Frida Schanz:

                Dia enevoado. O cinzento outono visita-nos.

                                               O riso parece ensombrado;

                                               O mundo está hoje tão silencioso

                                               Como se tivesse morrido ontem à noite.

                                               Na sebe vermelho-dourada

                                               Amadurecem os monstros da névoa;

                                               E o dia jaz adormecido.

                                               O dia não voltará a nascer.

                Extraí este poema de um <<Rösselsprung>> no qual  evidentemente a pontuação não estava presente. Assim, não si se as palavras <<dia enevoado>>  são o título, ou se pertencem ao primeiro verso tal como   o escrevi. E é estranho como nos parece trivial o poema se não começar com as palavras <<dia enevoado>>,mas com  <<o cinzento>>. Isto altera o ritmo de todo o poema. O que alcançasse não pode significar mais para os outros do que para ti. Seja o que for que te tenha custado, será isso que eles te pagarão.

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                O judeu é uma região deserta, mas por baixo da sua fina camada de rocha está a lava em fusão do espírito e do intelecto.

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                Grillparzer: <<é tão fácil ir à aventura por entre objetos grandiosos em regiões distantes e tão difícil alcançar a coisa solidária que se encontra mesmo à nossa frente…>>.

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                Que é que sentiríamos se não tivéssemos ouvido falar de Cristo?  Sentir-nos-íamos abandonados, sozinhos no escuro?  Fugiremos a tal sensação da mesma maneira, simplesmente, que uma criança lhe foge quando sabe que está alguém com ela no quarto?

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                A religião como loucura é uma loucura que brota da irreligiosidade.

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                Olho para a fotografia de salteadores Corsos e penso para comigo: estes rostos são demasiado duros e o meu demasiado brando para que o cristianismo passa neles pôr a sua marca. Os rostos os salteadores são medonhos e, no entanto, eles não estão, por certo, mais afastados de uma boa vida do que eu: acontece apenas que eles encontram a sua salvação num lado da vida que é diferente daquele em que eu a encontro.

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                Na sua boa música, Labor é completamente não romântico. Eis uma característica muito digna de nota e significativa.

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                Ao ler  os diálogos Socráticos, tem-se a sensação de uma tremenda perda de tempo! Qual é o sentido destes argumentos que nada provam e nada clarificam?

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                Parece-me que a história de Peter Schlemihl se deveria interpretar da seguinte forma: ele vende a sua alma ao Diabo a troco de dinheiro. Em seguida, arrepende-se e o Diabo exige-lhe a sua sombra como compensação. Mas Peter Schlemihl ainda pode escolher entre dar ao Diabo a sua alma e renunciar, juntamente com a sua sombra, à sua via em comunidade com outros homens.

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                No Cristianismo é como se Deus dissesse ao homem: Não representeis uma tragédia, isto é,  não ponhais em cena, na terra, o céu e o inferno. O céu e o inferno são um assunto meu.

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Spengler poderia ser melhor compreendido se dissesse: Comparo diferentes épocas culturais à vida das famílias; numa família há uma semelhança de família, embora um semelhança se possa também encontrar entre membros de diferentes famílias; a semelhança de família difere dos outros tipos de semelhança desta e daquela maneira, etc. o que quero dizer  é o seguinte: têm de nos dizer qual é o objecto de comparação, o objecto de que deriva esta maneira de ver as coisas, caso contrário a discussão será constantemente afectada por distorções. Pois quer se queira quer não, atribuiremos as propriedades do modelo original ao objecto que estamos a examinar à sua luz; e afirmamos com segurança  <<será sempre…>>

                Isto acontece porque queremos dar às características do modelo um ponto de apoio na nossa maneira de retratar as coisas. Mas uma vez que confundimos o modelo e o objecto verificamos que nós próprios atribuímos de modo dogmático ao objecto características que só o modelo necessariamente possui. Por outro lado, pensamos que a nossa maneira de ver não terá a generalidade que pretendemos que tenha se apenas for verdadeira para um dos casos. Mas o modelo deveria ser claramente apresentado enquanto tal, de modo a caracterizar a discussão na sua globalidade e a determinar a sua forma. Isto faz dele o ponto focal e, assim a sua validade geral dependerá mais do facto de determinar a forma da discussão do que da afirmação de que tudo o que é apenas verdadeiro relativamente a ele será também atribuído a todas as coisas que estão a ser discutidas.

                De modo análogo, a questão a levantar sempre que se fazem asserções exageradass e dogmáticas é esta: que é que, realmente, há nisso de verdadeiro? Ou então: em que caso é que isso é realmente verdadeiro?

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                De Simplicissimus: Enigmas da tecnologia (Cena: dois professores frente a uma ponte em construção) Voz vinda do alto: <<deixa, ‘tar, pá, deixa ‘tar, ‘tou-te a dizer – depois damos-lhe um volta>> – <<é na verdade bastante incompreensível, meu caro colega, como é possível executar um trabalho tão complicado e preciso, com uma tal linguagem.

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                Diz-se muitas vezes que, em rigor, a filosofia não progride, que ainda nos ocupamos dos mesmos problemas filosóficos de que já se ocupavam os Gregos. Mas os que o dizem não compreendem porque é que isto tem de ser assim. O motivo reside no facto de a nossa linguagem ser a mesma e de continuar a conduzir-nos à formulação dos mesmos problemas. Enquanto continuar a existir um verbo <<ser>> que parece funcionar como <<comer>> e <<beber>>, enquanto tivermos os adjetivos <<idêntico>>, <<verdadeiro>>, <<falso>>, <<possível>>, enquanto continuarmos a falar de um fluir do tempo, de uma vastidão do espaço, etc., etc., continuaremos a tropeçar nas mesmas perplexidades e a olhar espantados para algo que nenhuma explicação parece ser capaz de esclarecer.

                E, além disso, isto satisfaz um desejo de transcendência, visto que na medida em que as pessoas pensam que lhes é possível ver os <<limites da compreensão humana>>, acreditam, evidentemente, que lhes é possível ver para além desses limites.

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                Leio: <<…os filósofos não estão mais perto do sentido de <<realidade>> do que estava Platão…>>. Que estranha situação. É extraordinário que Platão tenha chegado até onde chegou! Ou que não tenha podido ir além! Será que isso se deve ao facto de ter sido tão inteligente?

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                Kleist escreveu algures[1] que aquilo que o poeta mais gostaria de ser capaz de fazer seria comunicar pensamentos sem recorrer a palavras. (que estranha confissão)

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                Diz-se com frequência que uma nova religião estigmatiza como diabos os deuses da velha religião. Mas na realidade eles já então se tinham, provavelmente, tornado diabos.

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                As obras dos grandes mestres são sóis que nascem e se põem à nossa volta. Virá uma altura em que cada  uma das grandes obras que estão a declinar de novo ser erguerá.

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                A música de Mendelssohn consiste, nos seus melhores momentos, em arabescos musicais. É por isso que ficamos desconcertados com qualquer falta de rigor na sua obra.

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                Na civilização ocidental, o Judeu é sempre avaliado por escalas que não se lhe ajustam. É claro para muitos que os pensadores Gregos não eram nem filósofos nem cientistas no sentido ocidental, que os participantes nos jogos Olímpicos não eram desportistas e não se ajustam a qualquer profissão ocidental. O mesmo se passa com os Judeus. E ao aceitarmos as palavras da nossa [língua][2]como os únicos padrões possíveis somos constantemente incapazes de lhes fazer justiça. Assim eles são umas vezes sobrestimados, outras subestimados. A este respeito, Spengler está certo ao não classificar Weininger como um dos filósofos (pensadores) do Ocidente.

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                Nada do que fazemos se pode defender de uma maneira absoluta e definitiva. Apenas por referência a qualquer outra coisa que não se ponha em dúvida. Isto é, não se pode oferecer qualquer razão para que ajam (ou tenham agido) desta maneira, excepto que, pelo facto de o fazerem, ocasionam esta ou aquela situação, que tem que ser, de novo, aceite como um fim.

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                O inexprimível (o que considero misterioso e não sou capaz de exprimir) talvez seja o pano-de-fundo a partir do qual recebe sentido seja o que for que eu possa exprimir.

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                O  trabalho em filosofia – tal como muitas vezes o trabalho em arquitectura – é, na realidade, mais um trabalho sobre si próprio. Sobre a nossa própria interpretação. Sobre a nossa maneira de ver as coisas (e sobre o que delas se espera).

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                O filósofo chega facilmente à situação de um gerente incompetente que, em vez de se dedicar ao seu trabalho e de vigiar apenas o cuidado dos seus empregados para ter a certeza de que este é correctamente feito, toma conta do trabalho deles até que um dia descobre estar sobrecarregado com o trabalho alheio enquanto os seus empregados olham para ele e o criticam.

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                A ideia está gasta e já não é utilizável. (ouvi em tempos Labor fazer um comentário semelhante acerca de ideias musicais) Tal como o papel de prata que, depois de amarrotado, nunca pode ser de novo completamente alisado. Quase todas as minhas ideias estão um pouco amarrotadas.

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                Penso de facto com a minha caneta, pois é frequente que a minha cabeça nada saiba sobre o que a minha mão está escrevendo.

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                Os filósofos comportam-se muitas vezes como crianças que fazem garatujas ao acaso num bocado de papel e, depois, perguntam a um adulto: <<o que é isto?>>. Aconteceu o seguinte: o adulto tinha desenhado várias vezes imagens para a criança e dissera-lhe: <<isto é um homem>>, <<isto é uma casa>>, etc. E, em seguida, a criança faz também alguns traços e pergunta: que é então isto?

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                Ramsey era um pensador burguês. Isto é, pensava com o objectivo de esclarecer os assuntos de uma comunidade particular. Não reflectia sobre a essência do estado – ou pelo menos não gostava de o fazer – ,mas sobre como este Estado poderia ser sensatamente organizado. A ideia de que este Estado poderia não ser o único possível, em parte inquietava-o e em parte aborrecia-o. Ele queria concentrar-se tão rapidamente quanto possível na reflexão sobre os fundamentos deste Estado. Aqui residia a sua capacidade e o seu interesse; ao passo que a verdadeira reflexão filosófica o perturbava a ponto de a ter posto de lado e declarado trivial o seu resultado (se ela o tivesse).

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                Uma curiosa analogia poderia basear-se no facto de até mesmo o mais formidável telescópio ter uma ocular que não é maior do que o olho humano.

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                Tolstoy: o significado (a importância) de uma coisa reside na sua possibilidade de por todos ser compreendido. – Isto é verdadeiro e falso. O que torna uma coisa difícil de compreender – se é algo significativo e importante – não é a exigência de uma preparação especial qualquer em matérias abstrusas, mas o contraste entre a compreensão de tal coisas e o que a maioria das pessoas quer ver. Por isso, as coisas que são justamente mais óbvias podem tornar-se mais difíceis de compreender. Há que superar não uma dificuldade do intelecto, mas da vontade.

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                Quem hoje em dia ensina filosofia não seleciona o alimento para o seu aluno com o objetctivo de lhe adular o gosto, mas para o modificar.

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                Eu não devia ser mais do que um espelho em que o meu leitor pudesse ver o seu próprio pensamento com todas as suas disformidades para que, assim auxiliado, o pudesse pôr em ordem.

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                A linguagem arma a todos as mesmas ratoeiras; é a imensa rede e caminhos transviados facilmente acessíveis. E assim, vemos os homens, um após outro, a andar pelos mesmos caminhos e já sabemos onde é que tomarão um desvio, onde continuarão a andar em frente sem reparar na bifurcação, etc. etc. O que tenho de fazer é, portanto, erigir postes de sinalização em todas as bifurcações em que há caminhos errados, de modo a ajudar as pessoas perto dos locais perigosos.

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                O que Eddington diz sobre a ‘direção do tempo’ e a lei da entropia resume-se ao seguinte: o tempo modificaria a sua direção se os homens começassem um dia a andar pra trás. É claro que se pode fazer tal afirmação, se se quiser, mas então deveria ser claro que nada mais se disse o que isto: as pessoas mudaram a direção em que andavam.

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                Alguém  divide a humanidade em compradores e vendedores e esquece que os compradores também são vendedores. Se eu de tal o lembrar, modificar-se-á a sua gramática?

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                O genuíno mérito de Copérnico ou de Darwin não foi a descoberta de uma teoria verdadeira, mas de um novo e fértil ponto de vista.

                Uma confissão tem de ser uma parte da nova vida.

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                Nunca consegui senão pela metade, exprimir o que quero exprimir. Na realidade talvez nem tanto, apenas um décimo. Isso ainda tem um significado. Muitas vezes, a minha escrita não é mais do q eu uma ‘gaguez’.

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                Entre os  Judeus o ‘gênio’ só se encontra no homem santo. O mais grandioso dos pensadores Judeus não passa de um talento (Eu, por exemplo).

                Creio que há alguma verdade na minha ideia de que, de fato, apenas penso reprodutivamente. Não creio  ter alguma vez inventado uma linha de pensamento, tirei-a sempre de outra pessoa qualquer. Simplesmente me aproveitei logo dela com entusiasmo para o meu trabalho de clarificação. Foi assim que me influenciaram Boltzmann, Hertz, Schopenhauer, Fregue, Russel, Kraus, Loos, Weininger, Spengler e Sraffa. Poderá considerar-se o caso de Breuer e de Freud como um exemplo de reprodutividade judia? – O que invento são novas comparações.

                Na altura em que modelei a cabeça para Drobil o estímulo era também, essencialmente, um trabalho de Drobil, e a minha contribuição foi, de novo, a clarificação.  O que julgo ser essencial é levar a cabo, com CORAGEM, o trabalho de clarificação: caso contrário, ele transforma-se apenas num jogo inteligente.

                O Judeu deve cuidar de que, em sentido literal, ‘todas as coisas sejam para ele como nada’[3]. Mas tal é particularmente difícil para ele, visto que, num certo sentido, nada tem de caracteristicamente seu. É muito mais difícil aceitar de bom grado a pobreza quando se tem de ser pobre do que quando também se poderia ser rico.

                 Poderia dizer-se (correta ou incorretamente) que o espírito Judeu não tem sequer a capacidade de produzir a mais minúscula flor ou folha de relva; a sua maneira de proceder leva-o antes a fazer um desenho da flor ou da folha de relva que cresceram no solo do espírito de outrem e a apresentá-lo numa imagem compreensiva. Não se trata de salientar um defeito quando tal se afirma, e tudo corre bem desde que o que está a ser feito seja inteiramente claro. Só quando a natureza de uma obra judaica se confunde com a de uma obra não judaica é que há algum perigo, sobretudo se o autor da obra judaica também cai na confusão, o que muito facilmente lhe pode acontecer. (não dá a impressão de estar tão orgulhoso como se tivesse sido ele próprio a produzir o leite?)[4]

                É típico do espírito Judeu compreender a obra de alguém melhor do que a própria pessoa.

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                Muitas vezes, quando me emoluraram bem um quadro ou quando o pendurei no sítio certo, dei comigo a sentir-me tão orgulhoso como se eu próprio o tivesse pintado. Isso não é inteiramente verdadeiro: não ‘tão orgulhoso como se o tivesse pintado’, mas tão orgulhoso como se tivesse ajudado a pintá-lo, como se tivesse, por assim dizer, pintado uma pequena parte do quadro. É como se um jardineiro excepcionalmente dotado chegasse a pensar que ele próprio tinha produzido uma minúscula folha de relva. Ao passo que deveria ser claro para ele que o seu trabalho diz respeito a uma área totalmente diferente. O processo que leva ao nascimento até mesmo a mais pequena e mais insignificante folha de relva é algo com o qual ele nada tem a ver e do qual nada sabe.

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                Uma imagem de uma macieira, por mais perfeita que seja, é num certo sentido infinitamente menos semelhante à própria árvore do que a mais pequena margarida. E,  no mesmo sentido, uma sinfonia de Bruckner está infinitamente mais próxima de uma sinfonia do período heroico do que uma sinfonia de Mahler. Se a última é uma obra de arte, então é uma obra artística de um tipo totalmente diferente (mas este é, na realidade, um comentário spengleriano).

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                A propósito, quando estive na Noruega durante o ano de 1913-14, tive alguns pensamentos meus, ou pelo menos assim me parece agora. Quero dizer que tenho a impressão de que nessa altura dei vida a novos movimentos do pensamento (mas talvez esteja enganado). Ao passo  que agora pareço apenas aplicar velhos movimentos.

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                Há algo de Judeu no caráter de Rosseuau.

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                Diz-se por vezes que a filosofia de um homem é uma questão de temperamento, e nisso há algo de verdadeiro. A preferência por certas analogias poderia olhar-se como uma questão de temperamento e está na base de muito mais desacordos do que poderia afigurar-se.

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                ‘Considerem este tumor como uma parte perfeitamente normal do vosso corpo!’ Poderá isto fazer-se, segundo uma ordem? Terei o poder para decidir, à vontade, ter ou não ter uma concepção ideal do meu corpo?

                Na história dos povos da Europa, a história dos Judeus não se encara tão circunstancialmente como a sua intervenção nos assuntos europeus efetivamente mereceria, visto que nesta história eles são olhados como uma espécie de doença e anomalia, e ninguém quer pôr uma doença ao mesmo nível da vida normal [e ninguém quer falar de uma doença como se ela tivesse os mesmos direitos dos processos corporais saudáveis (mesmo os dolorosos)].

                Pode dizer-se: só pode encarar-se este tumor como uma parte natural do corpo se a sensação global do corpo se modificar (se o sentimento nacional pelo corpo se modificar na totalidade). De outro modo, o melhor que se pode fazer é suportá-lo.

                Pode esperar-se que um indivíduo mostre esta espécie de tolerância, ou então que ignore tais coisas; mas tal não se pode esperar de uma nação, visto que é precisamente o facto de não ignorar tais coisas que faz dela uma nação. Ou seja, é uma contradição esperar que alguém conserve o seu sentimento estético anterior pelo corpo e, simultaneamente, dê as boas vindas ao tumor.

                O poder e a posse não são a mesma coisa. Embora as coisas possuídas nos tragam também poder. Se se diz que os Judeus não tem qualquer sentido de propriedade, isso pode ser compatível com sua inclinação para serem ricos, pois o dinheiro é para eles uma espécie particular de poder, e não de propriedade (eu não gostaria, por exemplo, que o meu povo se tornasse pobre, visto que desejo que tenha uma certa quantidade de poder. Desejo também, naturalmente, que use esse poder de modo correto).

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                Existe decididamente uma certa afinidade entre Brahms e Mendelssohn; mas não me refiro à que se revela em trechos individuais das obras de Brahms e que fazem lembrar trechos de Mendelssohn – a afinidade de que falo poderia expressar-se melhor dizendo  que Brahms faz de um modo completamente rigoroso o que Mendelssohn fez apenas com medidas de rigor. Ou: Brahms é, com muita frequência, Mendelssohn sem as imperfeições.

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                Deve tratar-se do fim de um tema que não consigo identificar. Veio-me à cabeça, hoje, enquanto estava a pensar na minha obra filosófica e dizia para mim mesmo: ‘eu destruo, destruo, destruo’.

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                Disse-se por vezes que a natureza reservada e astuta dos Judeus é resultado da sua longa perseguição. Isto é certamente falso; por outro lado, é certo que apesar dessa perseguição eles só continuam a existir porque têm uma inclinação para uma tal reserva. Tal como se poderia dizer que este ou aquele animal escapou à extinção devido apenas à sua capacidade ou habilidade para se ocultar. É claro que não é intenção minha que tal possa de algum modo servir como razão para elogiar uma tal capacidade.

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                Não há qualquer traço, na música de Bruckner, do rosto comprido e magro (nórdico?) de Nestroy, de Grillparzer e Haydn, etc.; pelo contrário, o seu rosto é completamente redono e cheio (alpino?), mais puro até do que o de Schubert.

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                O poder que a linguagem tem de fazer que tudo pareça ser o mesmo, o que é mais notoriamente evidente no dicionário e torna possível a personificação do tempo: transformar em divindades as constantes lógicas não teria sido algo menos extraordinário.

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                Uma bela peça de vestuário transforma-se (coagula, por assim dizer) em vermes e serpentes, se aquele que a veste olha presunçosamente para si mesmo no espelho.

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                O prazer que me dão os meus pensamentos é o prazer que me dá a minha própria e estranha vida. Será isto a alegria de viver?

1932

                Os filósofos que dizem:  ‘depois da morte, terá início um estado intemporal’, ou  ‘no momento da morte inicia-se um estado eterno’, não se apercebem que utilizaram as palavras ‘depois’, ‘no’ e ‘inicia-se’ num sentido temporal, e que essa temporalidade está embutida na sua gramática.

Entre 1932-1934

                Lembrem-se da impressão que nos provoca a boa arquitectura, a impressão de que  expressa um pensamento. Leva-nos a querer responder com um gesto.

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                Não brinques com o que se encontra nas profundezas de outra pessoa!

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O rosto é a alma do corpo. 

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                É tão impossível ver-se, do exterior, o próprio caráter como ver-se a própria letra. Tenho, com a minha letra, uma relação unilateral que me impede de a ver em pé de igualdade com a letra de outros e de a comparar com as suas letras.

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                Em arte é difícil dizer-se algo tão bom como: nada dizer.

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                O meu pensamento, como o de toda a gente, tem a ele ligados os restos secos das minhas ideias (murchas) anteriores.

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                A força dos pensamentos na música de Brahms.

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                O caráter humano de várias plantas: roseira, hera, relva, carvalho, macieira, milho, palmeira. Comparado com as diferentes características que as palavras têm.

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                Se alguém quisesse caracterizar a essência da música de Mendelssohn, poderia fazê-lo dizendo que, possivelmente, Mendelssohn não escreveu nenhuma música difícil de compreender.

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                Cada artista foi influenciado por outros e mostra traços dessa influência nas suas obras; mas para nós o seu significado não é mais do que a sua personalidade. O que ele herda dos outros são apenas cascas de ovo. A presença destas deveria olhar-se com indulgênca, mas elas não nos proporcionarão alimento espiritual.

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                Por vezes, parece-me que já filosofo com gengivas desdentadas e que olho o falar sem dentes como a maneira correcta de falar, como a maneira que mais vale a pena. Consigo detectar algo semelhante em Kraus. Em vez de o reconhecer como uma deterioração.

1933

                Se alguém diz, suponhamos, que ‘os olhos de A têm uma expressão mais bonita que os olhos de B’, eu diria, nesse caso, que essa pessoa não está certamente a usar a palavra ‘bonito’ para se referir ao que é comum a tudo o que chamamos bonito. Está, pelo contrário, a jogar com a palavra um jogo com limites bastante estreitos. Mas o que é que isto revela? Teria eu presente alguma explicação restrita, particular, da palavra ‘bonito’? De modo nenhum.  – Mas talvez não venha sequer a sentir-me disposto a comparar a beleza da expressão de um par de olhos com a beleza da forma do nariz.

                Assim, talvez devêssemos dizer: se existisse uma língua com duas palavras de modo a que na houvesse referência a algo comum a tais casos, eu não teria dificuldade em  usar uma destas duas palavras especiais para o meu caso e a minha intenção não seria empobrecida.

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                Se digo que A  tem os olhos bonitos, alguém pode perguntar-me: que é que há de bonito nos olhos de A?, e eu talvez responda: a forma amendoada, as pestanas compridas, as pálpebras delicadas. O que é que estes olhos têm em comum com uma igreja gótica que também considero bela? Deveria dizer que me provocam uma impressão semelhante? E se dissesse que em ambos os casos as minhas mãos são tentadas a desenhá-los? Isso seria de qualquer maneira uma definição restrita do belo.

                Será muitas vezes possível dizer: procura motivos para chamares belo ou bom a algo e a gramática peculiar da palavra ‘bom’ tornar-se-á neste caso evidente.

1933-1934

                Penso ter resumido a minha atitude para com a filosofia quando disse: a filosofia deveria escrever-se apenas como uma composição poética. Deve ser possível, segundo me parece, inferir daqui até que ponto o meu pensamento pertence ao presente, passado ou ao futuro. Visto que estava por esse meio a revelar-me como alguém que não consegue fazer totalmente aquilo que gostaria de ser capaz de fazer.

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                Se usares um truque em lógica, a quem poderás estar a enganar senão a ti próprio?

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                Nomes de compositores. Por vezes, tratamos o método da projeção como dado. Quando perguntamos, por exemplo: qual o nome que se ajustaria ao caráter deste homem? Mas  por vezes projetamos o caráter no nome e tratamos este como dado. Nesse caso, temos a impressão de que os grandes mestres que conhecemos tão bem têm exatamente os nomes que convêm à sua obra.

1934

                Quando alguém vaticina que a próxima geração receberá estes problemas e os resolverá, trata-se geralmente de um anseio, de uma maneira de se desculpar a si próprio por aquilo que deveria ter realizado e não realizou. Um pai gostaria que o seu filho fosse bem sucedido onde ele não foi de modo a que o problema que ele deixou por resolver encontre, no fim de contas, a solução. Mas o seu filho enfrentará um novo problema.  O que quero dizer é: um anseio de que a tarefa não permaneça incompleta veste o disfarce de uma predição de que a geração seguinte progredirá em relação à ela.

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A irresistível capacidade de Brahms.

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                Se alguém está sentado, com pressa, num carro, empurrará involuntariamente, por mais que diga a si próprio que não está a empurrar o carro.

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Nas minhas atividades artísticas não tenho senão boas maneiras.

1936

                A estranha semelhança entre uma investigação filosófica (talvez especialmente na matemática) e uma investigação estética (v. g. o que está mal neste   trajo, como é que ele deveria ser, etc.).

1934 ou 1937

                Nos dias do cinema mudo todos os tipos de obras clássicas eram tocadas como acompanhamento, mas Brahms ou Wagner não.

                Brahms não, porque é muito abstrato. Posso imaginar uma cena emocionante num filme acompanhada pela música de Beethoven ou de Schubert e poderia obter algum tipo de compreensão da música a partir do filme. Mas tal não me ajudaria a compreender a música de Brahms. Por outro lado, Bruckner ficaria bom num filme.

1937

                Se ofereceres um sacrifício e com ele te sentires satisfeito, tanto tu como o teu sacrifício serão amaldiçoados.

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                O edifício do teu orgulho tem de ser desmantelado. E esse é um trabalho terrivelmente difícil.

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                Os horrores do inferno podem ser experimentados num único dia; é tempo de sobra.

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                Um manuscrito que se consegue ler fluentemente tem um efeito muito diferente de um manuscrito que se pode escrever, mas que não se decifra facilmente. Fecham-se nele os pensamentos como se de um pequeno cofre se tratasse.

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                A maior ‘pureza’ dos objetos que não afetam os sentidos, os números por exemplo.

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                A luz que o trabalho irradia é uma bela luz que, contudo, só brilha como uma beleza real, se for iluminada por uma outra luz.

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                ‘Sim, é assim’ dizes, ‘porque é assim que deve ser!’ (Schopenhauer: a verdadeira duração da vida é de 100 anos).

                ‘Evidentemente, é assim que deve ser!’ é como se se tivesse compreendido o desígnio de um criador. Alcançou-se o significado do sistema.

                Não perguntas: ‘Mas quanto tempo, de fato, vivem os homens?’, o que te surge agora como um assunto superficial, atendendo a que compreendeste algo mais profundo. (agora até a página 46)

*

A única maneira de defender as nossas asserções contra a distorção – ou de evitar o vazio das nossas asserções, é ter uma visão clara nas nossas reflexões do que é o ideal, isto é, um objeto de comparação – um padrão, por assim dizer – em vez de o transformarmos num preconceito com o qual tudo tem que se conformar. Isto é o que produz o dogmatismo em que tão facilmente degenera a filosofia[1].

                Mas nesse caso como é que um ponto de vista como o de Spengler se relaciona com o meu? A distorção em Spengler, o ideal não perde nada da sua dignidade se for apresentado como o princípio que determina a forma das reflexões de uma pessoa. Uma medida sólida.

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                Os ensaios de Macauley contêm muitas coisas excelentes; mas os seus juízos de valor  acerca das pessoas são aborrecidos e supérfluos. Sente-se vontade de lhe dizer: pára de gesticular! E diz apenas o que tens que dizer.

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                Diz-se que os primeiros físicos descobriram repentinamente que tinham pouca compreensão matemática para fazer frente à física; e pode dizer-se, quase da mesma maneira, que os jovem se encontram hoje num situação em que o vulgar senso comum já não é suficiente para fazer face às estranhas exigências da vida. Tudo se tornou de tal modo complexo que o seu domínio exigiria uma inteligência excepcional. Dado que a habilidade para jogar o jogo já não é suficiente, o problema que continua a pôr-se é: poderá esse jogo ser agora na realidade jogado? E qual é o jogo certo?

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                A maneira de resolver o problema que vês na vida é viver de  um modo que faça que o que é problemático desapareça.

                O fato de a vida ser problemática mostra que o contorno da tua vida não encaixa no molde da vida. Portanto, deves modificar a tua maneira de viver e, logo que a tua vida se encaixe no molde, o que é problemático desaparecerá.

                Mas não temos nós a sensação de que alguém que não vê qualquer problema na vida é cego para algo de importante, precisamente para a coisa mais importante de todas? Não pretenderei dizer que um homem assim vive sem destino – cegamente, como uma toupeira, e que se pudesse ao menos ver, veria o problema?

                Ou não deveria eu antes dizer: um homem que vive corretamente não experimentará o problema como tristeza e, portanto, para ele não será um problema, mas antes uma alegria; por outras palavras, para ele será um halo resplandecente em torno da sua vida, não um fundo dúbio.

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                As ideias, por vezes, também caem da árvore antes de estarem maduras.

*

                É importante para mim ir modificando a minha postura ao filosofar, não permanecer muito tempo sobre uma perna, para não ficar perro.

                Como alguém que ao subir uma montanha anda para trás por um breve espaço de tempo de modo a restabelecer-se e a esticar músculos diferentes.

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                O cristianismo não é uma doutrina, quero dizer, não é uma teoria sobre o que aconteceu e virá a acontecer à alma humana, mas uma descrição de algo que na realidade ocorre na vida humana. Pois a ‘consciência do pecado’ é um acontecimento real, e igualmente o desespero e a salvação pela fé. Os que falam de tais coisas (Bunyan, por exemplo) estão simplesmente a descrever o que lhes aconteceu, seja qual for o modo de se expressar.

*

                Quando imagino uma peça musical, como muitas vezes o faço todos os dias, ranjo sempre, assim o creio, ritmicamente os meus dentes. Já antes o notei, embora o faça, de um modo geral, quase inconscientemente. Mais ainda, é como se as notas que imagino fossem produzidas por este movimento. Creio que este pode ser um modo muito vulgar de ouvir música no íntimo. É evidente que posso também imaginar música sem mover os meus dentes, mas nesse caso as notas são muito mais espectrais, mais enevoadas e menos tímidas.

*

                No pensamento há também uma época de cultivo e uma época de colheita.

*

                O efeito  de levar os homens a pensar em conformidade com dogmas, talvez sob a forma de certas proposições gráficas, será muito peculiar: não estou a pensar nestes dogmas como determinantes da opiniões dos homens, mas antes como possibilitando o completo controlo da expressão de todas as opiniões. As pessoas viverão sob uma tirania absoluta, palpável, embora sem serem capazes de dizer que não são livres. Penso que a igreja católica faz algo bastante semelhante a isto. O dogma expressa-se na forma de uma asserção e é inabalável, mas ao mesmo tempo qualquer opinião prática pode ser, com ele, conciliável; em certos casos, como é evidente, mais facilmente do que noutros. Não se trata de um muro que estabelece limites daquilo em que se pode acreditar, mas sim algo semelhante a um travão que, contudo, serve na prática a mesma finalidade; é quase como se alguém prendesse um peso ao teu pé para restringir a tua liberdade de movimentos.

                O dogma torna-se assim irrefutável, para lá do alcance do ataque.

*

                Se penso num assunto apenas para comigo e sem uma intenção de escrever um livro, saltito à sua volta; é a única maneira de pensar que é em mim natural. Forçar os meus pensamentos a uma sequência ordenada é para mim um tormento. Valerá sequer a pena tentar, nestas circunstâncias, fazê-lo?

                Desperdiço uma quantidade indescritível de esforço na organização dos meus pensamentos, que talvez não tenha qualquer valor.

*

                As pessoas dizem, por vezes, que não podem fazer qualquer juízo sobre isto ou aquilo porque não estudaram filosofia. Eis um disparate irritante, porque o pretexto é o de que  filosofia é uma espécie de ciência. As pessoas falam dela quase como poderiam falar de medicina. Por outro lado, podemos dizer que quem nunca levou a cabo uma investigação do tipo filosófico, como, por exemplo, a maior parte dos matemáticos, não se encontra equipado com os órgãos visuais adequados a este tipo de investigação ou pesquisa. Quase da mesma maneira que um homem que não está habituado a procurar flores ou amoras, ou plantas na floresta, não encontrará nenhuma porque os seus olhos não estão treinados para as ver e não sabe onde deve procurar. De modo semelhante, alguém pouco versado em filosofia passa por todos os lugares em que se encontram escondidas na relva as dificuldades, ao passo que alguém que com ela tenha contatado deter-se-á e pressentirá que há uma dificuldade ali perto, embora ainda a não consiga ver. E não é motivo de admiração, para quem saiba quão longamente até mesmo o homem que tem prática da filosofia e que sabe que há aqui uma dificuldade tem que procurar até encontrar.

                Quando algo está bem escondido é difícil de encontrar. ( por vezes, mesmo praqueles que esconderam)

*

                Pode dizer-se que as alegorias religiosas se movem à beira de um abismo. Por exemplo as de B[unyan]. Pois se acrescentarmos simplesmente: ‘e todas estas armadilhas, areias movediças, falsos desvios, foram planteados pelo Senhor da Estrada, e os monstros, os ladrões e os assaltantes foram criados por Ele’, tal não é, certamente, o sentido da alegoria! Mas uma continuação deste tipo é demasiadamente óbvia! Para muitas pessoas, incluindo eu próprio isto rouba o poder à alegoria.

                Mas mais especialmente se esta for – por assim dizer – suprimida. Seria diferente se em cada momento se dissesse muito honestamente: ‘Uso isto como uma alegoria mas reparem: não encaixa aqui’. Nesse caso, não sentirias que estavas a ser enganado, que alguém te estava a tentar convencer através de um embuste. Pode dizer-se por exemplo, a alguém: ‘Agradece a Deus pelos bens que recebes, mas não te queixes do mal: como o faria, certamente, se um ser humano te fizesse alternadamente bem e mal’. As regras da vida vestem-se cerimoniosamente de imagens. E estas imagens apenas podem servir para descrever o que temos que fazer, não para o justificar. Porque elas só podiam fornecer uma justificação se fossem também válidas a outros respeitos. Posso dizer: ‘Agradece a estas abelhas pelo seu mel, como se elas fossem amáveis que para ti o prepararam’; isso é inteligível e descreve o modo como gostaria que te comportasse. Mas não posso dizer: Agradece-lhes, pois repara como são amáveis!’ – dado que no momento seguinte elas podem picar-te.

                A religião diz: Faz isto! – Pensa assim! – mas não pode justificar isto e, se o tentar sequer, torna-se repelente; porque para cada razão que apresenta há uma contra-razão válida. É mais convincente dizer: ‘Pensem assim! Por mais estranho que vos possa parecer’. Ou: ‘Não queres fazer isto? –  Por mais repugnante que seja’.

*

                Predestinação: só é permissível escrever assim debaixo do sofrimento mais terrível – e nesse cão significa algo de todo diferente. Mas pela mesma razão não é permissível a alguém afirmá-la como uma verdade, a menos que o diga em pleno sofrimento – simplesmente, não é uma teoria. Ou noutros termos: se tal é verdade, não é a verdade que parece ser, à primeira vista, expressa por estas palavras. É menos uma teoria do que um suspiro ou um grito.

*

                No decurso das nossas conversas, Russell exclamava frequentemente: ‘A lógica é o inferno!’ – E isto exprime perfeitamente o sentimento que tínhamos quando pensávamos nos problemas da lógica; quer dizer, a sua imensa dificuldade, a sua textura áspera e escorregadia.

                Penso que a principal razão para nos sentirmos assim era o seguinte fato: cada vez que um novo fenômeno linguístico nos ocorria, podia mostrar, retrospectivamente, que a nossa explicação anterior era inexequível (sentíamos que a linguagem podia sempre fazer exigências novas e impossíveis e que isto tornava qualquer explicação fútil).

                Mas essa é a dificuldade em que Sócrates se enreda ao tentar dar a definição de um conceito. Muitas vezes, emerge um uso de uma palavra que parece não ser compatível com o conceito que outros usos nos levaram a conceber. Dizemos: mas isto não é assim! – se bem que assim seja! E tudo o que podemos fazer é continuar a repetir as antíteses.

*

A nascente que corre suave e límpida nos Evangelhos parece escumar nas Epístolas de Paulo. Ou, pelo menos, é o que a mim  me parece. Talvez seja a minha própria impureza que me leva a vê-la com um aspecto turvo; pois porque não seria esta impureza capaz de poluir o que é límpido? Mas, para mim, é como se eu visse aqui a paixão humana, algo como o orgulho ou a cólera, que destoa da humildade dos Evangelhos. É como se afirmasse aqui com insistência a sua própria pessoa, fazendo-o, além do mais, como um gesto religioso, algo que é estranho ao Evangelho. Gostaria de perguntar – e que isto não se entenda como uma blasfêmia: “Que poderia ter Cristo dito a Paulo?” Mas uma réplica razoável seria: Que é que tens a ver com isso? Procura tornar-te mais honrado! No teu presente estado, és totalmente incapaz de compreender o que possa ser, neste caso, a verdade.

                Nos evangelhos – segundo me parece – tudo é menos religioso, mais humilde, mais simples. Lá encontras cabanas; em Paulo uma igreja. Lá todos os homens são iguais e o próprio Deus é um homem; em Paulo já há algo de semelhante a uma hierarquia, honras e posições sociais. Isso é o que me diz, por assim dizer, o meu faro.

*

Sejamos humanos.

*

                Acabei de tirar algumas maçãs de um saco de papel onde ficaram muito tempo. Tive de cortar metade de muitas delas e atirá-las fora. Mais tarde, quando estava a copiar uma frase que tinha escrito, cuja segunda metade era má, vi-a de repente com uma metade apodrecida de maçã. E é este o modo como as coisas se passam sempre comigo. Tudo o que comigo se cruza torna-se para mim uma imagem de que estou a pensar na altura (Haverá algo de feminino nesta maneira de pensar?).

*

                Ao fazer este trabalho dou comigo numa posição idêntica à de um homem que luta sem sucesso para se lembrar de um nome; num caso destes dizemos: “Pensa noutra coisa que logo te lembrarás”- e de modo similar tive de pensar constantemente noutra coisa de modo a permitir que  aquilo que eu tinha durante tanto tempo procurado me ocoresse.

*

                A origem e a forma primitiva do jogo de linguagem é uma reacção; só a partir daqui se podem desenvolver formas mais complicadas.

                A linguagem – gostaria de dizer – é  um aperfeiçoamento,  “no princípio era a ação”[1]

*

                Kierkegaard escreve: Se o cristianismo fosse tão confortante e acolhedor, por que motivo teria Deus posto em movimento, nas suas Escrituras, o Céu e a Terra e proferido ameaças de castigos eternos? – Pergunta: Mas então porque é tão  obscura a Escritura? Se queremos avisar alguém de um perigo terrível, fá-lo-emos propondo-lhe um enigma cuja solução é o aviso? – Mas quem é que nos diz que a Escritura é, de fato, obscura? Não será possível que fosse, neste caso, essencial “propor um enigma”? E que, por outro lado, a apresentação de um aviso mais direto tivesse, necessariamente, um efeito errado? Deus permite que quatro pessoas relatem a vida do Deus feito homem, em cada um dos casos de maneira diferente e com inconsistências – mas não poderíamos dizer: é importante que tal narrativa não seja mais do que medianamente plausível de um ponto de vista histórico, de modo a que este aspecto não se olhe como o essencial, o decisivo? De modo a que a letra não possa ser, mais fortemente do que é conveniente, objeto de fé e o espírito possa receber o que lhe é devido. Isto é, o que deves ver não pode ser comunicado, nem mesmo pelo melhor e mais rigoroso historiador; isso também te pode dizer o que te deve ser dito (Da mesma maneira que, em termos gerais, um cenário medíocre pode ser melhor do que árvores reais, porque estas podem distrair a atenção daquilo que é importante).

                O Espírito põe nas palavras o que é essencial, essencial para a tua vida. Tu deves apenas ver claramente o que também claramente se mostra  nesta representação (Não tenha a certeza de até que ponto tudo isto está exatamente presente no espírito de Kierkegaard).

*

                Na religião, cada nível de devoção deve ter a sua forma apropriada de expressão que não tem qualquer sentido num nível mais baixo. Esta doutrina, que significa algo a um nível mais alto, é desprovida de toda e qualquer validade para alguém que se encontra ainda no nível mais baixo; só a pode compreender erradamente e, por isso, estas palavras não são válidas para uma tal pessoa.

                A doutrina paulina de predestinação, por exemplo é, ao meu nível, um disparate repulsivo, irreligiosidade. Por este motivo não é conveniente para  mim, visto que o único uso que poderia fazer da imagem que me é oferecida seria um  uso errado. Se é uma imagem boa e religiosa, então é-o para alguém a um nível bastante diferente, alguém que a deve usar na sua vida de uma maneira de todo diversa daquela em que a posso usar.

*

                O cristianismo não se baseia na verdade histórica; oferece-nos antes uma narrativa (história) e diz-nos: agora acredita! Mas não: acredita nesta narrativa com a crença apropriada à narrativa histórica; mas sim: acredita, correndo todos os riscos, o que apenas podes fazer como resultado de uma vida. Tens aqui uma narrativa, não tenhas para com ela a mesma atitude que tem para com outras narrativas históricas! Constrói para ela um lugar completamente diferente na tua vida. – Não há nisso nada de paradoxal!

*

                Ninguém pode dizer de si próprio com verdade que é lixo. Porque se o digo, embora possa ser verdade num sentido, não é uma  verdade pela qual eu próprio possa ser penetrado: caso contrário, teria ou de enlouquecer ou de me modificar.

*

                Por estranho que pareça, poder-se-ia, historicamente falando, demonstrar a falsidade dos relatos históricos dos Evangelhos e, apesar de tudo, a fé nada perderia por este motivo: não, contudo, porque ela respeite as “verdades universais da razão”! Mas antes, porque a demonstração histórica (o jogo de demonstração histórico) é irrelevante  para a fé. Esta mensagem (Os Evangelhos) é apreendida com fé (isto é, com amor) por homens. É esta a certeza que caracteriza esta forma particular de persuasão, e nenhuma outra.

                A relação de um crente com estas narrativas não é nem relação com a verdade histórica (probabilidade), nem tão-pouco relação com uma teoria constituída por “verdades de razão”. Tal gênero de relação existe. – (Temos atitudes totalmente diferentes mesmo para com diferentes espécies do que chamamos ficção!)

*

                Leio: “Ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor a não ser através do Espírito Santo”[2]. – E é verdade: não posso chamar-lhe Senhor, porque tal não me diz nada. Poderia chamar-lhe “o modelo ideal”, até mesmo Deus; ou antes, quando ele assim é chamado, consigo compreendê-lo; mas não consigo pronunciar a palavra “Senhor” com sentido. Porque não acredito que ele virá julgar-me; porque isso nada me diz. E só poderia dizer-me algo, se vivesse de um modo completamente diferente.

                O que é que me faz até sentir inclinação para acreditar na Ressureição de Cristo? É como se eu brincasse com o pensamento.  – Se ele não tivesse ressuscitado, então ter-se-ia decomposto no túmulo, como qualquer outro homem. Está morto e decomposto. Nesse caso, é um professor como outro qualquer e já não pode ajudar; e, de novo, somos órfãos e nos encontramos sós. Temos assim de nos contentar com a sabedoria e a especulação. Estamos numa espécie de inferno onde não podemos fazer mais do que sonhar, cobertos como que por um telhado e separados do céu. Mas se vou ser REALMENTE salvo – necessito de uma certeza – não de sabedoria, de sonhos ou especulação – e esta certeza é a fé. E a fé é a fé naquilo de que necessita o meu coração, a minha alma, e não a minha inteligência especulativa. Pois é a minha alma com as suas paixões, por assim dizer, com a sua carne e sangue, que tem de ser salva, e não a minha razão abstrata. Talvez possamos dizer: Só o amor pode acreditar na Ressureição. Ou: é o amor que acredita na Ressureição. Poderíamos dizer: o amor redentor acredita até na Ressureição; apoia-se com firmeza até mesmo na Ressureição. O que combate a dúvida é, por assim dizer, a redenção. A adesão a ela deve ser a adesão a esta crença. Assim o que tal significa é: deves, primeiro, ser redimido e apoiar-te na tua redenção (agarrar a sua redenção) – em seguida, verás que te estás a agarrar a esta fé: mas tal só pode acontecer se o teu peso já não assentar na terra, mas se te suspenderes do céu: Então tudo será diferente e não será de “espantar” que possas fazer coisas que agora não podes fazer. (Um homem suspenso assemelha-se a um homem de pé, mas o efeito recíproco das forças nele presente é, contudo, bastante diferente, de modo que pode agir de uma maneira inteiramente diferente da de um homem que está em pé.)

*

                Nada podes escrever sobre ti que seja mais verdadeiro do que tu próprio és: eis a diferença entre escrever sobre ti próprio e escrever sobre objetos externos. Cada um escreve sobre si próprio de acordo com a altura a que se encontra. Não te encontras sobre umas andas ou numa escada, mas sobre os teus pés descalços.

*

                A ideia de Freud: Na loucura a fechadura não é destruída, apenas mudada; a velha chave já não a consegue abrir, mas ela poderia ser aberta por uma chave idealizada de modo diferente.

*

                Pode dizer-se que uma sinfonia de Bruckner tem dois inícios: começa uma vez com a primeira ideia e, em seguida, com a segunda. Estas duas ideias estão uma para a outra, não numa relação de parentesco de sangue, mas como homem e mulher.

*

                A nona sinfonia de Bruckner é uma espécie de protesto contra a nona sinfonia de Beethoven, e torna-se assim tolerável, o que não poderia ser se fosse uma espécie de imitação. Está relacionada com a nona sinfonia de Beethoven sensivelmente da mesma maneira que o Fausto de Lenau se encontra relacionado ao Fausto de Goethe, isto é, da mesma maneira que o Fausto Católico se encontra relacionado ao Fausto do Iluminismo, etc., etc.

*

                Nada é mais difícil do que não nos iludirmos a nós próprios.

*

                Longfellow:

                               Nos dias primevos da arte

                               Os construtores forjavam com maior cuidado

                               Cada mínima e invisível parte,

                               Porque os deuses estão em todo o lado.

(Isto poderia servir-me de divisa.)

*

                Fenômenos aparentados à linguagem na música ou na arquitetura. Irregularidade significativa – por exemplo, no Gótico (estou a pensar também nas torres da Catedral de São Basílio).

*

                A música de Bach assemelha-se mais à linguagem do que a de Mozart ou a de Haydn. Os recitativos dos contrabaixos no quarto movimento da nona sinfonia de Beethoven. (Compara-se também a observação de Schopenhauer sobre a música universal composta para um texto particular)[3].

*

                Na filosofia o vencedor da corrida é aquele que consegue correr mais lentamente. Ou: o último a atingir a meta.

1939

                Psicanalisar-se é, de certa forma, como comer o fruto da árvore do conhecimento. O conhecimento adquirido levanta-nos (novos) problemas éticos; mas não contribui em nada para a sua solução.

1939-1940

                Que falta à música de Mendelssohm? Uma melodia “corajosa”?

*

                O Antigo Testamento visto como o corpo sem cabeça; o Novo Testamento: a cabeça; a epístolas dos Apóstolos: a coroa sobre a cabeça.

                Quando penso na Bíblia Judaica, no Antigo Testamento apenas, sinto vontade de dizer: o corpo (ainda) não tem cabeça. Estes problemas não foram resolvidos. Estas promessas não foram cumpridas. Mas não me é necessário pensar uma cabeça com uma coroa.

*

                A inveja é algo de superficial – isto é: a cor característica da inveja não se torna mais intensa – a emoção mais intensa tem uma cor diferente (Isso, claro, não torna a inveja menos real).

*

                A medida do gênio é o caráter – embora o caráter, por si só, não seja equivalente ao gênio. O gênio não é o “talento mais o caráter”, mas o caráter que se manifesta sob a forma de um talento especial. Assim como um homem manifestará coragem ao saltar à água para socorrer alguém, outro manifesta-la-á escrevendo uma sinfonia (Eis um exemplo fraco.)

*

                Não há mais luz num gênio do que em qualquer outro homem honesto – mas ele possui um tipo particular de lentes que lhe permitem concentrar essa luz num ponto candente.

*

                Porque é que a alma é agitada por pensamentos inúteis? – No fim de contas eles são inúteis. Bem, ela é agitada por eles.

                (Como é que o vento pode agitar a árvore quando não é mais do que ar? Bem, agita-a, e não o esqueças.)

*

                Ninguém pode expor a verdade se ainda não a conhece a fundo. Não a pode expor; mas não porque não seja ainda suficientemente inteligente.

                A verdade pode apenas ser exposta por alguém que se sinta relativamente a ela como em sua casa; não por alguém que ainda vive na falsidade e passa desta à verdade apenas numa ocasião.

*

                Contentamo-nos com os louros obtidos é tão perigoso como descansar quando se caminha na neve. Passamos pelo sono que morremos.

*

                Um exemplo de quão incrivelmente frívolos são os desejos é o desejo que tenho de preencher por escrito, tão rapidamente quanto possível, um belo caderno de apontamentos. Nada daí obtenho; não o desejo porque, digamos, seja uma prova da minha produtividade; nada mais é do que um anseio de me libertar sem demoras de algo familiar; embora, assim que liberte, tenha de começar um novo e repetir todo o processo.

*


[1]  Goethe, Fausto, parte I.

[2]  I Coríntios, 12.

[3]  Schopenhauer, “A metafísica da música”, em   ‘O Mundo como Vontade e Representação’, capítulo 39.



[1]  Cf. Investigações Filosóficas, I, § 131.


[1] Heinrich von Kleist, Carta de um Poeta a Outro, 5 de janeiro de 1811.

[2] Conjectura dos organizadores.

[3]   Há aqui, porventura, uma alusão ou ao poema de Goethe “Vanitas! Vanitatum vanitas” ou, segundo Rush Rhees, ao primeiro capítulo da obra Der Einzige und sein Eigentum de Max Stirmer.

[4]   Esta frase entre parenthesis é do poema em prosa “O sonho de Eduardo” de Wilhelm Busch.

(até o momento, chegamos à página 52 e seguindo…)

(importante lembrar que estou mantendo a grafia do livro/original, então podem aparecer palavras enunciadas de uma forma inusual, grato pela compreensão, e comentem, votem, sigam mas, sobretudo leiam e divirtam-se


[1] Arvid Sjögren, amigo e parente de L.W.

[2]  RENAN, Ernest. Histoire du Peuple d’Israel, vol. 1, cap. III.

[3]  Um primeiro esboço do prefácio à obra Observações Filosóficas, publicada por Rush Rhees. Basil Blackwell, Oxford, 1964.

[4]  Ver nota anterior.

[5]  G. E. Lessing, Die Erziehung des Menschengeschlechts.  # 48-49 [ A Educação do Género Humano].

(prefácio do livro CULTURA E VALOR de Ludwig Wittgenstein (meu livro de cabeceira, minha pequena bíblia de semioses conceituais, o livro que mais amo dele) assim como vou digitalizar a obra toda, sinto demasiado importante enunciar os prefácios ou as introduções aos livros de Wittgenstein, muitas das vezes  foram fundamentais no entendimento da obra como um todo ao mesmo tempo que é fascinante observar o desenrolar e desenvolver das tramas sócio-acadêmico-literário-epistêmicas que surgem a partir das referências contextuais e procedimentos ordinários para a consecução de uma obra de tal porte, como sempre lembro, não deixem de comentar, questionar, seguir, votar mas, sobretudo, ler e se divertir com a arte de ler, agradecido – ainda esta semana tem mais material)

2 comentários

    • AH, BOM DIA CARÍSSIMO…………ANTES FOSSEM MINHAS………….NÃO, O TRACTATUS LOGICO-PHILOSOPHICUS TEM 256 PROPOSIÇÕES……….RAMIFICADAS A PARTIR DESTAS 7 PROPOSIÇÕES PRINCIPAIS………..E A ÚLTIMA, ‘DO QUE NÃO SE PODE FALAR, DEVE-SE CALAR’ ……É UM PROPOSIÇÃO ÚNICA, SEM RAMIFICAÇÃO E QUE FECHA O TRACTATUS………….amo esse cara, renasci com ele………..fazer FILOSOFIA não foi nada perto de ‘estudar wittgenstein’………….TUDO DE BOM QUERIDO, GOSTA DO TIO WITT?? JÁ LEU OUTRAS OBRAS DELE? procure ter ‘CULTURA E VALOR’ …….é muito delicioso…………té mais!

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